Batemos mais um recorde (e isso é ruim)

Saiu ontem o Atlas da Violência 2018.

Essa e outras notícias aqui, em oito minutos.

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BATEMOS MAIS UM RECORDE (E ISSO NÃO É BOM)

Saiu ontem o Atlas da Violência 2018, com informações de 2006 a 2016 e produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (o documento completo está aqui e a BBC resumiu os pontos principais em tópicos). O Ipea destaca que em 2016, pela primeira vez, Brasil ultrapassou a marca de 30 homicídios por 100 mil habitantes: a média foi de 30,3. Mas médias são apenas médias, e é olhando para as diferenças entre estados e para o perfil das vítimas que o problema ganha contornos mais evidentes.

As sete maiores taxas estão no Norte e no Nordeste. No topo da lista está Sergipe, com 64,7. E, no Rio Grande do Norte (53,4), ela aumentou 256,9% no período – enquanto em São Paulo, por exemplo, diminuiu 46,7%. O relatório diz que a queda em São Paulo se deve a políticas públicas, mas também há a hipótese “da pax monopolista do PCC, quando o tribunal da facção criminosa passou a controlar o uso da violência letal, o que teria diminuído homicídios em algumas comunidades”. Ao JB, o coordenador do Ipea Daniel Cerqueira diz que esse é o fator mais polêmico.

Quem mais morre assassinado são homens de 15 a 29 anos: 94,6% dos assassinados são do sexo masculino, e a taxa de homicídios entre homens nessa faixa etária é de 122,6 a cada 100 mil habitantes, ou seja, mais de 4 vezes maior que a média. Novamente ela é mais alta no Norte e Nordeste e, em Sergipe, é alarmante: 280,6. O documento também mostra que os homicídios são a causa de morte de 56,5% dos homens entre 15 e 19 anos. Da Folha: “Em 11 anos, o Brasil enterrou 324.967 jovens assassinados – quase sete vezes o número de soldados americanos mortos em ação (47.434) em 20 anos da Guerra do Vietnã”

E, se as edições anteriores do Atlas já mostravam que as mortes têm cor definida, a deste ano diz que isso se acentuou no período estudado. Em 2016, 71,5% de todas as pessoas assassinadas eram pretas ou pardas e, enquanto entre elas a taxa de homicídios aumentou 23,1% e chegou a 40,2 mortes (bem maior que a média), entre brancos, amarelos e indígenas ela diminuiu 6,8% e ficou em 16 mortes por 100 mil habitantes. Entre mulheres, a taxa de homicídios de negras não apenas é maior do que a de não negras (5,3 contra 3,1) como aumentou 15,4% no período, enquanto a de não negras caiu 8%.

Estupros: metade deles foram cometidos contra crianças de até 13 anos e 10,3%  de todas as vítimas tinham alguma vulnerabilidade física ou mental. E, dos estupros coletivos, 12,2% miraram pessoas com deficiência.

SEXO OU ESTUPRO?

Por falar em estupro, a matéria de Bruna de Lara no Intercept relata, com base em pesquisas e entrevistas, que muitas vezes jovens não sabem estabelecer o limite entre o crime e a relação sexual.

O texto diz que as coisas tendem a piorar, porque, se bem sucedido, o projeto de lei do Escola Sem Partido vai acabar com a possibilidade de prevenção nas escolas, já que não permite o debate sobre gênero nesses espaços.

VEJA CONDENADA POR FAKE NEWS

O ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e sua esposa, Thássia Alves, processaram a revista Veja por conta da matéria ‘Farsa do SUS’, veiculada em 2015. Na época, a filha do casal nasceu em um hospital público em São Paulo e a revista falou em uma ‘maquiagem’ da instituição, que teria trazido obstetras e médicos neonatologistas de outras unidades especialmente para o parto e cuidado com a criança (ela chegou a ficar internada na ITU neonatal). “A matéria era completamente sem lógica, muito claramente uma matéria construída com base num boato, que ninguém conseguiu identificar de onde vinha, sem elo com a realidade”, diz Thássia ao Brasil de Fato. O processo foi contra a revista, o repórter Felipe Moura Brasil e a Editora Abril, e o casal venceu. Vai receber indenização de R$ 10 mil.

