“Não chamem os negacionistas de ‘medievais’”

Uma historiadora da ciência descreve como esta evoluiu, desde os alquimistas, e debate: difundir o método científico e sua história pode ajudar a combater o obscurantismo que nos ameaça? Por que é preconceituoso associar a Idade Média a retrocessos? Com que estratégias as mulheres venceram a invisibilidade no universo científico?

Alambique em “banho-maria”, técnica cuja invenção é atribuída a Maria, a Judia (séc. 1 d.C)

Maria Helena Roxo Beltran, em entrevista a Maurício Ayer

“A ciência é uma construção de toda a sociedade, e por isso deve pertencer a todos”, afirma a professora Maria Helena Roxo Beltran, do programa de pós-graduação em História da Ciência da PUC-SP, contrapondo-se à visão restritiva do acesso ao conhecimento que a sociedade capitalista procura nos impor. Nesta entrevista, concedida no dia 16 de novembro, Maria Helena destaca a importância de se divulgar não apenas os resultados da ciência, mas também a maneira como ela é feita e como ela se transforma ao longo tempo. Afinal, é desse modo que a ciência se mostra como um processo coletivo, feito de vivas discussões, de erros e acertos, logo, como uma atividade palpável e próxima. É assim que as pessoas poderão sentir que também fazem parte dessa história.  

Autora de diversos livros, entre os quais Imagens de Magia e de Ciência: entre o simbolismo e os diagramas da razão, reeditado recentemente pela Livraria da Física, Maria Helena pesquisou livros históricos sobre a arte da destilação, justamente no período em que se produz a passagem entre a alquimia e a química moderna, nos séculos XVI e XVII. Ao nos contar essa história, ela resgata toda a simbologia ligada aos destilados modernos em sua origem – que incluem o cognac, o whisky e a cachaça –, e destaca o importante papel das mulheres nessa história. 

É preciso dizer que essa entrevista foi concebida como parte da preparação do curso sobre Jorge Amado e a Cachaça, que eu, Maurício Ayer, vou oferecer nos dias 24, 26 e 27 de novembro (veja aqui). De fato, todo esse simbolismo, de origem medieval, participa das histórias de Jorge Amado, sincretizado com a simbologia das religiões de matriz africana. Falamos, por exemplo, dos três estágios da extração das virtudes do vinho, virtudes estas curativas tanto do corpo quanto da alma, por meio de destilações sucessivas: aqua ardens (termo que deu origem à aguardente), aqua vitae e, finalmente, a quintessentia, quando se atingia o mais alto grau de pureza. 

No entanto, muito além do previsto, acabamos abordando uma série de temas que está na ordem do dia. Por exemplo, o lugar dos saberes tradicionais no mundo contemporâneo, em sua relação de complementariedade e, muitas vezes, de conflito com o saber científico. E ainda de como a ciência participa da malha simbólica que dá estrutura à sociedade, devendo ser incorporada, difundida e também – como um aspecto que lhe é inerente – questionada criticamente. 

Quem quiser saber mais sobre a área da História da Ciência, compartilho a seguir uma série de links que Maria Helena Roxo Beltran nos indicou: 

Revistas:

História da Ciência e Ensino: construindo interfaces

Circumscribere

Sites:

CESIMA – Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência PUCSP

Biblioteca Digital do Cesima

Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência

Site História da Ciência e Ensino PUCSP

Youtube:

História da Ciência e Ensino

Ciclo de Debates Ciência Viva

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *