Após a primeira morte no Brasil…

Começa o “boom” no país e previsão é de milhares de infecções nos próximos dias. Leia também: Trump e Johnson se dobram aos números, mas Bolsonaro ainda quer dar “festinha”; os atritos entre o presidente e o ministro; e muito mais

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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A PRIMEIRA CONFIRMADA

Veio ontem de manhã, pela secretaria estadual de saúde de São Paulo, a confirmação da primeira morte relacionada ao novo coronavírus no Brasil. Era um homem de 62 anos que morava em São Paulo, não havia viajado e tinha diabetes, hipertensão e hiperplasia plástica. Ele começou a apresentar sintomas no dia 10 de março e estava internado em um “hospital privado”.

Sem divulgar o nome da unidade, a Pasta disse que, na mesma rede hospitalar, outras quatro mortes estão sendo investigadas. Segundo o Valor, trata-se do hospital Sancta Maggiore, da operadora Prevent Senior, focada na terceira idade. A reportagem diz que, entre os usuários da operadora, há oito casos confirmados, além de outros 212 suspeitos; dessas pessoas, 40 estão internadas e as demais em isolamento domiciliar. E todos os outros pacientes que morreram tinham mais de 70 anos e apresentavam doenças crônicas.

Também ontem, no interior do Rio, em Miguel Pereira, a secretaria municipal de saúde divulgou a morte de uma mulher de 63 anos com sintomas da doença. Os resultados do exame ainda não chegaram. Portanto, até o fechamento da newsletter, não é um caso confirmado. De acordo com a secretaria, ela era empregada doméstica, trabalhava na capital e tinha contato direto com a patroa, que chegou da Itália e testou positivo para Covid-19. A mulher foi internada no Hospital Municipal Luiz Gonzaga “já em quadro grave, vindo diretamente de seu ambiente de trabalho para a unidade de saúde”, e morreu ontem.

E em Niterói um homem de 69 anos morreu no Hospital Icaraí, particular, com sintomas da doença. Falta o resultado do exame para diagnóstico. Ele teve os primeiros sintomas no dia 11, após contato com o enteado, que voltou de Nova Iorque com exame positivo.

INCERTEZAS

Mesmo o paciente que teve a morte por Covid-19 confirmada não constava da lista oficial de infectados, atualizada diariamente pelo Ministério da Saúde. O governo de São Paulo só fez a confirmação no dia seguinte à morte. Aliás, os hospitais particulares de São Paulo pararam de informar os diagnósticos ao público. Agora, os resultados vão ser divulgados só pelo Ministério.

COMEÇA O BOOM

O G1 fez um levantamento do número de infectados baseado nos dados das secretarias estaduais de saúde. Até ontem, eram 335 — o último balanço oficial do Ministério, divulgado também ontem, aponta 291.

Esse último número foi divulgado no fim da tarde, em uma entrevista coletiva. E o ministro Luiz Henrique Mandetta afirmou que o pico da doença deve acontecer por aqui entre 60 e 90 dias, até junho, ficando estável a partir de julho. “Agosto, setembro a gente deve estar voltando desde que a gente construa a chamada imunidade de mais de 50% das pessoas”. Ele disse ainda que deve haver mais medidas restritivas em breve, mas não informou quais.

Ainda na entrevista, ele afirmou que a expectativa é de que 15% das pessoas precisem de internação. Não é uma taxa grande, mas se o número de infectados for alto – e deve ser –, a sobrecarga é certa. Ele está trabalhando com uma margem de folga: contando os 291 casos confirmados até aqui, houve 28 hospitalizações segundo o UOL, o que dá 10%.

CHEGANDO AOS PROFISSIONAIS

Ontem comentamos que o Hospital Universitário Pedro Ernesto, vinculado à UERJ, no Rio, havia confirmado profissionais infectados – um deles já estava internado em estado gravíssimo –, mas não dava detalhes. Segundo o Estadão, há apenas um outro caso, de um professor da universidade que passa bem e está em isolamento domiciliar. Mas não há, por enquanto, nenhum paciente infectado, nem doentes internados com diagnóstico. Em São Paulo, infecções foram registradas no Sancta Maggiore, onde morreu o primeiro paciente. E lá a situação é bem pior: são pelo menos 15 profissionais de saúde com diagnósticos confirmados ou suspeitos. Uma das funcionárias está internada em estado grave. Tem 33 anos e sofre de asma. De acordo com o Valor, provavelmente eles se contaminaram no pronto-socorro.

