Coronavírus: não é hora de proteger o Brasil?

Governo segue letárgico. Especialistas advertem: continuar adiando as restrições à circulação de pessoas acelerará a disseminação da doença. Pressão sobre o SUS, que carece de leitos, pode ampliar desastre social

Univ. John Hopkins

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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LOCKDOWN JÁ?

O grande assunto do momento é se chegou o momento de o Brasil adotar restrições mais incisivas à circulação de pessoas. No sábado, vários especialistas defenderam que medidas como a suspensão de aulas, espetáculos esportivos e artísticos, cultos religiosos e qualquer reunião, além de restrições à presença física em locais de trabalho e trânsito nas cidades sejam tomadas, no máximo, em 20 dias. Para alguns, o ideal seria tomá-las em uma semana. Essa recomendação é feita olhando os exemplos de locais como China, Hong Kong, Singapura, Japão e, agora, Itália, França e Espanha. Servem para diminuir o ritmo de crescimento de casos, de modo a não colapsar o sistema de saúde com um boom de doentes ao mesmo tempo – como acontece na Itália. 

O xis da questão é que o crescimento da doença não é linear, mas exponencial. Quando o número de infectados se torna alto, ele rapidamente se torna… enlouquecedoramente alto porque vai dobrando ou triplicando em poucos dias. Sem nenhuma medida de contenção, o vírus não tem por que parar de se espalhar no curto prazo. Esta reportagem do Washington Post tem animações bem instrutivas, feitas a partir de simulações da transmissão de uma doença fictícia muito contagiosa em uma pequena população. O melhor cenário é o de um distanciamento social extensivo, quando só um oitavo da população segue se movimento normalmente – as pessoas continuam adoecendo, mas num ritmo menor, e enquanto outros doentes já vão se recuperando. Mas mesmo o distanciamento moderado (com um quarto da população se movendo) apresenta ótimos resultados e é melhor do que a quarentena total, justamente porque ela nunca consegue ser… total. E quando uma pessoa infectada fura o bloqueio, a contaminação do outro lado se espalha. Exponencialmente.

E uma cientista conseguiu achar o “lado bom” desse crescimento exponencial: o efeito das medidas de contenção também é sentido muito rapidamente. A matéria do New York Times fala das projeções de Britta Jewell, epidemiologista do Imperial College London. A partir dos casos confirmados nos EUA na manhã de sexta-feira, ela calculou como estaria a epidemia daqui a um mês mantendo o crescimento atual. Em seguida, calculou o que aconteceria se apenas uma dessas infecções fosse evitada no dia seguinte (com ações como promover aulas a distância, cancelar grandes eventos e impor restrições de viagens) e o que aconteceria se as mesmas ações fossem tomadas dali a uma semana. “A diferença é gritante. Se você agir hoje, terá evitado quatro vezes mais infecções no próximo mês: aproximadamente 2,4 mil infecções evitadas, contra apenas 600 se você esperar uma semana. Esse é o poder de evitar apenas uma infecção e, obviamente, gostaríamos de evitar mais de uma“, resume.

É claro que esse tipo de medida não pode durar para sempre e, depois que é encerrada, o vírus volta a circular. Uma  matéria do site The Atlantic recupera dados da gripe espanhola e fala sobre o fechamento de locais públicos e a restrição aglomerações na época. Onde isso foi feito, as taxas de transmissão foram reduzidas e depois voltaram a crescer. A questão é que as medidas não impedem totalmente as infecções, mas atrasam o processo. “Quando as pessoas doentes chegam em um curto período, elas podem sobrecarregar hospitais e clínicas – e usar rapidamente suprimentos essenciais. Quando esse mesmo número de pessoas doentes se espalha por um período mais longo, é mais provável que os prestadores de serviços de saúde sejam capazes de lidar com a demanda“.

