Asfixiados

Os trabalhadores mortos em armazéns de grãos, as entrevistas dos presidenciáveis e outras notícias

Os trabalhadores mortos em armazéns de grãos, as entrevistas dos presidenciáveis, um verdadeiro negócio da China e outras notícias aqui, em dez minutos:

ASFIXIADOS 

Falamos aqui do alto número de acidentes de trabalho no Brasil. Mas os números, com alguma frequência, mascaram as histórias por trás deles. E há algumas pavorosas, como revela o repórter João Fellet da BBC. É o caso das pessoas soterradas em armazéns de grãos. Gente como Edgar Fernandes, 30 anos, e João Rosa, 38, que, chamados para desentupir um duto de um armazém carregado com várias toneladas de soja, afundaram nas partículas e morreram, em poucos segundos, asfixiados. A reportagem levantou casos país afora e descobriu que, desde 2009, ao menos 106 pessoas tiveram um fim igual. São invisíveis, porém, em meio à euforia com as supersafras do agronegócio. Os estados que lideram a macabra taxa são: Mato Grosso (28), Paraná (20) e Rio Grande do Sul (16). Vale a pena a leitura.

MACONHA MEDICINAL E GRINGA

O negócio da Medical Marijuana no Brasil começou há quatro anos, quando uma mãe conseguiu na Justiça o direito de importar um medicamento à base da maconha para tratar as crises convulsivas de seu filho. E, só no segundo trimestre de 2018, as receitas da empresa cresceram 40%. O grupo, que é dos EUA, controla vários negócios: “A HempMeds é a responsável pelo Canabidiol e tem subsidiárias no Brasil e no México. A Kannalife Sciences se dedica à pesquisa de novos tratamentos. A Kannaway vende produtos como óleos terapêuticos e vaporizadores. A mais nova é a Phyto Animal Health, que faz remédios para acalmar bichos de estimação”, elenca a jornalista Ana Paula Ragazzi, na Folha.

No Brasil ainda não é permitido plantar nem comercializar derivados, Mas a empresa já faz os famosos (e controversos) contatos diretos com médicos. “Nós conversamos com médicos, organizamos eventos e tentamos esclarecê-los sobre os efeitos benéficos do tratamento. Um primeiro passo para ajudar na popularização do uso aqui é o contato com essa comunidade”, diz Caroline Heinz, vice-presidente da HempMeds.

NEGÓCIO DA CHINA

Ontem falamos de como uma cobertura universal na saúde não garante o fim dos problemas, e agora uma matéria do Supchina dá bem essa dimensão. O sistema de saúde chinês não é baseado no direito universal à saúde pública gratuita. Quase todo mundo – 97% da população – tem acesso a seguros de saúde financiados pelo Estado, mas as pessoas precisam pagar por parte dos serviços, mesmo em instituições públicas. E a situação é difícil. Quando chegam aos hospitais públicos, pacientes pagam por um bilhete de agendamento de “cuidado especial” ou um bilhete “cuidado regular”, baseado em quanto eles estão dispostos a pagar. As filas de espera no caso de problemas mais complexos, como câncer, “podem se tornar insuportáveis”, mesmo com a facilidade de agendamentos online ou por telefone.

“Nos últimos anos, cambistas fizeram um negócio de ficar na fila para conseguir ingressos e depois vendê-los a preços exorbitantes para pacientes desesperados para procurar um médico. Em 2016, um  vídeo  que mostrava uma mulher com a mãe doente lutando contra cambistas viralizou, criou um clamor público e trouxe apelos por sentenças criminais. Embora as autoridades tenham prometido medidas mais rigorosas, a demanda dos pacientes por médicos de alta qualidade é tão alta que pouco mudou. No vídeo, a mulher acusa o hospital de negligência: ‘O bilhete de agendamento de ‘cuidados especiais’ custa 300 yuans (US $ 42), mas o cambista está pedindo 4.500 yuans (US $ 642). Por que é tão difícil para um cidadão comum consultar um médico hoje em dia? O hospital e os cambistas estão em conluio!'”, descreve a reportagem. A ‘solução’ tem vindo por mais um serviço privado: apps de agendamentos  (já existem dois mil deles). Mas um entrevistado explica que “é que às vezes os pacientes na China simplesmente não conseguem ver um médico sem a ajuda de um cambista”.

