A saúde no debate

Tudo o que os candidatos à Presidência disseram sobre o assunto ontem, na largada da corrida eleitoral

10 de agosto de 2018

A SAÚDE NO DEBATE

Não foi fácil assistir ao primeiro debate entre presidenciáveis destas eleições. É um pleito fragmentado, com uma grande disparidade entre o nível argumentativo dos candidatos. E inusitado: quem jamais imaginou ter de prestar atenção a um ‘duelo verbal’ entre Álvaro Dias (Podemos) e Henrique Meirelles (MDB)? Entre Cabo Daciolo (Patriota) e Jair Bolsonaro (PSC)? E num cenário em que o primeiro colocado nas pesquisas não participa do debate? Mas nosso assunto é saúde – que, aliás, foi bastante citada ao longo do debate promovido pela Band.

Começou com Álvaro Dias perguntando a Bolsonaro sobre a mortalidade infantil, que voltou a crescer depois de 25 anos de queda ininterrupta, e também sobre estupro, crimes contra mulheres e iniquidade salarial entre gêneros – todos temas nos quais o candidato do PSL já demonstrou ter opiniões mal fundamentadas e/ou impopulares. “O Estado não deve interferir”, respondeu Bolsonaro sobre a diferença salarial. Sobre mortalidade infantil, a novidade é que ele parou de culpar as mulheres pela morte dos próprios filhos e respondeu de maneira sintética que melhoraria o “saneamento básico” para dar conta do problema. Em relação ao estupro, defendeu a aprovação do projeto de lei de sua autoria que prevê nada menos do que castração química voluntária para o condenado requerer regressão de pena. “A bancada feminina foi contra, se aprovasse inibiríamos a violência”, disse.

A pergunta do tucano Geraldo Alckmin para a candidata da Rede, Marina Silva, foi sobre como melhorar o SUS. Segundo ela, apesar de ter sido uma “grande contribuição” da Constituição de 88, o Sistema Único está “completamente sucateado” e não foi implementado adequadamente. Ela prometeu implementar o SUS, desde a atenção básica, “com postos e médicos de família”, passando pela média e alta complexidade. Disse muito rapidamente que “a saúde privada também deve ser reestruturada”, mas que seu foco será na implementação no Sistema “como deve ser”. Foi a deixa para Alckmin dizer que, “como médico”, tem obrigação de fazer a saúde avançar. Ele citou o saneamento básico como a principal causa do aumento da expectativa de vida do brasileiro, com ênfase na água tratada, e disse que vai direcionar os recursos do PASEP e da COFINS para o saneamento. O candidato também fez propaganda da rede hospitalar (16 hospitais inaugurados) e dos AMES, ambulatórios médicos de especialidades de São Paulo.

Segundo Marina, “entra e sai governo as promessas são as mesmas” de melhorar a saúde, mas o “PSDB não deu conta nem do estado de São Paulo nem do Brasil quando [foi governo] e não aumentou recursos para saneamento básico”. Em outra pergunta sobre as coligações do PSDB com os partidos do Centrão nessas eleições, ela voltou ao ataque contra o tucano, citando a saúde. “Para manter tempo de televisão, você [faz aliança] com um condomínio [de partidos] inteiro e em função disso o SUS não funciona, o saneamento não é feito, em nome da governabilidade não com base no programa, mas no exercício puro e simples do poder”.

Ela citou rapidamente a Emenda Constitucional 95, que congela os gastos do governo federal até 2036. E Guilherme Boulos, do PSOL, também falou da EC 95, mas de forma mais contundente. Prometeu logo no início revogar a medida. Perguntado sobre como diminuir o déficit fiscal, disse que quer resolvê-lo, mas não “em prejuízo da saúde” com “propostas draconianas”. Já Henrique Meirelles afirmou que as despesas constitucionais obrigatórias (leia-se saúde e educação) são as culpadas pela dívida pública crescer e, consequentemente, pelos juros, inflação e crise.

Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (que você confere na próxima nota) foram lembrados várias vezes durante a noite. Para Bolsonaro, o recorde de assassinatos é resultado de uma “equivocada política de direitos humanos” em que o “policial não tem retaguarda jurídica para cumprir seu dever”, disse, deixando nas entrelinhas uma proposta que tem defendido, de que o Congresso dê carta branca para que as forças de segurança matem. Também defendeu que a população possa comprar armas de fogo. Para Alckmin, “a grande vitima é o jovem”. O tucano ligou o problema dos assassinatos com o uso de drogas e prometeu levar o programa Recomeço “que trata o dependente químico” para todo o Brasil.

Perguntados sobre os números da violência doméstica e de feminicídios, Álvaro Dias desviou do assunto e prometeu “restabelecer a autoridade, combater a produção e o tráfico de drogas”, enquanto Cabo Daciolo respondeu que o grande problema da nação é a “falta de amor ao próximo” que gera “homens violentos com as mulheres”. Na resposta, em um nexo que nos escapa, o Cabo afirmou que o Ministério da Saúde deixou de aplicar R$ 174 bilhões em dez anos.

Também houve pergunta sobre a descriminalização do aborto, que pode ser votada pelo STF, com a jornalista citando que quatro mulheres morrem por dia na rede pública por complicações de procedimentos feitos de forma insegura e clandestina. Guilherme Boulos defendeu que a interrupção voluntária da gestação é um direito das mulheres que não devem ser “nem presas nem mortas”. Lembrou que o procedimento é feito por mulheres ricas e pobres, mas só as últimas sofrem as consequências da criminalização, com processos judiciais e mortes como a de Ingriane Barbosa. Prometeu que, se eleito, aborto “vai ser tema do SUS”. E também fazer creches em tempo integral, atendimento especial no SUS e promover igualdade salarial. Já Marina respondeu que o aborto é um tema de “natureza difícil, complexa, filosófica, moral, religiosa” e “não pode ser advogado como método contraceptivo”. Defendeu a manutenção da lei brasileira e que a ampliação seja discutida por meio de um plebiscito. Boulos defendeu que “quem tem que decidir são as mulheres”, e que milhões de homens não criam ou sequer registram seus filhos no cartório.

Henrique Meirelles foi perguntado sobre a liberação de remédios para o tratamento do câncer que, segundo o jornalista, demora muito no Brasil. O problema do país, segundo o candidato, é o excesso de burocracia. “A complexidade para fazer consulta médica é inaceitável”, disse. Ciro Gomes, candidato do PDT, foi selecionado para comentar a resposta. Ciro foi mais solicitado ao longo do debate para falar sobre a pauta econômica, sua especialidade. Mas nessa resposta sobre saúde criticou o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual que, segundo ele, demora muito para registrar patentes, e a Anvisa que “chega ao cúmulo de passar seis anos para licenciar um princípio ativo”, criticou. Ele citou que Bolsonaro, quando deputado, foi um dos autores de um PL para liberar a fosfoetanolamina sintética (conhecida como “pílula do câncer”), o que causou confusão. “Ele dá a entender que é uma droga”, atropelou Bolsonaro, que continuou quebrando a regra do debate: “Essa Anvisa corrupta, loteada…”. É. Não vai ser fácil.

MUITOS NÚMEROS QUE NÃO SÃO SÓ NÚMEROS

São 63.880 pessoas e a indicação de que algo vai muito, muito mal: esse foi o total de mortes violentas no Brasil em 2017. É um aumento de 2,9% em relação ao ano anterior, quando houve 61,6 mil registros. Agora, são sete mortes por hora, e uma taxa de 30,8 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. Os dados foram revelados ontem pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A situação já não era boa. O gráfico elaborado pelo Estadão mostra o crescimento nesse tipo de morte desde 2011, e ficam evidentes dois momentos de grandes saltos: entre 2011 e 2012, entre 2013 e 2014 e agora. O único ano em que houve (pequena) redução foi 2015.