No Brasil, não sabemos direito como ou se o distanciamento social pode funcionar bem. No Rio, as favelas preocupam pela concentração de pessoas e pela escassez dos serviços de saúde.

DESISTIU

E o Ministério da Saúde voltou atrás na única determinação (medida obrigatória) que havia anunciado na sexta-feira: a proibição de navios de cruzeiro circulando pelo nosso litoral. De acordo com a Folha, isso aconteceu por conta de pressão dentro do próprio governo, que teme efeitos negativos no setor de turismo. Caiu também a recomendação para que as pessoas que chegassem de viagens internacionais ficassem em isolamento domiciliar por até sete dias, mesmo sem apresentar sintomas. E não é só isso: recomendar o adiamento e o cancelamento de eventos de massa só vale, agora, para áreas com transmissão local do vírus (até agora, São Paulo e Rio de Janeiro) e não mais para todos os estados. 

Por outro lado, Chile e Uruguai adotaram restrições a voos internacionais e isolamento para quem chega de fora. No Twitter, o presidente Sebastian Piñera respondeu a uma chilena que queria voltar ao país que, sim, ela poderia – desde que ficasse em isolamento por 14 dias se estivesse chegando de algum país “de risco”.

CASOS E ESTIMATIVAS

Até ontem à tarde, de acordo com dados divulgados pelo Ministério, o país tinha 200 casos confirmados (contra 121 no sábado), sendo 136 em São Paulo e 24 no Rio de Janeiro – locais com transmissão sustentada do vírus. Há outros 1.913 casos suspeitos.

Segundo a coluna de Lauro Jardim, no Globo, a estimativa do Ministério é que a taxa de letalidade no Brasil seja de 0,8%. Porém, não fica muito claro como ela foi calculada. Jardim afirma que isso foi feito a partir dos 3,6% encontrados na China. Mas, lá, o percentual é obtido pela divisão do total de mortos pelo total de atendidos – o que, como temos dito, provavelmente não se aproxima da realidade, já que exclui do cálculo os infectados que não procuram atendimento. Já o Ministério da Saúde inclui este número. É, assim, um valor próximo ao da Coreia do Sul (0,7%), que testou aleatoriamente milhares de pessoas com e sem sintomas e chegou à taxa de letalidade mais confiável até o momento.

Para termos em mente como anda a evolução: o primeiro caso aqui foi confirmado em 25 de fevereiro; uma semana depois, eram dois; em mais uma semana, eram 25; amanhã completaremos a terceira semana já com mais de 200. É uma escalada semelhante à dos Estados Unidos, que também começou devagarinho e, de repente, passou de 125 casos (03.03) para 1.004 (10.03) e, agora, tem 3.010. O Centro de Contingência para o Coronavírus do governo de São Paulo projeta para os próximos meses ao menos 460 mil infectados no estado, contando os casos assintomáticos. Se fizermos as contas com taxa de letalidade prevista pelo Ministério, serão 3,6 mil mortes no período.

Mas é o que é: estimativa, e num cenário de vírus novo  entrando em um ambiente novo. “Muitos fatores são desconhecidos, principalmente qual a porcentagem de casos que pode ser assintomática e qual a capacidade de transmissão da doença que esses casos têm. A Covid-19 também tem se desenvolvido de formas diferentes em vários países, e isso depende muito da faixa etária da população, da capacidade de testagem e de assistência dos pacientes e também do comportamento da população”, explica a reportagem do Estadão.

Por falar no desconhecido… Ainda há incertezas sobre como se dá a transmissão do coronavírus. Há um debate entre cientistas sobre a possibilidade de ele não contaminar só pelas superfícies e pelo contato próximo, mas também ficando suspenso no ar por algum tempo.

TESTAR OU NÃO TESTAR

Os números divulgados pelo Ministério da Saúde não têm sido muito exatos porque discrepâncias entre os dados do governo federal e aqueles anunciados pelos estados indicam uma grande defasagem, como explica a matéria do UOL.