COMO DEVE SEGUIR

O Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, formado por cientistas da PUC Rio, Fiocruz e Instituto D’Or, lançou notas técnicas sobre a epidemia. A primeira traz estimativas para os próximos dez dias. De acordo com a nota, mesmo o melhor cenário é bem ruim: haveria no dia 26 de março 2.314 casos. Na hipótese mediana, seriam 3.750. E, na pior, 4,970. Para o estado de São Paulo, a perspectiva é chegar lá com entre 1,5 mil e 3,3 mil casos; no Rio, entre 278 e 596.

Não são números impossíveis de mudar – pra melhor ou pra pior: “A aderência da população às medidas de contenção e distanciamento social podem afetar favoravelmente estes resultados, por outro lado a ausência de confirmação diagnóstica bem como a subnotificação pode falsear estas predições”, escrevem os autores.

E o Núcleo vai publicar também notas com a estimativa da necessidade de leitos hospitalares. A primeira, com o dimensionamento para o estado do Rio, já saiu: diz que, no dia 4 de abril, vão ser necessários 190 leitos de UTI e 1.047 de internação hospitalar no SUS, e mais 86 de UTI e 470 de internação no setor privado. Se os leitos existentes estivessem vazios, seria ok: até o fim de 2019 havia, só no SUS, 1,1 mil leitos de UTI e 18,2 mil de internação, e no privado mais 3 mil e 10,7 mil, respectivamente. O problema é que eles nunca estão vazios. Pelo contrário, já vivem pressionados.

No Rio Grande do Sul, um estudo da secretaria estadual de Planejamento, Orçamento e Gestão prevê que se o vírus avançar no ritmo da Itália ou do Irã, daqui a 20 dias o estado pode ter 4,3 mil casos. Se houver um avanço moderado, como no Japão, devem ser 245. Mas a previsão não leva em conta medidas já tomadas, como o fechamento de escolas e bares.

Em tempo: chegamos ao 20º dia de coronavírus no Brasil com (bem) mais casos do que a Itália e a Espanha tinham. No 20º dias após seus primeiros casos, esses países tinham respectivamente três e dois diagnósticos, compara a Folha. Hoje a Itália tem mais de 31 mil e a Espanha, 11 mil. Ontem, em coletiva de imprensa, o diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Júlio Croda, disse justamente que o vírus está se comportando aqui de forma parecida com à da Itália.

AS TAXAS, OS RISCOS, AS DÚVIDAS

Se tem uma coisa que parece difícil de se calcular nessa pandemia é a taxa de mortalidade. Um dos gráficos do site Information is Beautiful, cujos dados têm sido atualizados sempre, mostra bem a diferença entre países: 4% na China, 7,3% na Itália, 0,9% na Coreia do Sul… Temos visto algumas reportagens e pesquisadores tentando dar conta disso, mas as variáveis são tantas que parece muito difícil conseguir pôr em ordem cenários tão completamente distintos. Há diferenças no alcance dos testes para diagnósticos, nas medidas de distanciamento social promovidas pelos governos, no perfil demográfico de cada país, na capacidade de resposta dos sistemas de saúde, questões culturais…

Uma das situações que mais chamam a atenção é a da Itália, que muito rapidamente se tornou o epicentro do coronavírus na Europa. Numa população de 60 milhões de pessoas já são 2,5 mil mortes –contra cerca de 3,2 mil na China, com seus 1,5 bilhão de pessoas. A taxa italiana é na verdade o triplo da média. Uma matéria da BBC tem uma das explicações, já bem disseminada: a de que as mortes na Itália se devem ao fato de sua população idosa ser proporcionalmente maior do que a chinesa. Como no resto do mundo, na Itália são os idosos que adoecem e morrem mais.

Mas, se é assim, como se explica o número relativamente baixo de mortes na Alemanha (0,2%), onde a média de idade da população é semelhante à italiana? Uma reportagem no Il Messaggero traz uma hipótese: a proximidade muito maior entre jovens e idosos. “Os idosos italianos, por tradição e organização social, mantêm um contato mais próximo com o restante da população e também com o segmento jovem, comparado ao que acontece no norte da Europa. (…) [Dados] do Eurostat relatam que dois terços dos jovens entre 18 e 34 anos ainda moram com os pais, em comparação com 40% dos colegas alemães”, diz o texto. Isso acontece mesmo nas idades mais avançadas: entre 30 e 49 anos, essa taxa é de 20%. Assim, jovens assintomáticos podem estar por trás dos números.

