A última de Temer?

A 12 dias do fim, ele nomeia, para diretoria da Anvisa, André Moura — que é multi-processado e nunca atuou em Saúde, mas é líder do governo. Leia também: Amianto no talco Johnson? Remendo na “Reforma” Trabalhista e muito mais

Crédito: Wilson Dias/ Agência Brasil

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A ÚLTIMA DE TEMER?

No finzinho de seu governo, Michel Temer indicou seu líder no Congresso para diretoria da Anvisa. É André Moura, deputado pelo PSC de Sergipe que não conseguiu se eleger senador. Seu nome vai ser avaliado hoje pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Se aprovado, pode ir a plenário ainda hoje, penúltimo dia de sessões do ano. 

Segundo o El País, ele não tem nenhuma experiência na área da Vigilância e nem comprovou formação universitária — ambos requisitos para ocupar o cargo. Outro requisito é “reputação ilibada”. Moura responde a pelo menos dez processos no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e no Tribunal de Justiça de Sergipe. E o Globo informa que, depois de uma sentença no estado, ele está inelegível por oito anos. Se conseguir a nomeação na Anvisa, garante um emprego por pelo menos três. 

Na carta enviada aos senadores, em que se declara apto a exercer o cargo, ele diz que não possui mandato parlamentar. Porém, até ontem à noite, não havia renunciado à Câmara, sendo, portanto, deputado.

Nossos parceiros do Joio e o Trigo lembraram também que Moura foi cotado para ministro de Bolsonaro. É contra a descriminalização do aborto e os direitos da população LGBT. E chega no lugar de Rodrigo Dias, acusado por violência contra a companheira. 

O PROBLEMA DO TALCO JOHNSON

Quem acompanha o Outra Saúde há mais tempo já leu aqui que a Johnson’ & Johnson’s enfrenta muitos processos em relação a seu famoso talco. Muitos mesmo: já são 12 mil pelos EUA. É que há suspeita de que tenha amianto no produto, porque essa substância, cancerígena, fica no subsolo perto do talco. Este ano, 22 mulheres com câncer de ovário ganharam uma ação, alegando que a empresa sabia da conexão entra o talco e o amianto (centenas de memorandos internos falaram disso ao longo das últimas décadas — sim, décadas). A J&J perdeu ainda duas outras ações este ano, movidas por pessoas com mesotelioma. E tem apelado em todos os casos. Já ganhou em três. A novidade agora é que uma longa reportagem da Reuters sobre o essa história, publicada na semana passada, teve um resultado imediato e com um impacto talvez maior do que as condenações: na sexta, as ações da J&J caíram 10%. A empresa afirma que a matéria é parcial, falsa e inflamatória. 

Um texto do New York Times republicado no Estadão continua no tema e fala dos bastidores da regulamentação do talco pela FDA nos anos 1970. Na época, análises encontraram amianto em mais da metade das amostras do talco Johnson. Mas um memorando mostra que a empresa pediu à FDA que mantivesse a descoberta sob “estrita confidência”. O  pedido foi atendido: também em memorando, está o relato de uma conversa em que um funcionário da FDA garantiu que o relatório só seria divulgado sobre o seu cadáver. 

REMENDO 

Um dos itens mais bizarros da Reforma Trabalhista — a permissão para que gestantes e lactantes atuem em local insalubre, a não ser quando apresentado atestado médico exigindo o contrário — pode ser modificada.  O Senado aprovou uma proposta para mudar a lei, mas a solução está longe de oferecer a proteção ideal. O texto diz que a mulher vai poder “decidir” se vai trabalhar em locais insalubres de grau leve ou médio, mas será afastada dos de condições graves. O empregador vai precisar pagar o adicional de insalubridade. Agora a proposta vai para a Câmara. 

E por falar em trabalho, a Folha fala sobre uma pesquisa conduzida a cada dois anos na Europa em Israel desde 2004. As conclusões: “trabalhadores mais velhos não são menos produtivos e que a manutenção deles no mercado não cria desemprego para os jovens. Ao mesmo tempo, a aposentadoria não necessariamente leva a uma melhora na saúde das pessoas”. Ainda não acessamos o estudo, mas, pela matéria, não dá para saber se foram incluídos na pesquisa pessoas que fazem trabalhos pesados, como os rurais. 

