As reviravoltas envolvendo a missão da OMS na China

Surge acusação de que país asiático se negou a entregar dados. Parte da equipe nega problema e atesta cooperação. Cresce hostilidade entre China e EUA, agora com Biden no comando

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Poucos dias após o fim da missão de especialistas independentes liderada pela OMS que foi à China investigar as origens do SARS-CoV-2, o diretor-geral da Organização, Tedros Ghebreyesus, veio a público aparentemente contradizendo os pesquisadores. Na sexta-feira, ele disse que nenhuma hipótese foi descartada – enquanto, em coletiva de imprensa no último dia 9, membros da missão haviam dito que o surgimento do novo coronavírus a partir de um laboratório era “altamente improvável” e portanto não deveria mais ser investigado. “Questionou-se se algumas hipóteses foram descartadas. Tendo conversado com alguns membros da equipe, quero confirmar que todas as hipóteses estão sendo cogitadas e exigem mais análise e estudo”, disse. Mais tarde, cientistas da missão confirmaram que a teoria do laboratório ainda está na mesa (aqui e aqui).

Mas essa não foi a única reviravolta do fim de semana. O microbiologista Dominic Dwyer, que participa da equipe, disse ao Wall Street Journal, à Australian Broadcasting Corporation e ao New York Times que a China negou acesso aos dados brutos sobre os primeiros  casos de covid-19 reportados no país. A matéria do NYT, que também traz entrevistas com outros membros da missão, afirma que “as divergências sobre os registros dos pacientes e outras questões eram tão tensas que às vezes irrompiam em gritos entre os cientistas de ambos os lados, normalmente educados”. 

A falta de registros detalhados dificulta a resposta sobre quando, afinal, o surto começou – uma determinação que, por sua vez, afeta diretamente a avaliação do resto do mundo sobre a resposta e a transparência da China. De acordo com Dwyer, em “várias ocasiões” foram pedidas informações sobre 174 pacientes identificados em dezembro de 2019, mas elas só foram fornecidas em parte. Na CNN, o líder da missão Peter Ben Embarek disse ainda que naquele mês havia 13 cepas do vírus em Wuhan. Ele não sustentou nenhuma conclusão a partir disso, mas para o virologista Edward Holmes, da  Universidade de Sydney, o achado sugere que o vírus já pudesse estar circulando antes

Também houve questões sobre outro grupo de pacientes que tiveram sintomas como febre e tosse entre outubro e dezembro daquele ano. As autoridades chinesas detectaram um grupo de 92 pessoas que poderiam ter tido covid-19, mas dois terços foram testadas para identificar anticorpos e os exames deram negativo. O outro terço morreu ou não quis ser testado. A equipe internacional da OMS acha que os testes sorológicos podem não ter sido confiáveis, pois não está claro se os anticorpos permanecem no corpo um ano após a infecção.

Além do mais, o grupo gostaria de revisar os critérios que levaram à identificação desses 92 possíveis casos, porque eles foram pinçados, com critérios não muito claros, a partir de 72 mil pacientes com sintomas. “Descer de 72 mil para 92 mostra que os critérios talvez tenham sido um pouco rígidos demais. Pode ser uma ideia melhor revisitar o processo e encontrar um conjunto de critérios menos rigorosos, então talvez acabemos com mil casos ou mais e então possamos refazer a avaliação”, explica Ben Embarek numa longa entrevista ao site da Science. 

A repercussão disso tudo entre os membros da equipe tem sido intensa. O cientista mais citado nas reportagens que colocam a cooperação chinesa em xeque, Dominic Dwyer, não veio a público para contestá-las. Porém, outros membros da missão se manifestaram elogiando o país asiático. Um deles, John Watson, disse à BBC que “teria sido incomum para eles entregar os dados brutos, mas examinamos uma grande quantidade de informações em detalhes em discussão com as contrapartes chinesas”.

Outros criticaram abertamente a cobertura da imprensa. “Essa NÃO foi minha experiência na missão. Como líder do grupo de trabalho animal/meio ambiente, encontrei confiança e abertura com meus colegas na China. (…) É decepcionante gastar tempo com jornalistas explicando as principais descobertas de nosso exaustivo trabalho de um mês na China, e depois ver nossos colegas citados erroneamente para se encaixar em uma narrativa que foi prescrita antes de o trabalho começar”, disse Peter Daszak no Twitter, sobre a matéria do New York Times. Foi seguido pela epidemiologista dinamarquesa Thea Kølsen Fischer: “Nossas citações são propositalmente distorcidas lançando sombras sobre importantes trabalhos científicos”, escreveu ela, que foi citada pelo jornal afirmando ter a “opinião de que toda a missão era altamente geopolítica”. Tudo é muito complicado. Como já mencionamos aqui, a EcoHealth Alliance, coordenada por Daszak, colabora com o Instituto de Virologia de Wuhan e já teve um edital de US$ 3,7 milhões retirado pela Casa Branca por conta disso. 

De todo modo, ninguém na equipe ignora a imensa carga política que envolve tanto o desenrolar da investigação quanto seus efeitos, quaisquer que sejam as descobertas. “A política estava sempre na sala conosco, do outro lado da mesa. Tínhamos entre 30 e 60 colegas chineses, e um grande número deles não eram cientistas, não do setor de saúde pública. Sabemos que houve um grande escrutínio sobre o grupo científico de outros setores. Portanto, a política estava lá constantemente. Não éramos ingênuos, eu não fui ingênuo quanto ao ambiente político em que tentamos operar e, convenhamos, sob o qual nossos colegas chineses operavam”, diz Peter Ben Embarek, na Science.

Troca de farpas

Joe Biden não é Donald Trump, mas depois das suspeições levantadas pela imprensa a Casa Branca pediu à China que disponibilizasse dados desde o início do surto de covid-19 no país, dizendo ter “profundas procupações” sobre a maneira como os resultados da missão da OMS foram comunicados. O termo foi usado por Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, num comunicado que ainda menciona o retorno do país ao organismo internacional: “Retornar à OMS também significa mantê-la nos mais altos padrões. E, neste momento crítico, proteger a credibilidade da OMS é uma prioridade fundamental”. 

Um porta-voz da embaixada chinesa retrucou duramente: “A China dá as boas-vindas ao retorno dos EUA à OMS. A OMS é uma organização internacional multilateral de autoridade no campo da saúde, não um parque de diversões onde se pode entrar e sair à vontade. O que os EUA fizeram nos últimos anos minou severamente as instituições multilaterais, incluindo a OMS, e prejudicou gravemente a cooperação internacional no COVID-19. Mas os EUA, agindo como se nada disso tivesse acontecido, estão apontando o dedo para outros países que têm apoiado fielmente a OMS e a própria OMS. Com tal histórico, como pode conquistar a confiança do mundo inteiro? Espera-se que os Estados Unidos sigam os mais altos padrões”. 

A pressão dos EUA por dados já ganhou o apoio ao menos do Reino Unido, cujo ministro das Relações Exteriores, Dominic Raab, disse ontem “compartilhar a preocupação“. 

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