Os vaivéns na missão da OMS e a geopolitização da covid

Ocidente mostra-se cada vez mais incapaz de controlar a pandemia. Mas ressurge, no governo e na mídia dos EUA, ideia de culpar a China… E mais: Bolsonaro e Pazuello gastam, com vacinas, apenas 11% do dinheiro disponível

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APÓS O RETORNO

Poucos dias após o fim da missão de especialistas independentes liderada pela OMS que foi à China investigar as origens do SARS-CoV-2, o diretor-geral da Organização, Tedros Ghebreyesus, veio a público aparentemente contradizendo os pesquisadores. Na sexta-feira, ele disse que nenhuma hipótese foi descartada – enquanto, em coletiva de imprensa no último dia 9, membros da missão haviam dito que o surgimento do novo coronavírus a partir de um laboratório era “altamente improvável” e portanto não deveria mais ser investigado. “Questionou-se se algumas hipóteses foram descartadas. Tendo conversado com alguns membros da equipe, quero confirmar que todas as hipóteses estão sendo cogitadas e exigem mais análise e estudo”, disse. Mais tarde, cientistas da missão confirmaram que a teoria do laboratório ainda está na mesa (aqui e aqui).

Mas essa não foi a única reviravolta do fim de semana. O microbiologista Dominic Dwyer, que participa da equipe, disse ao Wall Street Journal, à Australian Broadcasting Corporation e ao New York Times que a China negou acesso aos dados brutos sobre os primeiros  casos de covid-19 reportados no país. A matéria do NYT, que também traz entrevistas com outros membros da missão, afirma que “as divergências sobre os registros dos pacientes e outras questões eram tão tensas que às vezes irrompiam em gritos entre os cientistas de ambos os lados, normalmente educados”. 

A falta de registros detalhados dificulta a resposta sobre quando, afinal, o surto começou – uma determinação que, por sua vez, afeta diretamente a avaliação do resto do mundo sobre a resposta e a transparência da China. De acordo com Dwyer, em “várias ocasiões” foram pedidas informações sobre 174 pacientes identificados em dezembro de 2019, mas elas só foram fornecidas em parte. Na CNN, o líder da missão Peter Ben Embarek disse ainda que naquele mês havia 13 cepas do vírus em Wuhan. Ele não sustentou nenhuma conclusão a partir disso, mas para o virologista Edward Holmes, da  Universidade de Sydney, o achado sugere que o vírus já pudesse estar circulando antes

Também houve questões sobre outro grupo de pacientes que tiveram sintomas como febre e tosse entre outubro e dezembro daquele ano. As autoridades chinesas detectaram um grupo de 92 pessoas que poderiam ter tido covid-19, mas dois terços foram testadas para identificar anticorpos e os exames deram negativo. O outro terço morreu ou não quis ser testado. A equipe internacional da OMS acha que os testes sorológicos podem não ter sido confiáveis, pois não está claro se os anticorpos permanecem no corpo um ano após a infecção.

Além do mais, o grupo gostaria de revisar os critérios que levaram à identificação desses 92 possíveis casos, porque eles foram pinçados, com critérios não muito claros, a partir de 72 mil pacientes com sintomas. “Descer de 72 mil para 92 mostra que os critérios talvez tenham sido um pouco rígidos demais. Pode ser uma ideia melhor revisitar o processo e encontrar um conjunto de critérios menos rigorosos, então talvez acabemos com mil casos ou mais e então possamos refazer a avaliação”, explica Ben Embarek numa longa entrevista ao site da Science. 

A repercussão disso tudo entre os membros da equipe tem sido intensa. O cientista mais citado nas reportagens que colocam a cooperação chinesa em xeque, Dominic Dwyer, não veio a público para contestá-las. Porém, outros membros da missão se manifestaram elogiando o país asiático. Um deles, John Watson, disse à BBC que “teria sido incomum para eles entregar os dados brutos, mas examinamos uma grande quantidade de informações em detalhes em discussão com as contrapartes chinesas”.

Outros criticaram abertamente a cobertura da imprensa. “Essa NÃO foi minha experiência na missão. Como líder do grupo de trabalho animal/meio ambiente, encontrei confiança e abertura com meus colegas na China. (…) É decepcionante gastar tempo com jornalistas explicando as principais descobertas de nosso exaustivo trabalho de um mês na China, e depois ver nossos colegas citados erroneamente para se encaixar em uma narrativa que foi prescrita antes de o trabalho começar”, disse Peter Daszak no Twitter, sobre a matéria do New York Times. Foi seguido pela epidemiologista dinamarquesa Thea Kølsen Fischer: “Nossas citações são propositalmente distorcidas lançando sombras sobre importantes trabalhos científicos”, escreveu ela, que foi citada pelo jornal afirmando ter a “opinião de que toda a missão era altamente geopolítica”. Tudo é muito complicado. Como já mencionamos aqui, a EcoHealth Alliance, coordenada por Daszak, colabora com o Instituto de Virologia de Wuhan e já teve um edital de US$ 3,7 milhões retirado pela Casa Branca por conta disso. 