E agora teremos cada vez menos certeza sobre o real número de infectados. Na coletiva da Pasta feita na sexta-feira, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, disse que, nas cidades ou estados com mais de cem casos confirmados, os exames laboratoriais vão deixar de ser feitos em todos os pacientes com febre e outros sintomas respiratórios. Só pacientes internados com problemas respiratórios graves, como pneumonia, serão testados. Os casos leves vão ser confirmados apenas por diagnóstico clínico. Em São Paulo, o coordenador do centro de contingência contra a doença, David Uip, já anunciou a mudança. A matéria da Folha ressalta que a Pasta ainda não prevê quando isso deve ocorrer em todo o país, mas o ministro Mandetta já defendeu a medida. “Não vamos atravessar tudo isso com cada indivíduo fazendo testes. Chega a uma hora em que isso não tem de ser feito, não tem valor”.

A mudança, porém, não é aceita com unanimidade. No Twitter, o virologista Atila Iamarino chama a atenção para os problemas: com a subnotificação, não vamos saber onde os casos e surtos estão acontecendo até que haja problemas sérios. “O que indica falta de pessoal além da falta de testes”, questiona. “Sugiro que você trate a situação na sua cidade como se o coronavírus já estivesse aí, porque não vai dar pra saber até alguém ser internado”. E conclui: “Tem uma dinâmica muito cruel na prevenção de problemas como uma pandemia e estamos tomando uma saída covarde. (…) No melhor dos cenários, se você antevê um problema muito sério e toma as medidas mais estritas de maneira a prevenir 100%, ninguém sabe do que foi salvo”.

A falta de testes tem sido apontada como um problema grave na condução da epidemia nos EUA. Lá, as autoridades sequer sabem informar quantas pessoas foram testadas até agora –mas estima-se que tenham sido menos de dez mil. Em contraste, a Coreia do Sul já testou mais de 260 mil pessoas e faz 20 mil exames por dia. Um dos problemas é que os EUA decidiram não usar um exame aprovado pela OMS, desenvolvendo um próprio, mas vários kits fabricados vieram defeituosos, levando a resultados inconclusivos. Para completar, houve problemas com a cadeia de suprimentos para kits. Na semana passada, o diretor do Centro de Controle de Doenças dos EUA reconheceu: “Não há equipamento suficiente, não há pessoas suficientes, não há capacidade interna suficiente (…). A verdade é que nós investimos pouco nos laboratórios de saúde pública“.

O SUS DÁ CONTA?

Não faz sentido que um sistema de saúde trabalhe com dezenas de milhares de leitos de internação sobrando, mas, no Brasil, eles estão em falta. A partir de dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o site Núcleo aponta que entre 2007 e o fim de 2019 foram fechados 28,3 mil leitos de internação no país (uma redução de 6,2%), sem contar os de UTI e unidades intermediárias. A boa notícia é que, considerando estes últimos, houve aumento (83%) no mesmo período.

É da UTI que os infectados pelo coronavírus em estado grave precisam, pela disponibilidade de equipamentos de respiração. Mas, mesmo com o aumento nos leitos, na maior parte dos estados brasileiros o Sistema Único não tem pernas para atender aos casos graves, segundo a reportagem da Folha. Em média, o SUS cumpre a recomendação da OMS de ter no mínimo um leito de UTI para cada dez mil habitantes, mas, em 17 dos 27 estados, não se chega a isso. E, segundo a Associação de Medicina Brasileira Intensiva, nos epicentros da crise a demanda chegou a 2,4 leitos por dez mil pessoas — mais que o dobro da média nacional. Contanto tanto os leitos do SUS como do setor privado, temos hoje uma taxa de 2,1. E o pior: antes do início da epidemia no país a taxa de ocupação das UTIs na rede pública já era de 95%. No setor privado não é muito diferente: 80%. 