CONTA SURPRESA

E nos Estados Unidos, é comum que pessoas que têm seguros privados de saúde recebam contas inesperadas de hospitais. Isso pode acontecer, por exemplo, se você é atendido, dentro de uma unidade coberta pelo plano de saúde, por um médico que não tem acordo com aquele plano. Mas ninguém te fala nada e a conta chega depois. Outra situação comum, que aconteceu com o professor de história Drew Calver, é, numa emergência você precisar ser levado ao hospital mais próximo e, pelo fato de a unidade não ser coberta pelo plano, chegar na sua conta a chamada “conta de balanço”. Calver teve um ataque cardíaco, estava sozinho em casa com a filha pequena e foi levado por um vizinho ao hospital mais perto. Lá, mesmo passando mal, lhe asseguraram que tudo seria pago pelo seguro. Mas a empresa de seguro, Aetna, e o hospital não entraram em acordo sobre o valor da conta. Bem salgada: US$ 164,941 pela cirurgia e quatro dias de internação. E, assim, um dia chegou pelos correios a cobrança pelo resto do valor: quase US$ 109 mil.

Esse tipo de prática é comum por lá, e até é regulada em alguns estados, como Califórnia e a Texas onde Calver vive, para proteger os consumidores. Mas não para todos os planos. O de Calver é paga por seu empregador e esse tipo de plano, o mais comum, é regulado por uma lei federal que não protege as pessoas. “O caso ilustra os riscos que mesmo pessoas com seguros de saúde correm”, diz a advogada Carol Lucas para a KHN. E, por aqui, demonstra que a regulação da copartipação e da franquia, quando as pessoas pagam em parte por procedimentos, atualmente suspensa pelo STF e em discussão na ANS, precisam proteger o consumidor. E, claro, como um país dependente de seguros e planos de saúde causa muita dor de cabeça para seus cidadãos.

AFINAL, FOI NOMEADO

Foi publicada no Diário Oficial de segunda (27/8) a nomeação de Rogério Scarabel Barbosa para o cargo de diretor da ANS. Terá três anos de mandato. A Abrasco e o Idec haviam se posicionado contra sua indicação, alertando que ele era sócio de um escritório que representa interesses de empresas de planos de saúde diante da Agência. Houve cartas e pressão pela imprensa. Em tempos de democracia blindada, como se vê, não vingou.

E o número de reclamações sobre coparticipação e franquia nos planos aumentou 73% em quatro anos, informa o Estadão. Em alguns casos, o percentual cobrado dos clientes chegou a 100% do procedimento realizado.

VOUCHERS E CASAMENTOS

Ontem foi o dia de Jair Bolsonaro no Jornal Nacional. Não se falou de saúde por lá. Mas, na sequência, ele foi à Central das Eleições, na GloboNews. E Gerson Camarotti perguntou sobre propostas do programa eleitoral: cadastro universal dos médicos e integração do SUS com o setor privado. Foi assim que Bolsonaro explicou: “O ‘elemento’ pode ser atendido por qualquer médico. Teria um tal de voucher para você bancar isso por parte do governo caso ele procurasse um médico particular. Mas tem um valor. Vai ter uma quantidade de consultas por mês, exatamente para evitar fraude”.