De todo modo, ninguém na equipe ignora a imensa carga política que envolve tanto o desenrolar da investigação quanto seus efeitos, quaisquer que sejam as descobertas. “A política estava sempre na sala conosco, do outro lado da mesa. Tínhamos entre 30 e 60 colegas chineses, e um grande número deles não eram cientistas, não do setor de saúde pública. Sabemos que houve um grande escrutínio sobre o grupo científico de outros setores. Portanto, a política estava lá constantemente. Não éramos ingênuos, eu não fui ingênuo quanto ao ambiente político em que tentamos operar e, convenhamos, sob o qual nossos colegas chineses operavam”, diz Peter Ben Embarek, na Science.

TROCA DE FARPAS

Joe Biden não é Donald Trump, mas depois das suspeições levantadas pela imprensa a Casa Branca pediu à China que disponibilizasse dados desde o início do surto de covid-19 no país, dizendo ter “profundas procupações” sobre a maneira como os resultados da missão da OMS foram comunicados. O termo foi usado por Jake Sullivan, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, num comunicado que ainda menciona o retorno do país ao organismo internacional: “Retornar à OMS também significa mantê-la nos mais altos padrões. E, neste momento crítico, proteger a credibilidade da OMS é uma prioridade fundamental”. 

Um porta-voz da embaixada chinesa retrucou duramente: “A China dá as boas-vindas ao retorno dos EUA à OMS. A OMS é uma organização internacional multilateral de autoridade no campo da saúde, não um parque de diversões onde se pode entrar e sair à vontade. O que os EUA fizeram nos últimos anos minou severamente as instituições multilaterais, incluindo a OMS, e prejudicou gravemente a cooperação internacional no COVID-19. Mas os EUA, agindo como se nada disso tivesse acontecido, estão apontando o dedo para outros países que têm apoiado fielmente a OMS e a própria OMS. Com tal histórico, como pode conquistar a confiança do mundo inteiro? Espera-se que os Estados Unidos sigam os mais altos padrões”. 

A pressão dos EUA por dados já ganhou o apoio ao menos do Reino Unido, cujo ministro das Relações Exteriores, Dominic Raab, disse ontem “compartilhar a preocupação“. 

URGENTE, MAS PODE ESPERAR

O governo Bolsonaro só gastou 9% da verba liberada, em caráter de urgência, para a compra e o desenvolvimento de vacinas contra a covid-19. Três Medidas Provisórias assinadas em agosto, setembro e dezembro garantiam ao todo R$ 24,5 bilhões, mas, pelos cálculos da Folha, até agora só R$ 2,2 bi foram efetivamente usados. A conta não considera os R$ 505 milhões pagos pelo Ministério da Saúde na compra de doses da CoronaVac, porque a pasta não disse de onde o dinheiro saiu. Mas, mesmo se tiver vindo do montante liberado pelas MPs, isso muda muito pouco o resultado final: o total gasto chegaria a apenas 11% dos créditos criados. 

A última MP, de dezembro, é a que disponibiliza mais dinheiro: R$ 20 bilhões. Veio tarde, quando já estava mais difícil – não impossível – fechar acordos com as farmacêuticas.

Em tempo: Ontem o Brasil atingiu a maior média móvel diária de mortes desde o começo da pandemia, com 1.105 vítimas por dia na última semana. Mas é Carnaval e, apesar da proibição de eventos, festas foram flagradas em todo o país

NÃO FAZ SENTIDO

O governo federal negou o pedido da Justiça Federal do Amazonas para priorizar com urgência a distribuição de vacinas para o estado. A negativa do advogado geral da União, Rodrigo Castanheira de Souza, se deu pelo princípio constitucional de “igualdade”, por isso a distribução das doses se dá de acordo com o tamanho das populações… /Ele deixou para lá que no SUS o que vale mais é a equidade, como bem pontuou Drauzio Varella, em artigo publicado na Folha:

“A distribuição pulverizada das vacinas sem levar em conta a prevalência do coronavírus, as condições do sistema de saúde da localidade e as vagas disponíveis nos hospitais é demonstração inequívoca de incompetência. Veja os exemplos do Amazonas e de Roraima, caríssima leitora: hospitais lotados, filas de doentes sentados à espera de um leito, UTIs sem vagas, pacientes transferidos para cidades a milhares de quilômetros, uma linhagem mutante do vírus bem mais contagiosa que se espalha pelo país. Em Manaus, se somarmos aos manauaras com mais de 60 anos, aqueles com comorbidades, teremos cerca de 200 mil pessoas. No estado do Amazonas haveria 400 mil. Não seria mais lógico, neste momento, enviarmos para lá 800 mil doses de vacina, na tentativa de pôr ordem no caos e de conter a disseminação da linhagem mais perigosa? É preciso pós-doutoramento em Oxford para ter uma ideia dessas?