Os estados mais violentos são Rio Grande do Norte (taxa de 68 por 100 mil habitantes), Acre (63,9) e Ceará (59,1). E no fim da lista estão São Paulo (10,7), Santa Catarina (16,5) e Distrito Federal (18,2).

Essas são mortes que incluem homicídios e latrocínios. Mas os roubos seguidos de morte diminuíram consideravelmente, 8,2%, enquanto as lesões corporais seguidas de morte cresceram 12,3%. E cresceram demais – 20% –as mortes decorrentes de ações policiais, que chegaram a 5,1 mil. Só no Rio, foram mais de 1,1 mil delas. Em relação a esse tipo de assassinato, chamam muita atenção estados onde ele cresceu assustadoramente, como o Tocantins (203,2%), o Rio Grande do Norte (111,9%) e Pernambuco (80,9%). Já o número de policiais assassinados caiu 4,9%.

Para o diretor-presidente do Fórum, Renato Lima, o problema é que organizações criminosas guerreiam por territórios e dinheiro, mas o Estado, perdido, reage com mais policiamento ostensivo militarizado. “Isso está gerando resultados extremamente ruins em termos de cidadania, em gasto público, e não há o efeito esperado na redução da violência” . Seria preciso intensificar a capacidade investigativa, por exemplo.

AS MULHERES

Uma informação bem relevante do Fórum é sobre o número de estupros no país: foram 60 mil em 2017. Ou 164 por dia. E estamos falando só dos notificados… Como menos de 10% são comunicados à polícia, na realidade deve haver mais de 500 mil crimes do tipo por ano. O pior estado é o Mato Grosso do Sul, mas o segundo pior é Santa Catarina, que por sinal tem uma das menores taxas de mortes violentas… Já o Rio Grande do Norte, campeão nas mortes, está entre os que têm os menores registros de casos. Também foram 193 mil casos de violência doméstica (queda de 1% em relação a 2016).

É PELA VIDA DELAS

E o Guardian lamentou ontem, em editorial, o resultado da votação da legalização do aborto na Argentina. Mas diz que, apesar da derrota do ‘sim’, ainda há “espaço para otimismo”. Cita o exemplo da Irlanda, país de forte tradição católica que conseguiu essa vitória em maio, e lembra que  “a ciência não está do lado dos ativistas anti-aborto”.

MAIS UMA DOS OPIÁCEOS

De vez em quado falamos aqui sobre a verdadeira epidemia do uso de opiáceos (e de overdoses também) que acontece nos EUA. Normalmente é um vício que começa com o uso de remédios para dor e pode ou não desembocar no consumo de heroína. E agora há um novo dado: a taxa de gestantes viciadas nesse tipo de substância quadruplicou entre 1999 a 2014. A CNN relata como o perfil dos usuários mudou: Na década de 1960, mais de 80% dos pacientes que entravam em programas de tratamento para abuso de opioides eram homens urbanos que usavam heroína; em em 2010, a maioria era de mulheres, muitas vezes de classe média, vivendo em áreas menos urbanas ou rurais, e mais de 90% eram brancas.

ALTO LÁ

Michel Temer retirou a indicação do nome de Davidson Tolentino, suspeito de corrupção, para dirigir a ANS. Mas o substituto divulgado pela imprensa, Paulo Rebello, também não é uma boa opção para organizações como o Idec. Elas enviaram uma carta ao Senado reclamando: Rebello é advogado e membro do conselho fiscal da Caixa, empresa que também comercializa planos de saúde. Além da indicação apresentar potencial conflito de interesses, as entidades afirmam que ele não possui expertise necessária para ser diretor da agência.

QUE VOLTEM ATRÁS

A Federação Nacional dos Psicólogos, a Associação Brasileira de Saúde Mental e o Conselho Federal de Psicologia estiveram com o líder do PT na Câmara, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que assinou um documento para que deputados e senadores petistas retirem suas assinaturas da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Nova Política Nacional de Saúde Mental e da Assistência Hospitalar Psiquiátrica. As entidades criticam que a iniciativa favorece os hospitais psiquiátricos e as comunidades terapêuticas.

