Brasil tem pelo menos 3,5 mil mortes sem diagnóstico

No início do mês, eram 1,5 óbitos aguardando resultados. Mas governo diz que está eliminando subnotificação…

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Pela segunda vez em uma semana, o Brasil registrou mais de mil mortes em 24 horas. Foram 1.188 entre quarta e quinta-feira, levando a um total a 20.047 óbitos. O número de infecções conhecidas chegou a 310 mil, com 18,5 mil novos casos.

Os registros continuam velhos, o país continua perdido. Na coletiva de imprensa ontem, Eduardo Macário, diretor do Departamento de Análise em Saúde e Vigilância em Doenças Não Transmissíveis, afirmou que até agora a data de 5 de maio foi a que, de fato, teve o maior número de óbitos num único dia: 480. Foi apresentado um gráfico mostrando que, a partir de então, tem havido um decrescimento das mortes.

Ocorre que as investigações não foram todas concluídas. Voltando um pouco no tempo, vemos que no dia 5 de maio o número de óbitos divulgado pelo Ministério foi de 600, mas na época a pasta informou que só 25 deles tinham realmente acontecido nas 24 horas anteriores. Se hoje o governo sabe que houve 480 mortes naquela data, isso quer dizer que outras 455 foram registradas depois. Ou seja: não dá para confiar nem um pouco nessa aparente diminuição das mortes desde o dia 5.

Pelo menos Macário reconheceu que se trata de uma falsa impressão, afirmando que não há “subsídios suficientes” para identificar se o Brasil já atingiu o pico da pandemia. Na verdade, daria para ser bem mais específico do que isso e dizer que, muito provavelmente, o pico não passou. Basta olhar para a sobrecarga na rede de saúde de vários estados e municípios e para a forma como o vírus vem se espalhando Brasil adentro. Fora que o volume de mortes sem diagnóstico fechado não para de crescer, apesar de que, segundo Marcário, “essa demora já foi muito maior no passado, e agora a gente consegue ter uma celeridade nessas investigações”. Os números, mais uma vez, o contradizem: nesse momento, há 3,5 mil óbitos em investigação. No dia 5, eram 1,5 mil.

Quanto ao número de casos, o Ministério da Saúde tem uma teoria interessante para explicar por que a curva brasileira está crescendo de forma mais acentuada do que aconteceu nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália, na França e na Espanha (sempre comparando com o dia da entrada do vírus em cada país): é que agora o Brasil estaria correndo atrás de eliminar a subnotificação, com o “aumento na capacidade laboratorial”. De acordo com Macário, estamos “identificando uma curva bem próxima do número de casos real”. O Brasil ainda é um dos países que menos testam no mundo. É preciso muito boa vontade para crer nessa explicação.

Em tempo: sempre ganhando manchetes com farfalhadas, o presidente Jair Bolsonaro disse em sua live de ontem que no Brasil morre “muito mais gente de pavor” do que de covid-19. “No meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira“, insistiu.

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