Diário: ato pró-Bolsonaro na Paulista

Ato em apoio a Bolsonaro toma a Paulista. Nem um fracasso, nem consagração. Mas o suficiente para a máquina de fake news.

Foto: Ronaldo Miranda

Levantei e fui checar as notícias e ver o que pressagiava o noticiário. O dia de hoje é crucial em vários níveis, e o mais interessante é avaliar quantos são os bolsonaristas “puro sangue”: parte importante da direita não foi e falou contra. Então a contagem de corpos no asfalto ganha tintas políticas altamente carregadas. A marca d’água é alta – as enormes manifestações contra os cortes na Educação. Vi as imagens do Rio de Janeiro e deu para ver que não foi um fracasso. Na contabilidade das manifestações, os números ainda são maiores no campo popular.

Agora que escrevo, já sei o que aconteceu: estou na mesa do boteco, pós-facto. Tenho uma avaliação geral, mas está ao pé da página!

Cheguei a pé na Praça Oswaldo Cruz para checar a manifestação. Era bem cedo ainda, 13h30, mas não resisti dar uma olhadinha mesmo assim. A avenida fica normalmente fechada ao trânsito no domingo, então tinha muita gente passeando. Mas já deu para notar que tinha bastante camiseta amarela a caminho do ato. De outra forma, os músicos, mágicos e estátuas humanas de rua estavam lá como sempre, incluindo o rapaz da “Hipnose Grátis”.

Na esquina da Brigadeiro Luiz Antônio tinha um pequeno carro de som, o primeiro. Contei no total 9 carros de som ao longo da avenida. Esse era de relay, ou de retransmissão de sinal que vinha de algum outro carro distante. Tocavam o hino nacional. Passando por ele, ainda com amplo espaço no asfalto, vi um cartaz “Brasil não é Venezuela”. Mas vi também, pixado no canteiro de flores, “Quem mandou matar Marielle?” – duas vezes!

Em frente ao prédio da Gazeta, outro carro de som, grande. Trazia uma faixa “Povo unido jamais será vencido”, outra “Bolsonaro 17”. Outra, mais longa, trazia “Aprovação da Reforma da Previdência, Pacote anti-crime (Sérgio Moro) MP 870. Contra o ativismo judiciário – CPI da Toga. Chega de atrapalhar o governo, trabalhem pelo Brasil”. Tinha uma bandeira de Israel também. O ato não tinha começado oficialmente e tocavam músicas da campanha de Bolsonaro, sem oradores.

Passei ao largo depois de anotar as faixas e segui pelo asfalto.

Vi muitas camisas da CBF, muitas apenas amarelas e muitas com o nome ou rosto do presidente. Vi um ajuntamento de gente e fui olhar – eram umas 100 pessoas. Eram os “Youtubers de Direita”. Faziam muitas selfies com as pessoas, que pareciam conhecê-los. Um deles tinha uma camiseta “Vlog do Lisboa”, e intuí que o Lisboa em questão era ele mesmo que sorria abraçado às pessoas.

Segui até a rua Joaquim Eugênio de Lima e cheguei ao carro de som seguinte, que era do Revoltados Online, que tocava “Bichos Escrotos”, do Titãs. Depois tocou outros rockinhos dos anos 1980. Achei que isso era consistente com o perfil que eu via até agora: homens e mulheres de 50 a 60 anos, brancos e de classe média. Todos eles eram jovens nos anos 80, como eu fui. Tinha famílias e, portanto, crianças, e alguns jovens. Vi poucos negros ou negras. Concluí que a manifestação não furou a bolha bolsonarista em São Paulo, e que, apesar dos números gerais expressivos, não rolou capilarização geral pela sociedade. Esse carro de som trazia uma faixa: “OAB extinta em 1990, não somos obrigados. Liberdade e Constituição Já. Revoltados Online”; e outra “Juntos somos mais fortes, e com deus somos imbatíveis”, e ainda “Movimento o Brasil começa por você”.