TIRA-TEIMA

É no Reino Unido: um laboratório na Universidade de Queens usa ‘supertecnologias’ para descobrir se os rótulos dos alimentos dizem mesmo a verdade. E descobre, por exemplo, surpresas desagradáveis em um pacote de orégano seco. Além de 40% do tempero não ser orégano, mas outras folhas (o que, vá lá, é o de menos), a análise mostra problemas na higienização das folhinhas e um alto nível de agrotóxicos. A matéria da BBC fala de fraudes comuns: como couro hidrolisado e formaldeído no leite, arsênico no arroz e corantes não declarados nas especiarias.

NADA POP

Ao menos sete pessoas são intoxicadas por dia por agrotóxicos no Brasil. O número foi levantado pelo repórter Bruno Fonseca, da Agência Pública. Ele escarafunchou os registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) entre 2007 e 2017 e descobriu que 40 mil pessoas foram atendidas, e pelo menos 1.824 morreram devido à intoxicação. Segundo Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fiocruz que ocupou o cargo de gerente-geral de toxicologia da Anvisa entre 1999 e 2012, para cada caso reportado, existem 50 subnotificados. Com base nisso, seriam mais de 300 pessoas intoxicadas por dia, ou um total de 1,3 milhão por ano. As causas da subnotificação podem ir desde dificuldades no acesso ao SUS até falta de preparo dos profissionais para ligarem os sintomas apresentados pelos pacientes com a exposição a agrotóxicos. Isso é particularmente sensível nos casos crônicos, em que o produto vai se acumulando no organismo humano e pode levar ao desenvolvimento de doenças, como câncer.

E o estado campeão em intoxicações é o… Paraná. Registrou 4.648 ocorrências nos últimos dez anos. Mesmo estado do deputado federal Luiz Nishimori (PR) relator do PL 6.299, mais conhecido como Pacote de Veneno. Quando o assunto é relação entre gente intoxicada por grupo de cem mil pessoas, o Espírito Santo ocupa o primeiro lugar desde 2011, com uma relação de 4,1. Seguido pelo Paraná, com 3,9 a cada cem mil.

FRONTEIRA DO CONHECIMENTO

O diagnóstico precoce de Alzheimer desafia a ciência. Os sintomas começam a aparecer anos depois que a doença se instala no organismo. Um estudo da USP afirma ter identificado algumas das lesões iniciais no cérebro. Segundo a Rádio USP, o biobanco da Faculdade de Medicina da universidade é o único lugar do mundo que recebe doações de cérebros. E eles são usados em estudos, como o do Alzheimer. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram analisar o órgão de pessoas que morreram antes de apresentarem os sintomas iniciais. Os cientistas descobriram qual é a primeira área do cérebro que desenvolve as lesões e quais neurônios são mais afetados pela doença. O achado também serviu para que os pesquisadores argumentassem que sintomas como perda de sono, distúrbio de apetite, depressão e ansiedade – considerados como fator de risco para Alzheimer – são resultado da doença. O estudo foi apresentado na Conferência Internacional da Associação para o Alzheimer, em julho.

POR DEBAIXO DOS PANOS

Quem diria: a fertilidade masculina é afetada pelo tipo de cueca que se usa. Um estudo acompanhou 656 homens que buscaram tratamentos de fertilidade. Monitorou metade, que usava boxer; e outra metade, que usava cuecas mais apertadas. Os primeiros apresentaram uma concentração de espermatozóides 25% mais densa, uma contagem 17% maior e que se movimentava 33% mais em comparação com os segundos. O estudo procurou várias causas para as diferenças, como idade, etnia, massa corporal, tabagismo, costume de frequentar saunas e tomar banhos quentes, entre outros. Concluiu que, para quem quer ter filhos, é recomendável mudar as roupas íntimas.

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