O que já se sabe com alguma confiança: diabetes e doenças cardiovasculares são os maiores fatores de agravamento conhecidos até agora. Só o diabetes já pode aumentar em duas a três vezes o risco de complicações, mesmo em pessoas mais jovens. Mas essas informações são de pesquisas preliminares, segundo O Globo.

SE DOBRARAM AOS NÚMEROS

A divulgação de um estudo do Imperial College de Londres teve o condão de fazer com que dois dos mais importantes líderes do planeta – Donald Trump, dos Estados Unidos, e Boris Johnson, do Reino Unido – voltassem atrás e adotassem recomendações de isolamento mais incisivas à população. A pesquisa foi publicada imediatamente depois de uma entrevista coletiva dada por Johnson na segunda (16), e usando simulação de cenários, projetou quantas mortes podem ser evitadas por medidas de saúde pública para reduzir o contato entre as pessoas. No Reino Unido, 500 mil morreriam caso nada fosse feito. Nos Estados Unidos, o número poderia chegar a 2,2 milhões.  “O mundo está enfrentando a mais grave crise de saúde pública em gerações”, alertou o coordenador do grupo de cientistas, Neil Ferguson. E continuou: “Usamos as estimativas mais recentes de severidade para mostrar que as estratégias de políticas que visam mitigar a epidemia podem reduzir pela metade as mortes e reduzir a demanda por serviços de saúde em dois terços, mas isso não será suficiente para impedir que os sistemas de saúde sejam sobrecarregados. Intervenções mais intensivas e socialmente perturbadoras serão, portanto, necessárias para suprimir a transmissão a níveis baixos. É provável que essas medidas – principalmente o distanciamento social em larga escala – precisem estar em vigor por muitos meses, talvez até que uma vacina se torne disponível.”

A Casa Branca lançou um apelo para que os americanos evitem aglomerações com mais de dez pessoas – medida mais restritiva que a anunciada no domingo, que se referia a grupos com mais de 50 pessoas. O governo também recomendou que os americanos trabalhem de casa, evitem sair para fazer compras não essenciais e refeições em restaurantes por, ao menos, 15 dias.

Já Boris Johnson pediu à população que evite qualquer “contato não essencial” e as “viagens desnecessárias”, trabalhando de casa e não frequentando bares, restaurantes, teatros e outros eventos sociais. Boris Johnson ainda pediu para que todas as famílias que tenham um membro com febre ou tosse adotem o confinamento em suas casas, sem sair “nem para fazer compras” se possível.

Outro cálculo, este baseado no estudo que comentamos ontem, publicado pela Science, que estima que 86% das pessoas infectadas se locomoveram livremente e espalharam o coronavírus em Wuhan antes de haver restrições à circulação, foi feito nos EUA. Eles estimam que o número real de casos da doença pode ser de cinco a 30 vezes maior do que o divulgado oficialmente. Assim, usando o número divulgado ontem pelo Ministério da Saúde – 291 – o Brasil poderia estar entre 1.455 e 8.730.

FESTINHA

Enquanto isso, no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro continuou dando declarações levianas sobre a crise sanitária. No fim da tarde, em frente ao Palácio do Planalto, ele afirmou que a Covid-19 não seria responsável, sozinha, pelas mortes registradas no Brasil e no mundo, pois as vítimas já tem outras “causas mortis” e poderiam ter falecido “se fosse outra gripe qualquer”. E continuou: “É como uma gravidez, uma hora vai nascer a criança”, disse o presidente. “O vírus um dia ia chegar ao Brasil e acabou chegando”. Mais cedo, ele tinha dito que havia “certa histeria” sobre vírus e anunciou que faria uma “festinha” de aniversário no fim de semana. Segundo ele, “a vida continua” e governadores que vêm adotando medidas de distanciamento social “que vão prejudicar e muito a nossa economia”.

Um parêntese: ontem o deputado Daniel Freitas (PSL-SC) se tornou o 14º diagnosticado com Covid-19 a ter viajado com o presidente brasileiro para os EUA. 

Bolsonaro, que insiste em não adotar medidas de restrição à entrada no país, resolveu mirar em uma só: anunciou que o Brasil vai fechar a fronteira com… a Venezuela. Detalhe: aquele país tem apenas 33 casos confirmados e nenhuma morte.