EINSTEIN NAS DECISÕES

Gilberto Occhi e o presidente do Conselho Nacional de Justiça, Dias Toffoli, assinaram ontem uma parceria entre o Conselho e o Ministério da Saúde para melhorar as decisões judiciais sobre a assistência. E quem está envolvido é o Hospital Albert Einstein: a distância, os magistrados vão consultar profissionais do hospital sobre casos em que seja alegado risco iminente de morte. O site do Ministério informa que este é um projeto viabilizado pelo Proadi (Programa de Apoio ao Desenvolvimento institucional do SUS) — que beneficia com isenções fiscais instituições privadas como o próprio Albert Einstein e o Sírio Libanês. 

SOBRE GUEDES E O SISTEMA S

Falamos ontem sobre os cortes que Paulo Guedes anunciou para o Sistema S. Algumas das entidades que compõem o grupo reagiram. Ontem, o Sesc e o Senac divulgaram um comunicado afirmando que “mais de 1 milhão de estudantes ficariam sem opção de cursos de formação profissional e 18,4 mil funcionários das entidades perderiam o emprego”. O diretor do Senai falou do fechamento de 162 escolas, mais 155 no Sesi, mais a impossibilidade de prestar parte dos serviços de saúde neste último. 

EM VEZ DE MELHORAR…

Em um ano, o Brasil caiu cinco posições no ranking de igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial.  Está em 95º lugar, de 149 países. Entre os 50 itens considerados no ranqueamento estão acesso à saúde, renda e participação política. E o que mais puxou o país para baixo foram a queda da participação feminina no mercado de trabalho e o aumento na diferença de renda. Em saúde e educação, a disparidade está praticamente zerada. Na participação política, é um desastre: ficamos em 112º lugar, atrás do Paquistão e do Iraque.

NOVARTIS NO NEGÓCIO DA CANNABIS

É a primeira vez que uma grande empresa farmacêutica entra no ramo da maconha medicinal: uma subsidiária da Novartis chamada Sandoz fez um acordo com a Tilray Canada para desenvolver e distribuir produtos em conjunto. Os termos financeiros do acordo não foram divulgados. 

CHEGAMOS AOS PINGUINS

Parece que, afinal, os animais da Antártida não estão isolados das nossas doenças. Pesquisadores descobriram  bactérias ligadas a humanos a humanos, como campylobacter e salmonela, em pinguins, gaivotas e outras aves. Embora os patógenos encontrados não estejam associados a altas taxas de mortalidade em animais,  as consequências para a vida selvagem do continente podem ser devastadoras. Isso porque sua presença mostra que outros, mais perigosos, também podem chegar ao continente. 

40 MIL MORTES

Só no ano passado, 40 mil pessoas morreram por armas de fogo nos EUA — mil a mais do que em 2016, e o maior número já registrado. São 12 mortes a cada 100 mil pessoas. Quase dois terços foram suicídios.

MAIS INCÊNDIO

Enquanto escrevíamos ontem sobre o fogo na refinaria de Manguinhos, no Rio, outro incêndio consumia 500 casas, a maioria de madeira, em um bairro de Manaus. Ninguém morreu, mas 17 pessoas ficaram feridas. E havia cerca de 2,5 mil moradores — são 500 famílias desalojadas. Não se sabe o motivo do incêndio, mas há suspeita de explosão de uma panela de pressão.

MARCADOS

Vai ser em 22 de maio do ano que vem o julgamento da possibilidade de aborto no caso de grávidas com zika. No mesmo dia, deve ser retomado o julgamento sobre a responsabilidade do Estado na distribuição de medicamentos de alto custo. E o julgamento da descriminalização do porte de maconha para uso pessoal ficou para o dia 5 de junho. 

DE BOA FONTE

O Isags (Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde) lançou ontem a Plataforma de Conhecimento em Saúde, que reúne dados sobre saúde de toda a América do Sul, além de relatórios, livros e outros materiais.  Está disponível aqui.

AGENDA

O Icict/Fiocruz vai oferecer em feveiro um curso de atualização em Metodologia Científica para Pesquisa sobre o Uso de Drogas. As inscrições vão até 16/01. 

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