Ato pela Liberdade de Imprensa

Ato na faculdade de Direito de São Paulo forma amplo arco de forças pela democracia, com Glenn Greenwald. A presença e fala do jornalista Reinaldo Azevedo suscita reflexões sobre a Frente Ampla.

Foto: Jornalistas Livres

Saí às 17h horas da estação Sé do metrô, no centro de São Paulo, para o ato na Faculdade de Direito da USP, onde Glenn Greenwald falaria. O ato foi chamado pelo Sindicato dos Jornalistas, OAB, Associação Brasileira de Imprensa, os Centros Acadêmicos de 3 faculdades (ECA, Casper Líbero e Direito-USP), Instituto Vladimir Herzog e outros. Era bem cedo, o evento começaria só às 19h.

Não esperava muito do ato, mas como faz parte de um esforço de montagem de frente ampla democrática, decidi ir checar. Fui muito surpreendido pela presença do jornalista Reinaldo Azevedo, que falou ao microfone! Isso me fez pensar muito como será essa política de frente ampla. Avaliação geral ao final do texto.

Vi que no saguão da faculdade, uma exposição de arte sobre o tema da vigilância. Umas das obras é de Gabriel Mascaro, que já tinha visto em uma Bienal: “Não é sobre sapatos”. O artista conseguiu (legalmente, já que são gerados por órgão público) os filmes da PM capturados durante manifestações de rua, além dos ofícios que regulam a atividade dos P2 (policiais infiltrados). Os dois tipos de documentos são expostos lado a lado, é muito interessante e revelador.

Subi ao Salão Nobre e logo vi o Juca Kfouri no tablado – ele foi o “host” do evento, com outra moça cujo nome não captei. Anunciaram que Glenn iria atrasar meia hora ou 40 minutos, pois estava na coletiva de imprensa. Aguardei.

O auditório lotou (talvez umas mil e quinhentas ou duas mil pessoas), e achei que tinha de metade a dois terços de esquerdistas de uns 40 a 60 anos, o resto sendo de estudantes, moças e moços ao redor dos 20-30 anos de idade. Um grupo de militantes do Lula Livre estava presente e bem vocal, com faixas, bandanas e camisetas.

Dei uma olhada em volta e vi as faixas do Lula Livre, mais do PSOL, AFRONTE, Juventude e Revolução (PT), do Centro Acadêmico da Cásper Líbero (Vladimir Herzog) e também o da ECA (Lupe Cotrim). Vi uma camiseta da Coletivo Democracia Corinthiana e outra “Lute como uma bicha”. Lá atrás, a faixa: “Anula a chapa Bolsonaro Mourão”.

Vi e reconheci PD, F, G, a fotógrafa A, o Suplicy, Celso Lafer e o padre Júlio Lancelotti, o Haddad, a Samia Bonfim, o Ivan Valente, o Sakamoto, o Nassif, a Laura Capriglione. Anunciaram os Fotógrafos pela Democracia, o rapper Rico Dalasam, uns dois youtubers que não conheço, o Gianazzi do PSOL, o Nabil Bonduki. Vi uma camiseta do PSTU. Vi o C, que gravava um vídeo no local e veio me filmar.

O reitor da faculdade abriu os trabalhos às 19h30, e depois falou o professor Dalmo Dallari. Como juristas, sublinharam a Constituição brasileira como norma máxima e vinculante, onde a liberdade de imprensa figura cristalina. Defenderam o Estado de Direito. Falou depois o Marcelo Rubens Paiva. Agradeceu o Glenn por ter revelado o que já desconfiávamos. Pediu desculpas pelo destrato a que certos brasileiros o submeteram. Falou da importância do movimento estudantil na redemocratização. Terminou com “Abaixo a ditadura”.

Falou o jornalista e ex-presidente do XI de Agosto, Eugênio Bucci: disse que o momento é gravíssimo e que foi um consenso que fez nascer a Constituição de 1988. Afirmou que Bozo atenta contra a instituição em seus atos e falas. O povo respondeu com Lula Livre. No passado, Bucci criticou duramente o PT por ter proposto a regulamentação light da imprensa, durante o governo Lula.

Depois falou uma moça do site A Pública. Discorreu sobre a normalização do arbítrio e ataque à imprensa. Falou que os bots da rede bolsonarista hoje passaram a agir dentro do gabinete da presidência.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Paulo Zocchi, contou que o sindicato dos Jornalistas em 2016 já condenava os abusos da Lava Jato. A Vaza Jato confirma isso e traz a questão da liberdade de Lula.

“O Brasil já sabe, a Lava Jato é fraude!” o povo cantou a partir da galeria.

Falou então a cineasta Lais Bodanzky: “É triste ter que falar o óbvio e defender a liberdade de imprensa”, e lembrou que São Paulo tem a maior parada LGBT do mundo. Anotou a pouca presença da gente preta, e chamou o diálogo.

Já Pier Paulo Otilli, da OAB, disse que “convivemos com várias censuras, incluindo aqui nesta faculdade”. “A OAB não soltará a mão dos sindicatos, dos centros acadêmicos”.