Aliás, o Ministério da Saúde informou que a chamada variante ‘de Manaus’ foi identificada em pelo menos 10 estados brasileiros. A prefeitura de São Paulo disse no sábado que detectou pela primeira vez essa variante em um paciente que não esteve no Amazonas. Paraíba e Ceará também suspeitam que já tenham transmissão comunitária dela.

Esta semana os governadores vão se reunir com o ministro Eduardo Pazuello para cobrar um cronograma de entrega de vacinas (ainda…). Eles vão ainda pedir que Jair Bolsonaro não vete a MP que dá cinco dias à Anvisa para autorizar emergencialmente vacinas contra Covid-19, sem análise técnica – uma medida que, já comentamos aqui, é altamente problemática. 

SÓ OS DEMARCADOS

Os povos indígenas estão entre os grupos prioritários para vacinação, mas só os que vivem em terras demarcadas pela Funai. Isso exclui milhares de pessoas: uma reportagem da Agência Pública informa que, por conta do entrave, nenhum indígena do Rio Grande do Norte e do Piauí foi vacinado até agora – nem tem perspectivas de quando isso vai acontecer.  São ao todo 12 mil. “É como se nós não existíssemos para o governo federal”, diz Luiz Katu, cacique da Aldeia Potiguara de Catu.

O MAIS VELOZ

O Chile conseguiu vacinar quase 10% de sua população com pelo menos a primeira dose de imunizantes contra a covid-19 – por ora, estão sendo usadas a CoronaVac e a vacina da Pfizer/BioNTech. É o país mais rápido da América Latina, e a perspectiva do governo é chegar a 80% da população ainda no primeiro semestre.

Apesar de não ter SUS, o Chile tem um programa nacional de imunização robusto e com trabalho conjunto com a atenção primária. Mas o grande trunfo é que o país tem doses suficientes, porque assinou contratos com grandes fabricantes ainda em setembro. Houve uma boa dose de sorte também: a imensa maioria das doses acordadas vem da Sinovac, e, se essa vacina não tivesse se mostrado eficaz, o panorama seria outro. Ao todo, o Chile comprou 78 milhões de doses (suficientes para cobrir mais que o dobro dos seus habitantes), sendo 60 milhões da Sinovac, 10 milhões da Pfizer/BioNTech, quatro milhões da Astrazeneca e quatro milhões da Johnson&Johson.

CUMPRINDO PROMESSAS

“O povo tá vibrando, o povo tá vibrando“, disse Jair Bolsonaro, de folga no litoral de Santa Catarina, ao cumprimentar apoiadores no sábado. É que na véspera, como se não estivéssemos atolados até o pescoço em necessidades relacionadas à pandemia, o presidente assinou alterações em quatro decretos de 2019 que regulamentam o Estatuto do Desarmamento – piorando o que já tinha sido flexibilizado e impulsionando um dos projetos que mais avançam no seu governo: o de armar cada vez mais a população

Uma das principais mudanças está no decreto nº 10.628, que aumenta de quatro para seis o número máximo de armas que cada cidadão pode ter. Alguns, como integrantes das Forças Armadas, policiais e agentes da Abin, podem chegar a ter oito. O decreto  nº 10.629 muda regras para o grupo dos Colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), permitindo que comprem até 60 e 30 armas, respectivamente, sem autorização expressa do Exército. O texto também sobe de mil para duas mil a quantidade de recargas de cartucho de calibre restrito que podem ser adquiridas anualmente por “desportistas”. Além disso, os CACs, que já podiam portar suas armas, entre a casa e o local de tiro, agora podem fazê-lo em qualquer itinerário e em qualquer horário. O decreto nº 10.630 permite o porte de duas armas simultaneamente, diz que policiais poderão usar em serviço suas armas pessoais e que guardas municipais poderão ter armas de fogo automáticas. Por último, o decreto nº 10.627  exclui vários itens da lista de produtos controlados pelo exército, como projéteis, máquinas para recarga de munições e carregadores com qualquer capacidade. Outras alterações foram compiladas pel’O Globo. 

“Com esses decretos somam-se mais de 30 atos normativos publicados nos dois últimos anos” com esse propósito, observa em nota o Instituto Igarapé, que vai questionar as medidas no STF.

POSSÍVEL EPIDEMIA

Depois dos novos casos de ebola registrados na República Democrática do Congo, ontem a Guiné declarou um novo surto da doença, com três mortes. Por lá, é a primeira vez que o vírus aparece desde 2016 – na época, foi eliminado após deixar 11 mil mortos. Surgem temores de uma epidemia na África Ocidental, e a OMS está intensificando as medidas de contenção. Recentemente houve avanços que aumentaram a chance de sobrevivência, especialmente por meio de vacinas, usadas desde 2019. 

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