Foto: Ronaldo Miranda

A esta altura, deu para ver que tinha no geral três pautas principais: defesa de Bolsonaro, Reforma da Previdência e Lei Anti-Crime. Achei que todos os carros eram muito disciplinados em se ater a estes três pontos. Não teve defesa do fechamento do STF, do Congresso, ao menos não nas faixas oficiais nos carros, e também nas falas dos oradores. Chuto que houve cuidadosa preparação e afinação de discurso.

Por um lado, não havia aquela louca anarquia que é o cartaz feito à mão em casa, parece que buscavam tirar aquela coisa de pedir o golpe abertamente, como foi o caso em manifestações passadas, recentes, ainda em 2019.

Parei de anotar camisetas e cartazes com estas três pautas, e concentrei nas diferentes. Da mesma forma, camisetas com o rosto ou só o nome do presidente parei de reparar, assim como aquela “Meu Partido é o Brasil”. Mas estas estavam presentes em todo o ato.

Vi um cartaz “STF renuncie!”, e outra algo críptica: “Ministério do Turismo. ANAC e leis. Cadê vocês?”

Foto: Ronaldo Miranda

A seguir vi um caminhão do exército estacionado numa calçada. Um companheiro antigomobilista revelou que trata-se de um antigo caminhão do exército que foi leiloado. Há colecionadores que compram e restauram. Uma faixa, presa ao caminhão, trazia “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”. Do outro lado, outra faixa “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. João 8:32”. Ao pé do capô, um homem com uma faixa menor: “Intervenção Militar FFAA”.

Vi um pavilhão do Brasil imperial nos ombros de um homem. Vi mais dois depois, ao longo do dia.

Cheguei ao carro de som seguinte, que não consegui identificar de quem fosse. Levava uma faixa com “Reforma da Previdência. Pela MP 870 (Pacote Anti-Crime). Repúdio ao Centrão”. Outras “Todo o poder emana do povo. Atenção Congresso, respeite os 57 milhões de votos. Lava Jato, eu apoio. Respeite nossa vontade, respeite a democracia”. Depois tentei identificar os logos da faixa, mais de 7, e só conhecia uns dois ou três: o Direita São Paulo, Vlog do Lisboa e o Patriotas Lobo.

Vi no asfalto duas grandes bandeiras do Brasil e uma grandona do estado de São Paulo. Um outro cartaz informava: “Adesivos do mito. R$2,00”.

Olhei para cima e vi que o cartaz com cartum do Laerte dominava a cena: “Saia com o livro para cima. Você está cercado de ignorância!”, ordena um homem de megafone a um moço que lê um livro em um banco de praça, cercado de multidão furiosa. Grande Laerte. A avenida Paulista tem agora uma série de uns 15 cartazes afixados a postes do canteiro central. São desenhos de Laerte e Angeli. Bizarro vê-los sobre as cabeças verdeamarelas.

Notei que um grupo de quatro pessoas tinha trazido à manifestação, cada um, um cartaz tipo “pirulito”: as letras S, T e F, mais um emoji representando um monturo de merda apareciam sobre as cabeças das pessoas. Tive que sorrir.

Em frente ao prédio do Juizado Federal estava o carro de som do MBC, que é o Movimento Brasil Conservador. Trazia a faixa principal “Movimento Brasil Conservador. eusoumbs,org. eusoumbc,apoia.se”. Uma outra foto grande trazia Bolsonaro fazendo o gesto da arminha. A oradora fazia um discurso e afirmava que “Bolsonaro não é de extrema-direita, ele é de extrema necessidade!”. O povo aplaudiu. Ela seguiu e agradeceu muito à polícia militar, especialmente o Major Marcelo e o capitão Luciano. Disse que eles tinham dito que “a esquerda nunca vem às reuniões que eles marcam”. Ela também disse que “os policiais ferroviários federais pedem socorro ao presidente Bolsonaro”. A oradora seguiu atacando o MBL.

Na grade que separava o carro do povo no asfalto, alguns cartazes: “Olavo tem razão”, “O Brasil despreza a esquerda, o Centrão e a velha política” e “O governo não é dos liberais, é dos conservadores”.