Um leito não é só uma cama precisa de equipamentos e profissionais que o atendam. Segundo a mesma reportagem, a montagem de um leito básico de UTI custa R$ 100 mil e sua manutenção custa outros R$ 2 mil por dia. Entre as possibilidades para abrir espaço estão o bloqueio de cirurgias agendadas, a ampliação do tempo de trabalho de profissionais de UTIs, a adoção de tratamentos paliativos para pacientes terminais e o uso de outros espaços que tenham equipamentos respiratórios fora das UTIs, como salas de cirurgia e pós-operatório.

Se 1% da população for infectada, só as internações em UTI podem custar quase R$ 1 bilhão ao SUS, segundo um estudo do Instituto de Estudos de Política de Saúde.

No Estadão: como alguns estados estão se preparando, mobilizando leitos exclusivos para a pandemia.

EUROCÊNTRICO

Na sexta, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a Europa é o novo epicentro da pandemia, com mais casos e óbitos registrados nas 24 horas anteriores do que o resto do globo todo. O diretor-geral do organismo da ONU recomendou que países tomem medidas agressivas de distanciamento social: “Não deixem esse fogo queimar”, disse. 

No sábado, Espanha e França decretaram lockdowns – menos restritivos que os da Itália, porém. Enquanto nesse país, a maior parte da atividade econômica parou, na Espanha e na França as pessoas podem sair de casa para trabalhar. Na Espanha, o número de mortes registradas dobrou entre sábado e domingo, chegando a 288. Ontem, o país registrou 7.753 casos, um aumento de 34%. As ruas de cidades como Madrid ficaram vazias.

Já na França, domingo foi dia de eleições municipais – que aconteceram com recorde histórico de abstenção, entre os 53% e 56%. As ruas em Paris, contudo, estavam lotadas – apesar das restrições à circulação impostas pelo governo. 

ABORDAGEM INGLESA

A imprensa britânica deu destaque ao que parece ser a mais arriscada (e irresponsável) abordagem para lidar com o coronavírus até agora. Aparentemente, o plano do governo é deixar o vírus se espalhar livremente pela população. O argumento seria de que isso garantiria, em algum tempo, “proteção de rebanho” aos britânicos. Só que o termo é usado para a proteção conferida por vacinas contra vírus – e não para a contaminação geral e irrestrita por eles. Uma conta feita pela Virgin Media News com base nos números da OMS demonstra o que isso pode significar: 39,6 milhões infectados; 5,5 milhões hospitalizados; dois milhões seriamente doentes; e 277 mil mortos. 

Além disso, o governo evita fechar escolas e decretar medidas de distanciamento social, num debate sobre o timming dessas medidas: se tomadas muito cedo, dizem, podem cansar as pessoas e causar solidão. Mas uma pesquisa de opinião feita a pedido do jornal Observer revelou que apenas 36% confiam na forma como o primeiro-ministro Boris Johnson vem lidando com o problema e 37% nas informações dadas pelo secretário (equivalente a ministro) de Saúde Matt Hancock. Em contraste, 55% disseram confiar no diretor-geral da OMS.

FORA DA ESCOLA

Em 73 países já foram anunciadas ou implementadas medidas para o fechamento parcial ou total de instituições de educação para ajudar a conter o coronavírus, segundo a Unesco. São mais de 500 mil estudantes sem aulas.

Os efeitos disso na saúde dos idosos é ainda uma incógnita. Ainda na semana passada o ministro Mandetta havia dito que o fechamento de escolas nesse momento não era recomendado, já que muitas crianças ficariam com os avós, podendo contaminá-las. Na reportagem do Globo, no entanto, o pediatra Roberto Medronho, da UFRJ, afirma que deixar as crianças na escola é pior do que mandá-las para casa, mesmo que isso signifique deixá-las com parentes idosos. A infectologista brasileira Otília Lupi, que vive na França, discorda “[Deixar] as crianças com as avós é um tiro no pé. Vão transmitir mesmo assintomáticas”, diz.