Juca Kfouri lembrou uma frase de Millor Fernandes “Quem se curva para os poderosos mostra a bunda para os oprimidos”. E, em ato falho, Kfouri chamou Moro de “ex-ministro Moro”… o povo não perdoou e cantou: “Vai cair! Vai cair!” e “Ô Sergio Moro, estou ligado, prendeu o Lula pra eleger o Bolsonaro!”.

Falaram as presidentas do centros acadêmicos das faculdades de Direito, da Eca e da Casper Líbero. Eram jovens e obtiveram animada resposta do público. Lorena Alves da Cásper lembrou que era raro ter os 3 CAs reunidos. Disse que era triste que, com 20 anos, tenha que defender a liberdade de imprensa. Chamou solidariedade a Patrícia Campos Melo, que denunciou o whatsapp da campanha bolsonarista. E também a Míriam Leitão – o povo aplaudiu. Concluiu com “Hoje ser jornalista é ser revolucionário. Que este ato não acabe, vamos alcançar mais pessoas”.

Falaram muitos outros, dentre jornalistas, sindicalistas, juristas, o presidente da UNE. No geral sublinhavam a urgência da pauta das liberdades e dos direitos.

Aí o Juca falou que “O Suplicy nos cobrou controlar o tempo dos oradores, pois todos querem ouvir o Glenn… logo o Suplicy que acaba suas orações cantando!”. Todos riram.

Um artista português, cujo nome não retive, seguiu dizendo que encontrou as pessoas no Brasil muito angustiadas. Mas disse que amava o Brasil mestiço por ser o berço do escritor negro Machado de Assis, de Sonia Braga, Ney Mato Grosso, Ayrton Krenak e dos índios, “que nos ensinam o que é o borogodó e o Brasil antes da nação, amo o Brasil onde Marielle está sempre presente”. Finalizou que é preciso resistir, “se não o Brasil será uma merda, apenas mais uma merda como outras”.

Falou Pedro Borges, do Alma Preta e de outros movimentos negros da cidade. Ele lembrou que o Brasil viveu a maior parte de sua história sob a escravidão, e que o país é o que mais mata corpos não normativos, que mais mata mulheres, LGBTs. Ponderou que o Estado de Direito de que muitos falaram aqui foi construído e mantido com violência. Disse que o jornalismo tem lado e não pode ser neutro no Brasil desigual, e pediu ainda que as pessoas fortaleçam a mídia independente.

Uma moça falou pela causa palestina, e chamou solidariedade a eles e a todos os povos, frisando que o anti-sionismo não é anti-semitismo. Concluiu que “nenhum imigrante é ilegal, e que os refugiados são bem-vindos”.

Aí levantou-se Reinaldo Azevedo. Não esperava ele aqui, e fiquei surpreso. Ele vestia uma boina e colete, o que lhe dava um certo ar de filho adolescente do Che Guevara com o Woody Allen. Começou dizendo que “celebro o direito à divergência e por isso estou aqui”. Alguém gritou “acordou, hein!”. Reinaldo não deu bola e disse que escreveu no passado contra a indicação de Janot ao PGR pela Dilma, e também do Barroso para o STF, pois ambos já negavam fundamentos do direito em suas práticas, “mas a Dilma não ouviu”. Lembrou também que sempre disse que não há prova contra Lula e que mantém o desafio, em seu blog, de alguém apontar nos autos a prova que condenou Lula.

Sou daqueles que agora leem o RA. Acho notável que ele não tenha seguido a onda eleitoral do bolsonarismo, e ele fala para um público que precisa ouvir o que ele diz hoje.

Mas a sua atual posição ilustra bem a hipocrisia da direita dita democrática e os desafios de uma frente ampla como aquela proposta por este ato. Ele se esconde do mal que fez quando colunista da Veja, ao lado de Diogo Mainardi. Ele foi ativo construtor do ódio anti-petista, e suas críticas aos governos do PT não eram nem construtivas nem apenas divergentes. Ele é o autor do termo “petralha”, um favorito do presidente Bolsonaro. O nome faz de todo o filiado ao PT um criminoso, e do partido uma “organização criminosa”. Assim, ele é contribuidor direto do clima que destruiu a política institucional e fomentou as saídas autoritárias de extrema-direita.

Para tirar a teima, baixei o seu livro de 2008, “No país dos petralhas”, que reúne suas colunas da Veja. Foi muito fácil localizar o veneno malicioso que nada tem a ver com a construção da divergência. Ele mente, torce dados e faz generalizações escrotas e injustas, antecipando o fake news que nos castiga hoje. Para selecionar apenas uma passagem, logo no começo:

“’Tudo o que é bom para o PT é ruim para o Brasil.’ Não é a primeira vez que escrevo sobre a frase que mais me rendeu protestos. Até alguns ‘conservadores’ fizeram um muxoxo: ‘Cheira a preconceito.’ E daí? O preconceito também é uma realidade discursiva definida por marés influentes de opinião”.

