Bolsonaro intensifica sua campanha pró-vírus

Mais uma vez, presidente propõe falsa escolha entre saúde e renda

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A média móvel de mortes por covid-19 no Brasil bateu mais um recorde ontem, ficando em 1.208 óbitos diários. Praticamente o país inteiro está indo de mal a pior: em 17 capitais, a taxa de ocupação das UTIs ultrapassa os 80%. Entre os estados, são 12 nessa mesma situação. 

Temos acompanhado nos últimos dias a decisão de gestores locais de aumentarem suas medidas de restrição; e, segundo o Painel da Folha, governadores e secretários estaduais de saúde estão pedindo a Eduardo Pazuello que seja adotada uma “medida única” em todo o país. O jornal diz que representantes do Ministério da Saúde reconhecem essa necessidade, mas afirmam que se trata de uma missão impossível, porque “Jair Bolsonaro não deixa”

Se a campanha anti-prevenção sempre foi forte por parte do presidente, neste fim de semana ele renovou seus ataques, centralizando as provocações nos governos locais. Na sexta-feira, ele esteve no Ceará e disse que o novo auxílio emergencial só será pago por mais alguns meses e, daí por diante, os governadores que ‘fecharem seus estados’ é que devem bancá-lo. A fala aconteceu em meio a uma aglomeração, é claro.

No Distrito Federal, o anúncio de um lockdown levou uma horda de manifestantes até a casa do governador. Portando muitas faixas e cartazes (mas poucas máscaras), eles pediam o fim do decreto – e qualquer coincidência com o que aconteceu em Manaus em dezembro do ano passado, dias antes do colapso, não é mera coincidência. 

Bolsonaro não perdeu tempo e compartilhou imagens em suas redes sociais. Os revoltosos venceram: o governador do DF, Ibaneis Rocha, publicou novo decreto amaciando as regras, e agora vários estabelecimentos, incluindo igrejas, vão poder funcionar normalmente. Mas, ao contrário do que aconteceu no Amazonas, shoppings, bares e comércio em geral não foram contemplados. Menos mau.

Ontem, o presidente se reuniu com os presidentes da Câmara e o Senado, junto com vários ministros, para tratar de “vacina, auxílio emergencial; PEC Emergencial, emprego e situação da pandemia”, segundo um post de Bolsonaro. O Estadão apurou que o encontro serviu para contar votos para a aprovação da PEC, cuja votação está marcada para o dia 3. A fotografia do encontro é ridícula: dos sete presentes, só Paulo Guedes, Rodrigo Pacheco e Arthur Lira usam máscaras. Bolsonaro e seus ministros generais, incluindo o da Saúde, não usam proteção.

Em tempo: a discussão sobre a abertura de uma CPI para investigar a atuação do governo na pandemia ainda está em pauta no Senado. O jornalista Guilherme Amado, da Época, conseguiu mensagens de WhatsApp de oito parlamentares defendendo não só a CPI como o impeachment, logo após a visita de Bolsonaro ao Ceará. São de oito legendas: PSD, MDB, PT, Cidadania, Rede, PROS, Podemos e Republicanos. 

Medo verdadeiro

Ontem Jair Bolsonaro voltou a gritar contra os fechamentos, escrevendo no Facebook em letras garrafais: “HOJE, ao FECHAREM O COMÉRCIO e novamente te obrigar a FICAR EM CASA, vem o DESEMPREGO EM MASSA com consequências desastrosas para todo o Brasil”.

Desnecessário dizer que esse argumento encontra eco na população. E não sem razão de ser, já que a necessidade de se manter financeiramente é real. Um levantamento do Instituto Travessia para o Valor indica que 11% das mil pessoas entrevistadas precisaram cortar até a compra de itens básicos em 2020, mesmo tendo havido auxílio emergencial. Quando perguntadas sobre sua maior preocupação para 2021, 38% citaram o desemprego. Foi o maior medo, seguido por “segurança” (18%), “inflação” (15%), “falta de vacina” (14%), “piora no atendimento a pacientes com covid” (8%) e “crise política” (7%).

Não por acaso, a pesquisa mostra que a defesa de medidas severas caiu: em abril de 2020, 57% queriam o amplo fechamento do comércio e outras restrições à mobilidade. Agora, são 39% e, em contraste, 52% defendem um “isolamento parcial”. Para o azar do presidente, isso não significa que essas pessoas estejam de acordo com sua condução na pandemia. Ao contrário, 66% disseram não confiar na sua capacidade de gerenciar a crise.

Enquanto isso, entramos no terceiro mês sem auxílio emergencial.

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