Segui até quase o MASP, mas tomei o caminho de volta para encontrar R. No caminho, vi um faixão “Rodrigo Maia (DEM) e Orlando Silva (PCdoB). Aliança corrupta para emparedar Bolsonaro e constranger o Superior Tribunal Eleitoral”.

Vi um cartaz: “Eles não querem, mas o Brasil vai decolar”, uma camiseta “Cala boca, seu burro!”.

Foto: Ronaldo Miranda

Ouvi algum orador afirmar que o Brasil não pode se tornar uma Venezuela, “onde antes o povo competia com o cachorro para comer a ração, e hoje o povo come o cachorro!”.

Outro orador afirmava que a “economia já começou a mudar com Dória”, que tinha conseguido manter a Ford em São Paulo, com “incentivos e investimentos”. Afirmou que “a reforma da Previdência vai economizar um trilhão e vai gerar dinheiro para a infraestrutura e a educação”. Esta evidente mentira não vai ser confrontada no futuro próximo, quando faltar dinheiro para escola.

Vi um figura bizarro, de boné, óculos escuros e batina preta de padre. Fazia selfies.

Eram 14h30 e o moço da hipnose grátis continuava na calçada perto da Praça Oswaldo Cruz.

Encontrei R e seguimos pela avenida na direção da avenida Consolação, passando por todos os carros, buscando a rua Augusta. Eram 15h30.

O clima geral era mais festivo, muita música num volume muito alto. Vimos um faixão verdeamarelo, horizontal, passar levado por muita gente embaixo. Vi um cartaz que trazia a palavra “Cleptocracia” combinada com outras ao estilo palavras cruzadas. Vi uma camiseta “Foda-se o politicamente correto”.

No segundo carro, depois daquele primeiro de relay, ouvi um orador afirmar que “a Thatcher dizia que o socialismo é bom até acabar o dinheiro que toma dos outros”. A seu lado, um senhor de uniforme e boina do exército.

Cheguei ao terceiro carro, do Revoltados Online. Bem cheio na frente, umas 3 mil pessoas. Uma canção meio canhestra tocava, e o povo cantava junto: “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…”. Passamos apertados pela frente, e a música mudou, agora ao som de um cantor que se fazia acompanhar ao violão. Ele era negro e tinha muito swing, cantando “A Paulista, é coisa nossa”, à moda de Sílvio Santos. Notei que a base era da canção dos Incríveis, do Bananeiro. Notei uma faixa no carro de som: “PSL Diretório Bertioga apoia Jair Bolsonaro”. Calculei umas 6 mil pessoas ao redor do carro de som.

Vi um faixão no chão, “Povo contra a corrupção”. Outra faixa “Fora corruptos, cadeia neles!”, e “Presidente, o Brasil está com você!”. Vi um cartaz “Lava Jato, orgulho nacional”, e um pixulequinho do Lula.

Passamos pelo caminhão do exército, que ainda estava lá. Chegamos à FIESP, cruzando a rua Pamplona. Cruzamos o Bruno Torturra, que conhecia R.

Conversamos com um casal jovem, de uns 20 anos. Eles contaram que não estavam confortáveis lá, e que tinham vindo apenas porque a mãe dela foi. Disseram que ela, a mãe, tinha votado no Amoedo mas que agora apoiava a agenda Bolsonaro. Mas eles não gostavam do capitão.

Vi uma camiseta “Caminho da Fé”, e outra “Acabou a palhaçada!”. Um pirulito na forma de uma placa de trânsito redonda, com um círculo, borda e tarja diagonal vermelhos com as palavras “Toma lá, dá cá”.

Foto: Ronaldo Miranda

Em frente a FIESP, um catador tinha seu carrinho de supermercado com latinhas de alumínio e cachorro, Uma placa informava “Poesia. Fale com a gente”.

Vi um cartaz “Olavo tem razão”, outro “O Centrão está travando o Brasil”.