Divergência o caralho, é preconceito mesmo o que ele destila, só que agora mudou de lado – e vai mudar de novo. Bolsonaro é seu filho e ele nos jogou aos cães que agora mordem sua bunda.

Fazer frente ampla pode ser uma tarefa necessária que envolve paciência. Como sabemos desde a transição democrática dos anos 1980, o ponto é impedir que os processos que redundaram na ditadura e agora em Bolsonaro se repitam. As alianças que se forjarem hoje têm que construir caminhos que impeçam que de novo a extrema-direita seja opção para liberais e conservadores. Esse compromisso precisa ser público.

Eram já 21h25 e outros oradores falaram em seguida. Algumas falas foram boas, mas a esta altura, depois de 2 horas, havia muita redundância e repetição. Mas o rapper Rico Dalsam foi bem, elogiou o trabalho dos “brancos daqui que geram atravessamentos na margem”. Cobrou a presença de mais negros e negras na frente ampla, “pelas pretas livres, pelas bichas livres, pelas bichas pretas”, e concluiu com “esse atravessamento se dá por Lula Livre”.

Falou depois Leandro Demori, da equipe do Intercept. Disse “tem que ter mais preto aqui também”. Disse ser um desastre que apenas 10% dos jovens confiam na imprensa. Falou que a Lava Jato veio num momento em que a redações demitiam os jornalistas mais experientes. A operação oferecia notícia grátis todos os dias para redações que publicavam tudo e não investigavam nada. Passou pano para Reinaldo Azevedo e falou bem dele.

Eram 22h quando falou Glenn Greenwald. Iniciou lembrando o papel de Manuela D’Avilla na Vaza Jato e elogiou muito sua integridade. Disse que quer devolver ao Brasil tudo o que o país lhe e deu. Falou que decidiu fundar o Intercept Brasil pois “a elite decidiu em 2016 deixar o sistema democrático para derrubar Dilma”, e que não havia divergência na imprensa. Disse também que Moro busca criminalizar o Intecept, pois ele nunca os chamou de jornalistas, mas sim de “os aliados dos hackers”. Falou que ter coragem é contagioso e que aprendeu a ter coragem com uma sua fonte, o Edward Snowden, que estava pronto a arriscar ficar na prisão pelo resto da vida. Snowden teria dito que pior que ficar na prisão “seria a consciência pesada de não ter feito nada” Greenwald disse “sabemos todos que vamos morrer, este não é o ponto. O ponto é como vamos viver”.

Celebrou o protagonismo das mulheres da favela, colegas de Marielle, que optaram por continuar a luta. Celebrou também a coragem dos que lutaram contra a ditadura, e disse que a energia do amor, da empatia e da diversidade vai prevalecer, a energia do bolsonarismo vai se esgotar. Recordou a jornalista Patricia Campos Melo, que com ele ganhou o premio Herzog. Greenwald celebrou Herzog, “como eu um judeu imigrante que amou ao Brasil”. Finalizou dizendo que a corrupção existe em todos os níveis, e que agora a corrupção do judiciário está sendo revelada pela Vaza Jato.

Glenn foi muito aplaudido, e o ato foi fechado com um Lula Livre.

Como avaliação final, achei o ato bom e bem cheio. O arco de representantes foi mais amplo do que a bolha petista, por exemplo. A pauta é boa e supra-partidária por definição, o que vai atrair outros setores mais arredios da sociedade. A tendência é crescer. Achei bom também que o Lula Livre tenha sido acolhido e que haja democratas suficientes para compor a frente.

Mas é muito importante que não se caia na armadilha da restauração da democracia que nunca existiu. A direita vai tocar muito esta tecla, mas a esquerda precisa aproveitar a brecha para propor inovações democráticas para a sociedade. Uma frente ampla pode gerar subseções e subgrupos temáticos que pensem e articulem novas formas de fazer política, de reforma institucional. Os militares estão operando uma profunda reforma institucional dentro da estrutura do estado brasileiro, vai ser preciso reverter e repropor arquitetura do estado como um todo.

Como colocaram os jovens negros e as jovens mulheres, o estado de direito realmente existente no Brasil foi conivente com a desigualdade e violência. Qualquer frente ampla vai ter que incluir a superação disso.

Como ex-aluno da faculdade de Direito, já ouvi muito invocações apaixonadas de lutas passadas declamadas dentro das arcadas. Mas, olhando bem, enquanto eu ouvia juristas brancos e velhos perorarem, notei que o Salão Nobre da faculdade, com sua decoração bolo-de-noiva de cortinas vermelhas plissadas e frisos ecletistas, era vigiado pela figura do escravagista D. Pedro II, a partir de uma enorme, esforçada mas medíocre tela pendurada na parede. Seu culote branco e apertado sugeria uma hesitante ereção à la Doria. Achei que campanhas de restauração democrática muito genéricas acabam por abrigar conservadores e reacionários que buscam lavar suas mãos do sangue e do excremento que geraram. Mas o truque parece ser tensionar e radicalizar a proposição de transformação democrática como for possível.

Saí a pé, peguei o metrô e fui para casa.

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