De todo modo, um documento do Centro de Controle de Doenças dos EUA, baseado nas pesquisas disponíveis, em relatórios de outros países e em consultas com especialistas, lista prós e contras o fechamento em situações diferentes. E informa que a medida nem sempre é muito eficaz. No início da epidemia, fechamentos curtos (de uma ou duas semanas) parecem não ajudar a conter a dispersão da doença nem a diminuir o impacto nos serviços de saúde. “Os dados de modelagem disponíveis indicam que fechamentos iniciais curtos a médios não afetam a curva da Covid-19 ou os atendimentos médicos disponíveis (por exemplo, hospitalizações). Pode haver algum impacto de fechamentos muito mais longos (oito semanas, 20 semanas) na disseminação comunitária, mas essa modelagem também mostra que outros esforços de mitigação (por exemplo, lavagem das mãos, isolamento domiciliar) têm mais impacto na disseminação (…).  Em outros países, os locais que fecharam escolas (por exemplo, Hong Kong) não tiveram mais sucesso na redução da disseminação do que aqueles que não fecharam (por exemplo, Singapura)”, diz o documento.

Em São Paulo, as aulas nas redes estadual e municipal serão interrompidas gradativamente até ficarem suspensas por completo no dia 23. As escolas particulares estão sendo orientadas a fazer o mesmo, e a prefeitura também cancelou grandes eventos. Também no Rio, prefeitura e governo estadual mandaram suspender as aulas. O governador Wilson Witzel disse ainda que vai suspender visitas a presos e a realização de eventos. Atividades como cinema e teatro não são recomendadas.

No Distrito Federal, onde também foi decretada uma suspensão de duas semanas, o governo vai instituir uma Bolsa Alimentação Escolar Emergencial para atender a estudantes da rede pública. Aliás, a questão da merenda é crucial nesse debate.

A HORA DO ESTADO

Reportagem do Washington Post ouviu diversos economistas que dizem, em coro, que a crise provocada pela pandemia deve provocar uma recessão global “sem precedentes”. Isso porque uma série de setores da economia estão sendo afetados, já que as pessoas têm consumido menos. A previsão é que, até o final de março, a economia mundial tenha encolhido 1,2% – número não tão distante dos 1,6% constatados ao fim da crise econômica de 2008. “É como um furacão acontecendo simultaneamente em todos os lugares durante meses e meses sem fim”, alertou Jason Furman, que esteva à frente do conselho de analistas econômicos na gestão Barack Obama. O aumento do desemprego na área de serviços e da indústria é esperado.

Nos EUA, até mesmo um ex-oficial do governo George W. Bush, Greg Mankiw, que é professor de economia em Harvard, recomenda que o foco da política fiscal deva ser a concessão de benefícios sociais – incluindo uma renda básica de mil dólares para todos os habitantes dos EUA. “Há momentos para se preocupar com o débito do governo. Este não é um deles”, frisou. 

Alguns países já aprovaram pacotes que diminuem os efeitos da crise para a população. Na Austrália, seis milhões de pessoas vão receber $ 750, mais ou menos R$ 2.250. Na pequena Ilha da Madeira, o governo isentou a população do pagamento das contas de água e luz de hoje até o fim do mês.

Por aqui, o ministro da Economia Paulo Guedes afirmou na sexta-feira que “com R$ 5 bilhões, a gente aniquila o coronavírus”. O Ministério da Saúde tenta negociar a ampliação dos R$ 5 bi, liberados naquele dia via medida provisória, para R$ 10 bilhões. Em comparação, o pacote australiano é de aproximadamente R$ 50 bi. 