Tentava passar pela frente do carro do MBC, mas estava cheio de gente e o progresso era lento. Apertado no meio de corpos cobertos de verdeamarelo, ouvi um moço dizer “está dando nostalgia do impeachmant da Dilma”.

Afinal passei e chegamos ao MASP. Eram 16h30 e vimos o carro dos “Fiscais da Nação”. Uma faixa afixada ao carro informava que “Os Fiscais da Nação apoiam Bolsonaro”. Calculei umas 2 mil pessoas ao redor deste carro. Um orador, que é deputado estadual na ALESP, dizia que lutava muito contra a esquerda e o PT na Assembleia. Disse que “se o Bolsonaro está contra a esquerda, está no caminho certo!”.

Na grade do canteiro central, a faixa “O povo de São Paulo agradece a PM. Direita São Paulo”.

Vi o cartaz “Votamos em pessoas, e não em partidos”. Vi uma camisa do Palmeiras, e outra do Juventus. Vi uma roda de pessoas com um repórter da Band ao centro, aguardando a hora de entrar ao vivo. Apesar do cartaz que vi depois, “Globo e Band, vendidas”, não era hostilizado.

Foto: Ronaldo Miranda

À altura da rua Peixoto Gomide, o sétimo caro de som, que era do Nas Ruas. Vi uma bandeira de Israel no topo, e uma faixa no lado do carro; “Agora é pelo Brasil”. Um enorme pixuleco do Bolsonaro, sorridente, dominava o horizonte, estacionado pertinho do carro de som. Calculei umas 6 mil pessoas em volta. O orador gritava que “nunca tivemos alguém da estatura e honestidade de Bolsonaro na presidência!”.

O oitavo carro estava na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo. Trazia uma faixa grande “#Censura não. Apoio à Lava Jato. Brasil [ilegível no caderno]. Aprova ou quebra o Brasil. Brasil acima de tudo. Isabela Trevisan”.

Eram 17h30.

Um homem triste e ricto segurava um cartaz no meio do asfalto: “Ganhe livro de “puta” justiça, como foder o cu de juiz e buceta de juíza em processo. Sou Celso Jorge de Godoy Júnior.”

Vi uma faixa grande presa a uma grade da rua. O curioso é que tinha um recorte, como que expurgando um termo agora indesejado de dizeres antes apropriados. Trazia “Bolsonaro XXXX o Congresso. Fora STF. Fora Centrão. Traidores da pátria. Fora MBL lixo. Reforma Já”.

Vi um moço com uma camiseta “Salva Lindas”. Vi o sósia do Roberto Carlos que sempre canta aos domingos, com seu terno verdeamarelo e branco, com uma rosa vermelha nas mãos.

O nono carro de som era de um grupo curioso, o Direita Digital, na altura da rua Itapeva. A faixa principal trazia “O povo não pede, decide!”.

Foto: Ronaldo Miranda

Um moço negro no asfalto vendia copos de papel com a imagem de Bolsonaro fazendo o gesto da arminha. “Olha o copo, olha o copo do mito, 5 reais , 5 reais o copo, o copo do mito”. A seu lado, um retrato em tamanho natural de Bolsonaro, ao lado do qual as pessoas vinham fazer selfies.

Vi um casal de velhinhos chegarem com uma faixa pequena “Eu apoio Paulo Guedes e Sérgio Moro”. Vi uma camisa do Corinthians. Vi os meninos e meninas do Anonymous for the Voiceless, que sempre está lá aos domingos, de preto e com máscaras de Guy Fawkes.

R notou que um grupo de rapazes vestiam camisetas pretas com o rosto de Bolsonaro, calças de exército e… bandeiras LGBT aos ombros.

Vi um rapaz tímido com um cartaz “Ajude-me a abrir um negócio. Brigadeiro R$2”. Vi um figura fantasiado de robô, grandão e preto, com luzes piscando. Vi um Homem Aranha e um Batman. Faziam fotos com as pessoas.