Em tempo: União Europeia anunciou ontem o fechamento de fronteiras para não residentes por 30 dias. O retorno de cidadãos europeus que estiverem fora será coordenado. O fechamento é tentativa de evitar que países do bloco continuem erguendo barreiras à circulação interna.

‘FORA BOLSONARO’

Na noite de ontem, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife – e também o Distrito Federal – registraram panelaços contra o presidente. Além de bater panelas, as pessoas gritavam das janelas “fora, Bolsonaro”. No G1, há vídeos. Detalhe: havia uma convocação para que as pessoas se manifestassem nas janelas na noite de hoje, mas o povo resolveu antecipar as demonstrações de insatisfação com o presidente. 

E o primeiro pedido de impeachment protocolado contra Bolsonaro chegou à Câmara dos Deputados ontem. Mas não pelas mãos de Alexandre Frota. O autor é o deputado Leandro Grass (Rede-DF), que alega que o presidente cometeu crime de responsabilidade ao incentivar as manifestações de domingo contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. O Congresso em Foco publicou a íntegra do pedido.

ESCALA A TENSÃO

Com a popularidade despencando, Jair Bolsonaro ensaiou ontem um movimento mais arriscado – e muitíssimo perigoso. Primeiro, pipocou nas redes bolsonaristas o chamamento de novas manifestações de apoio ao presidente. A data? O dia 31 de março, quando o golpe empresarial-militar completa 56 anos. E os atos deveriam ser “na frente dos quartéis”. “Agora é guerra!”, dizem imagens. A jornalista Vera Magalhães comentou a agitação. E Bolsonaro se aproveitou da crítica dela para divulgar, em sua conta de Twitter, a manifestação. “A convocação caiu como uma bomba dentro de alguns dos quartéis citados no texto. Os grupos de WhatsApp do alto oficialato das três Forças passaram a discutir a conveniência e o sentido de tal convocação. Oficiais-generais disseram acreditar ser uma provocação barata, visando associar os militares aos polêmicos atos que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo. (…) Já outros militares acreditam que a postagem se trata de um balão de ensaio para ver se a ideia pega, até ser encampada por alguma instância apoiadora do governo, como o Movimento Conservador. A intervenção virtual de Bolsonaro no Twitter indica que tudo foi bolado pelo entorno familiar do presidente, hábil nesse tipo de ação. Neste caso, o problema é ainda maior para os fardados, porque inevitavelmente obrigará a ativa e a ala militar abrigada no governo a se manifestar sobre a ideia”, analisa o repórter da Folha, Igor Gielow.

CONTRA MANDETTA

Que Jair Bolsonaro está incomodado com os elogios que o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta vem recebendo de boa parte da mídia e da opinião pública, já sabemos. Depois de tentar escanteá-lo do gabinete de crise criado na segunda (16) para o coronavírus, agora o presidente cobra do ministro um discurso mais afinado ao Palácio do Planalto. Segundo apuração da Folha, Bolsonaro queria que Mandetta tivesse defendido sua participação na manifestação de domingo, quando desobedeceu ao protocolo de isolamento por ter tido contato com vários casos confirmados do coronavírus e socializou com apoiadores. 

Luiz Henrique Mandetta tem ouvido de parlamentares que é o próximo alvo de Bolsonaro. E do jeito que o presidente gosta de se cercar de militares, não é improvável que, caso decida demitir Mandetta, indique o diretor-presidente da Anvisa Antonio Barra Torres – que, aliás, estava com ele zanzando na frente do Planalto domingo. O contra-almirante da Marinha tem vocalizado a visão de Bolsonaro em reuniões do grupo interministerial criado no fim de janeiro para discutir a emergência em saúde pública.  

APESAR DO PRESIDENTE…

À noite, o governo divulgou que vai solicitar ao Congresso o reconhecimento do estado de calamidade pública no país em decorrência do coronavírus. A medida, com validade até 31 de dezembro de 2020, será adotada em razão da necessidade de elevar gastos públicos. Se a calamidade pública for reconhecida pelo Congresso Nacional, o governo não será mais obrigado a observar a meta de resultado primário e a fazer contingenciamento das despesas para cumprir as estimativas iniciais.