NA ANS

Contamos aqui quando a Comissão de Assuntos Especiais do Senado deu sinal verde, e agora o plenário votou e aprovou a indicação de Rogério Scarabel Barbosa para a diretoria da ANS. A Abrasco e o Idec se posicionaram contra desde o início, simplesmente porque o advogado é sócio de uma firma que representa interesses de operadoras de planos de saúde.

E a Agência decretou ontem a liquidação extrajudicial da operadora Multi Saúde, por comercializar planos sem registro na ANS.

RISCOS DAS NOVAS REGRAS

Teve audiência pública ontem na Câmara sobre a regulamentação das cobranças de franquia e coparticipação nos planos de saúde (em que o cliente paga, pelos serviços, quantias além da mensalidade). Para entidades de defesa do consumidor, os serviços acabam finando inacessíveis, devido ao preço.

AGRO

Na Agência Pública, os movimentos da bancada ruralista para aprovar o Pacote do Veneno – desde as articulações até fraudes bem explícitas, como quando um desconhecido foi flagrado votando entre os deputados. O homem, revela a matéria, é o engenheiro agrônomo & lobista Henrique Hummel Vieira, diretor-executivo do Instituto Pensar Agropecuária, uma entidade que, apesar de pouco conhecida do público, “controla, nos bastidores, a poderosa bancada ruralista”

NÚMEROS DO HIV

Uma pesquisa encomendada pelo Ministério da Saúde e publicada no periódico Medicine mostrou que, na cidade de São Paulo, um quarto dos homens que fazem sexo com outros homens têm o vírus HIV. Entre 15 e 19 anos, a taxa de soropositivos triplicou e, entre 20 e 24 anos, dobrou. A professora Ligia Kerr, da Universidade do Ceará, coordenou a pesquisa e diz que um dos fatores que explicam a prevalência do vírus entre essa população é a falta de campanhas. “Foi uma pressão muito grande da bancada conservadora que a gente chama de bala, boi e bíblia. Cartilhas que falavam sobre sexualidade e que já estavam impressas foram proibidas de ser distribuídas nas escolas. Foram proibidas propagandas de TV. É como se a Aids tivesse desaparecido”, diz à Folha.

VOLTANDO AO CÂNCER

Comentamos ontem o caso da mulher que foi curada de um câncer terminal a partir de uma terapia baseada em suas células de defesa, o que é chamado de imunoterapia. A partir de uma carta enviada por médicos ao periódico New England Journal of Medicine, este texto de Denise Grady, no New York Times, reforça o quanto esse tipo de tratamento ainda é incerto e arriscado. Apesar de haver casos de sucesso, há outros em que os pacientes pioram rapidamente, em vez de melhorar. Nos relatados pela autora, a medicação tinha custo anual de mais de 100 mil dólares e não estava aprovada para o tratamento em questão.

EPIDEMIA DE SARAMPO

Em Roraima, já são 172 pessoas infectadas: foram 30 novos registros em apenas uma semana, todos  são importados da Venezuela. O MPF fez recomendações aos governos federal, estadual e também à prefeitura de Picaraima, onde a situação dos imigrantes é pior. Entre as recomendações em relação à saúde, está a de que  todos os abrigos tenham uma equipe multidisciplinar.

NA ÍNDIA

O vírus Nipah já matou pelo menos 17 pessoas das 18 com diagnóstico confirmado, e há milhares de pessoas em quarentena e em observação médica.  O vírus é transmitido de animais para humanos – morcegos que comem frutas são os hospedeiros naturais – mas ainda não se sabe qual foi a fonte dessa epidemia. Desde 1998, o Nipah já matou 280 pessoas em Bangladesh, Malásia, Índia e Singapura.

AGENDA

Violência, Mídia e Saúde: seminário hoje às 13h30 na Fiocruz.

Só hojeinscrição para cursos de férias do Instituto Oswaldo Cruz.

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