Já a criação da carreira de Estado para médicos seria voltada para prover profissionais para locais “longínquos”. O candidato quer substituir os médicos cubanos do programa Mais Médicos e afirma que – dá-lhe fake news – “não temos nenhuma certeza de que são médicos”. Perguntado se ele obrigaria os médicos a se deslocarem (questão que não faz sentido, já que a proposta é justamente criar uma carreira pública com esse propósito) Bolsonaro deu uma resposta muito confusa de que não obrigaria, e que o médico contratado nessa carreira pública poderia atender no particular ou no serviço público.

O jornalista Merval Pereira quis saber mais detalhes e eis o que Bolsonaro disse: “Nos tínhamos no passado o Projeto Rondon. Eu servi no Mato Grosso do Sul por três anos. Era comum a gente receber leva de 15 médicos pra prestar o serviço militar obrigatório de um ano. E era comum pelo menos um médico casava-se (sic.) na cidade. Era tudo homem, não ia mulher. Casava-se na cidade e foi interiorizado dessa maneira. Com a carreira de Estado você vai botar no interior de Pernambuco – eu não conheço – (…) ele pode querer ficar lá, ou pedir demissão porque contraiu matrimônio e vai montar seu escritório lá. Isso pode acontecer (…) Essa interiorização vem por aí”.

LEVANTA BRASIL

Guilherme Boulos também deu entrevista ontem, mas à EBC. Ele prometeu dobrar os recursos da saúde e criar o programa ‘Levanta Brasil’, com um investimento de R$ 180 bilhões na construção de escolas, hospitais, creches, moradia popular e saneamento, para geração de emprego e renda. “Se a gente taxar grandes fortunas, se fizer essa reforma tributária, quem tem mais vai pagar mais. Nós vamos dobrar, mas não de qualquer jeito”. Ele também quer ampliar o salário mínimo (o horizonte é R$ 3,8 mil), aumentar os valores do Bolsa Família e desapropriar habitações abandonadas: “fazer a lei ser cumprida”.

JOÃO E MARINA

Os dois candidatos participaram ontem da sabatina Estadão-FAAP. Entre os destaques elegidos pelo jornal, a saúde aparece bem pouquinho. Marina Silva (Rede) repetiu a ideia de fazer plebiscito sobre aborto e disse que é contra a descriminalização de drogas, mas pode fazer plebiscito sobre isso também. E em relação a recursos financeiros, defendeu “o enxugamento da máquina pública” – mas disse que pretende “preservar os investimentos” na saúde e na segurança. Na reforma trabalhista, prometeu rever “pontos inaceitáveis”, como o trabalho intermitente e o trabalho de grávidas em locais insalubres. João Amoêdo (Novo) disse que vai promover  uma reforma tributária sem elevação da carga e defendeu que o Estado deve focar nas atividades essenciais e incluiu a saúde e a educação neste rol. Ele também defende a flexibilização do porte de armas, é contra a descriminalização do aborto e não quer tratar da legalização de drogas neste momento: “Vamos resolver os problemas que a Suíça já resolveu e depois a gente se preocupa com isso”, comentou.

REMENDAR O AJUSTE

Banco Mundial elaborou um documento com recomendações aos candidatos à presidência e uma das propostas é deixar os investimentos públicos fora da regra do teto dos gastos. É que eles geram impacto maior na geração de renda do que as despesas correntes. Mas o texto propõe um ajuste mais duro sobre as despesas correntes, mantendo limitações nos salários de servidores e nos benefícios previdenciários.

LANÇAMENTO

Hoje é Dia Nacional de Combate ao Fumo. E, daqui a pouquinho, às 9h, acontece na Fiocruz do Rio, o lançamento do livro Roucos e sufocados, que desvenda a história da indústria do fumo no Brasil. Fruto de uma investigação jornalística, a publicação vai a fundo na análise da retórica que mistura os interesses de pequenos produtores rurais em busca da sobrevivência e das transnacionais do tabaco, interessadas em potencializar seus lucros. Foi escrito por João Peres e Moriti Neto, editores do site O Joio e o Trigo.

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