Mais cedo, uma portaria conjunta dos ministérios da Justiça e da Saúde regulamentou a lei do coronavírus aprovada em fevereiro pelo Congresso, prevendo uso de força policial para cumprir ordens de isolamento e quarentena. A portaria determina a detenção de um mês a um ano, além de multa, àquele que descumprir as medidas. 

Além disso, o governo determinou que os servidores federais com 60 anos ou mais deverão trabalhar de casa enquanto durar o estado de emergência de saúde pública decorrente do novo coronavírus. Também ficarão em trabalho remoto as servidoras gestantes e lactantes, os servidores com doenças “crônicas ou graves” e os responsáveis por uma ou mais pessoas com confirmação ou suspeita de terem contraído o vírus.

E o Censo 2020 foi adiado para 2021. Segundo o IBGE, a decisão leva em consideração a natureza de coleta da pesquisa, domiciliar e predominantemente presencial. O concurso com 208 mil vagas para recenseadores foi suspenso.

INSUPORTÁVEL

Já é mais ou menos consensual a ideia de que, junto com medidas de higiene, o distanciamento social parece ser a coisa mais importante a se fazer nesse momento. Mas por quanto tempo? A resposta pode não ser animadora. Segundo o Instituto Robert Koch, responsável pela prevenção e controle de doenças na Alemanha, num caso extremo a pandemia pode durar dois anos, e a situação precisaria ser constantemente reavaliada nesse período. Com chance de se precisar manter as medidas.

Cientistas ouvidos pelo site Vox concordam. “No momento, parece que a única maneira de reduzir de forma sustentável a transmissão é tomando medidas realmente insustentáveis”, diz o epidemiologista Adam Kucharski, da London School of Hygiene & Tropical Medicine. Se essas medidas forem abandonadas enquanto o vírus ainda está por aí, pode haver novos surtos graves – a não ser que se encontre uma vacina ou que um número suficiente de pessoas contraia o vírus e se torne imune a ele. É o tal efeito rebanho, que nosso ministro da Saúde parece esperar que aconteça a partir de agosto.

O problema é que esse efeito não é garantido. “Não está claro se, após um período de meses ou anos, uma pessoa pode perder sua imunidade e se infectar novamente com o vírus (o que tornaria a imunidade do rebanho mais difícil)”, diz a reportagem. Jennifer Nuzzo, epidemiologista do Johns Hopkins Center for Health Security, concorda que o prazo deve ser de “meses”. Mas, obviamente, também se preocupa: “Não acho que as pessoas estejam preparadas para isso e não tenho certeza de que possamos suportar”.

Por enquanto, fiquemos de olho na China, que está relaxando o isolamento e ainda registra alguns poucos casos, para ver o que acontece.

CIÊNCIA CONTRA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Saiu ontem na Nature um estudo que prova que o novo coronavírus não foi criado nem manipulado em laboratório. Pois é: o boato, disseminado por grupos políticos com interesses diversos mundo afora, agora é desmentido a partir de uma detalhada análise genômica. 

AINDA A QUESTÃO DA TESTAGEM

Familiares do primeiro paciente que morreu pelo coronavírus, que também apresentam sintomas, ainda não foram testados. Mas o pior é a falta de orientação: um dos irmãos diz que foi ao pronto-socorro do Hospital do Servidor Público, na zona sul de São Paulo, mas após um raio-x teve diagnóstico de gripe e foi mandado de volta para casa. Por conta própria, decidiu “evitar” sair.

A ausência de testes neste caso não surpreende porque segue justo o protocolo do Ministério da Saúde de priorizar a testagem em pacientes internados. E ontem, na coletiva de imprensa, Mandetta disse que pretende manter o protocolo. Como vimos, havia causado muita polêmica por aqui a fala do diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, que recomendou aos países testarem o maior número possível de pessoas. Mas ontem, ao lado do ministro, a representante da Organização Pan-Americana de Saúde, Socorro Gross, disse que essa orientação se aplica a países com poucos casos. “O Brasil está fazendo o que é a recomendação da OMS: em caso de termos transmissão comunitária, temos de testar pessoas que têm síndrome respiratória aguda severa e que estão no hospital e população vulnerável, que são os idosos”, assegurou.

Mas, de todo modo, o Ministério anunciou que deve lançar um chamamento público para empresas especializadas capazes de desenvolver testes. E que a Fiocruz deve produzir um milhão de exames até abril.