Mas há um debate acontecendo entre economistas de diferentes matizes. De acordo com uma reportagem da Folha que ouviu liberais e desenvolvimentistas, o aumento dos gastos com saúde e a garantia de recursos para evitar a quebradeira de empresas é consenso. “O tema do coronavírus ressalta a imperiosa necessidade de aprovar verbas emergenciais para a saúde. Cortar num momento como esse, ‘para compensar as perdas de receitas do petróleo’ [como foi aventado], beira o surto psicótico”, disse ao jornal André Lara Resende, para quem Guedes demonstra um “liberalismo primitivo”. Nelson Marconi, da FGV, faz coro: “O governo insiste, é quase um fanatismo, em reduzir o Estado ao tamanho mínimo e jogar as fichas nas reformas. Antes dessa questão do vírus, já era uma situação que demandava uma atuação mais forte de política econômica. Agora, é mais do que o momento de agir. Eles vão jogar o país ainda mais no buraco com essa estratégia.”

Outra reportagem – do New York Times, traduzida pelo Estadão – dá o seguinte recado: “as medidas mais eficazes de curto prazo são os programas e normas existentes de proteção dos trabalhadores, uma assistência médica barata e o auxílio às empresas para enfrentarem a situação. Garantias de que os empregados não terão de escolher entre cuidar da sua saúde e pagar seu aluguel é um fator psicológico crucial diante do fechamento de escolas e empresas por todo o continente como também o cancelamento de viagens e reuniões.”

TEATRO BRASILEIRO

No sábado, a Casa Branca comunicou que o teste de Donald Trump para a Covid-19 deu negativo. Como você sabe, o presidente dos Estados Unidos foi submetido ao exame após contato com a comitiva brasileira na Flórida. Primeiro, o secretário especial de Comunicação Social da Presidência Fabio Wajngarten, que tirou foto com Trump, foi diagnosticado com o coronavírus. Ele disse no sábado que já estava doente quando embarcou de volta ao Brasil – e, na sexta, afirmou ser a “prova de que coronavírus não é bicho de sete cabeças” e ainda que é bom que seu caso tenha se tornado público para que demonstre à população seu tratamento. “Eu passo bem, estou disposto, se pudesse ia fazer ginástica”, concluiu, ignorando tudo o que se sabe sobre o desenvolvimento da doença até agora.

A essa altura do campeonato, o número de pessoas que foram diagnosticadas com Covid-19 e serviram de apoio ou participaram da viagem de Jair Bolsonaro a Miami e tiveram contato com o presidente brasileiro subiu para 12. A informação foi dada ontem pelo Gabinete de Segurança Institucional.

E o presidente do Brasil não consegue cumprir nem a recomendação do seu próprio ministro da Saúde. Todos devem ter visto as imagens do ato pró-governo e contra o Congresso e o STF em Brasília: Jair Bolsonaro nas proximidades do Palácio do Planalto apertando a mão de manifestantes e pegando seus celulares para tirar selfies, tudo isso tendo a seu lado ninguém menos que o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres.

Bolsonaro havia divulgado ainda na sexta o resultado do exame de coronavírus mais aguardado (e cheio de controvérsias) do país, que anunciou ter dado negativo. Mesmo assim, conforme o ministro Luiz Henrique Mandetta informou à TV Globo, ele ainda deve repetir o teste: o protocolo prevê um novo exame em até sete dias. A recomendação era a de que o presidente fosse monitorado no Alvorada.

Mandetta falou com a Folha sobre o caso: “É ilegal? Não. Mas a orientação é não. E continua sendo não para todo mundo”. Mas deu uma baita aliviada: “Ainda estamos num estado de livre-arbítrio. Não estamos num estado de exceção. Sigo as orientações do Ministério da Saúde, de não aglutinar. Falei para minha mãe: a senhora vai ter que parar de ir na missa. Você acha que ela obedeceu na primeira semana? Isso não é só o presidente. Sei que para vocês isso é emblemático. Mas é para o Brasil inteiro. A ficha vai cair devagar, mas vai cair para todo mundo”.

Ontem, Bolsonaro desafiou os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, a saírem às ruas. “Saiam às ruas e vejam como vocês são recebidos”, disse em entrevista à CNN Brasil.  Além disso, Bolsonaro minimizou, novamente, o novo coronavírus. “Muitos pegarão isso independente dos cuidados que tomem. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Devemos respeitar, tomar as medidas sanitárias cabíveis, mas não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo”, afirmou. Para o presidente, é “extremismo” proibir jogos de futebol e as medidas para enfrentar o vírus precisam ser analisadas do ponto de vista do impacto na atividade econômica. Ele anunciou a criação de um gabinete de crise para avaliar os impactos das ações de contenção do corona na economia. 

E, ao que parece, Alcolumbre vai publicar hoje dois atos dispensando senadores e funcionários com mais de 65 anos do trabalho, imunodeprimidos, com condições crônicas… A justificativa é o resultado positivo para coronavírus de Nelsinho Trad (PSD-MS), um dos integrantes da comitiva de Bolsonaro aos EUA. O problema é que 47% dos senadores se enquadram no critério da idade. Desde a semana passada, senadores vinham cobrando a suspensão temporária das atividades do Congresso. É de se perguntar: como fica a aprovação das medidas que podem amenizar a crise se o Congresso fechar? Ou se o funcionamento for inviabilizado pela quantidade de licenças?

PRESSÃO NO LUGAR CERTO

Enquanto isso, se repete por aqui um comportamento visto em outros países: as pessoas, ou pelo menos a elite, partiu para a estocagem de mantimentos. “Em um surto muito próprio, cujos sintomas nada têm a ver com os da gripe, a nata da sociedade paulistana se vê enredada em um angustiante engarrafamento de carrinhos pilotados por madames em desatino, motoristas e empregadas domésticas. Desde quarta-feira, o Santa Luzia registra diariamente um aumento de 60% na média de 5.000 clientes que entram ali — algo inédito nesta época do ano”, escreve o sempre bem-humorado Paulo Sampaio. Um dos itens mais comprados nos últimos é o papel higiênico – fato que já virou piada nas redes sociais.

As atitudes de certa elite além de fazer rir, chocam. Um homem e uma mulher, casados, foram os primeiros a ser confirmados como casos de transmissão local do coronavírus. O casal carioca só foi diagnosticado depois quatro dias de intensa atividade social. O homem recebeu o resultado positivo do exame em uma churrascaria, onde almoçava com sete amigos… Só então o casal passou para quarentena domiciliar. Ao que parece, o relato da coluna de Lauro Jardim, na madrugada desta segunda, tinha sido mudado, suprimido uma parte importante da história: “A empregada do casal, cujo exame deu negativo, está trabalhando de avental, luvas e máscara”, escreveu Andrew Fishman, no Intercept – citando o texto de Jardim. 

Ao longo do fim de semana, alguns jornalistas conhecidos, como Vera Magalhães e Maria Cristina Fernandes fizeram circular em suas contas no Twitter fotos de gente lotando os bares e as ruas paulistanas. O “crowd shaming” – ou fazer as pessoas se envergonharem por estarem vivendo como se nada estivesse acontecendo – será mesmo a saída? Não só no Brasil, como em qualquer lugar, convencer as pessoas a ficarem em casa sem qualquer medida mais dura vinda do governo é difícil, se não impossível. Em surtos de doenças, culpar a população é sempre uma saída fácil – vide a dengue, causada por péssimo saneamento, planejamento urbano e cujo vetor não espalha só ovos em pneus e vasos de plantas, segundo entomologistas. Se quisermos, mesmo, evitar que no próximo final de semana, ou mesmo nos próximos dias, cenas iguais se repitam, o melhor caminho é perguntar às autoridades o que justifica que pouquíssimas medidas de distanciamento social tenham sido adotadas até agora.

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