VULNERÁVEIS

“As classes médias podem se isolar, usar álcool gel, fazer coisas pela internet. Os pobres, não. Quando a epidemia explodir, ela vai dizimar os pobres desse país. Podemos retardar a explosão dessa epidemia. Mas, quando ela explodir, vai flagelar especialmente a população pobre. As condições de vida dessa população favorecem o coronavírus. Nas casas onde moram vivem muitas pessoas, há poluição ambiental, é preciso trabalhar o tempo todo. Essa precariedade não está sendo objeto de políticas públicas no Brasil.” As observações são da sanitarista Ligia Bahia, da UFRJ, em entrevista ao canal Tutaméia.

Já no El País Brasil, o repórter Felipe Betim reflete: “Uma crise serve para fazer um país se olhar no espelho. A pandemia do coronavírus que agora atinge o Brasil vem mostrando, entre muitas outras coisas, como trabalhadores informais ou temporários, além de moradores de favelas, se perfilam a serem as principais vítimas da Covid-19 – pelo aspecto da saúde ou pelo lado econômico. Pessoas sem contrato formal de trabalho representam quase metade da força produtiva do país. E as opções se tornam quase sempre escassas: em plena crise, a maioria precisa escolher entre trabalhar e se expor ao vírus ou seguir as recomendações de quarentena e não ter dinheiro no fim do mês. Para aqueles que vivem em comunidades com becos fechados, sem saneamento básico ou com abastecimento irregular de água, lado a lado com centenas de vizinhos em igual situação de exclusão social, manter distanciamento e seguir as orientações de higiene são tarefas difíceis. A imagem que o Brasil projeta no espelho nem sempre é a mais agradável de se ver.”

Está longe de ser suficiente diante do quadro grave que se delineia, mas a Defensoria Pública da União recomendou que estados e municípios garantam medidas de higiene e proteção para evitar que a população de rua seja contaminada pela Covid-19. Uma das propostas é que espaços públicos que disponham de banheiros e vestiários e estejam fechados por motivos de isolamento da população sejam utilizados para acomodar a população em situação de rua.

Envolvida em controvérsias trabalhistas em várias partes do mundo, a Uber resolveu fazer um aceno durante a pandemia e anunciou que motoristas que testarem positivo para a covid-19 ou que precisarem ficar em quarentena por suspeita da doença terão direito a uma assistência financeira. Para calcular o auxílio, a empresa levará em consideração a média de rendimentos diários dos últimos seis meses de trabalho do motorista. O valor será coberto por um período de 14 dias de afastamento. 

OUTRO SURTO

O Maranhão, que ainda não tem Covid-19, está com um surto de H1N1 e pediu que o Ministério da Saúde antecipe a campanha de vacinação contra gripe. Já foram confirmados cerca de 180 casos de síndrome respiratória aguda grave e os leitos de UTI estão todos ocupados.

REFORÇO

Foi prorrogado até domingo o prazo para inscrição de médicos formados no Brasil para atuarem no enfrentamento à epidemia. E foi publicada a portaria para os municípios que pretendem expandir o horário de atendimento nas unidades de saúde. O Ministério da Saúde desistiu de chamar profissionais de saúde aposentados para trabalhar voluntariamente, pois fazem parte do grupo mais vulnerável. Mas deve mesmo chamar estudantes de graduação.

AS CHANCES DE VACINA E TRATAMENTO

Ontem, dois grupos de pesquisadores, nos EUA e na China, anunciaram ter começado testes em humanos de uma vacina contra o coronavírus. Mas, segundo a Folha, não é para comemorar antes da hora. “Até hoje, o método empregado pelos pesquisadores americanos não chegou a produzir uma vacina comercializada”, escreve Reinaldo Lopes. É um tipo de vacina desenvolvida a partir de mRNA (RNA mensageiro), e que, se por um lado é bastante seguras, por outro não costuma produzir uma resposta forte. Sobre a vacina chinesa não se tem muita informação, mas está sendo desenvolvida pela equipe liderada por Chen Wei, um dos infectologistas mais respeitados daquele país.

E o New York Times conta sobre um esforço internacional que envolve centenas de cientistas que já mapearam pelo menos 50 medicamentos com potencial para o tratamento da doença. Eles estão procurando drogas que protejam proteínas celulares das quais o coronavírus depende para prosperar e se reproduzir. Muitos dos medicamentos candidatos já são aprovados e servem para tratar doenças como o câncer, por exemplo.

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