Foto: Ronaldo Miranda

Vimos uns jovens com o cartaz “Aprova essa porra logo, nhonho”. Conversávamos com eles quando passou um homem cercado de uns 10 PMs e umas 50 pessoas que o xingavam muito. Parecia que era um não-bolsonarista que era escoltado para longe do ato.

Vimos uma moça e um moço com o cartaz “MBL Movimento Bumbum Livre. #Tchutchuca do Centrão”.

Já eram 18h, o ato encerrado e as pessoas dispersando. Passávamos pelo MASP e vi um agito, fomos ver o que era. Um grupo de umas 100 pessoas cercava uma contingente de uns 25 PMs, que por sua vez circundavam uma moça negra, uma jovem de uns 25 anos. Era difícil entender o que se passava, mas ela parecia ser alguém que não era do rolê Bolsonaro e foi cercada. A PM a separava do povo que gritava, mas também a prensaram quando ela respondeu aos apupos. Uns diziam que “mostraram a bunda”, outros que ela tinha “mostrado os peitos”. Riam.

Passou um grupo de jovens do Direita São Paulo cantando uma versão sua do “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”. O povo cantou junto.

Só que nessa hora apareceu um figura, um homem careca, de uns 50 anos. Era o Maroni, dono do bordel Bahamas. Ele fez uma festa em seu prostíbulo na ocasião da prisão de Lula, quando franqueou a cerveja. Fotos da época revelam o que nem Glauber Rocha conseguiria urdir: Sérgio Moro e Carmem Lúcia presentes em efígie, e Maroni fantasiado de presidiário simulando a degola de uma funcionária sua, prostituta.

Rolou que ele tomou a palavra e discursou, referindo-se à PM: “Esse caras acordaram cedo hoje, e deixaram suas esposas e filhos, vestem o colete e vieram aqui para a guerra. Graças à competência de vocês, essa festa foi linda! Tiramos a Dilma e agora temos aquele homem, o Jair Bolsonaro!”. O povo vibrou e uma mulher veio tirar selfie com ele.

Um PM falou ao ouvido dele e pediu que dispersasse o povo para que pudessem liberar a moça.

Foto: Tulio Vidal

Fiquei muito impressionado com esse final de ato. Um dono de bordel vem celebrar a família e trabalho dos PMs. Uma senhora vem tirar foto com o famoso que prostitui jovens filhas. E, principalmente, a multidão pronta a linchar uma mulher por (sabe-se lá) mostrar os seios é a mesma que celebra o pornógrafo master da cidade.

A direita está numa viagem de perversão que ainda vai destruir o que resta de vida no Brasil.

Saímos fora e caminhamos até o Paraíso.

A minha avaliação geral final é a seguinte: não foi um fracasso, mas não foi uma consagração. É bem difícil avaliar números, mas chutaria umas 50 mil pessoas. Mas o ponto é que, como disse R, foi um palco de fake news. As fotos necessárias para a máquina de notícias falsas e memes foram realizadas aqui. Bolsonaro não virou as manifestações contra os cortes na Educação, mas conseguirá gerar fluxo de informação para competir nas redes. O contingente mobilizado hoje não furou sua bolha, e não parece ser suficiente para um golpe de estado – para isso terá que contar com avalizações mais contundentes, de mais parceiros. A coordenação foi boa e a pauta não degenerou em pedidos de fechamento do Congresso e STF. Muito menos em fricções com os militares.

Mas fiquei muito impressionado e surpreso com a variedade de posições presentes ali. Conversei com gente que não votou no Bolsonaro mas apoia Sérgio Moro, jovens que valorizam o debate e a diferença – vestindo camisetas do Bolsonaro. Mas o que sobressai é a incrível salada de confusões e contradições gritantes nas opiniões das pessoas. Vai ser muito difícil atuar nesse nível de bagunça conceitual. O discurso do Brasil acima de tudo funciona como um jeito de não entrar nesse mérito e oferecer um nível onde nada disso importa e onde a figura de Bolsonaro dissolve as contradições. Se a esquerda está fragmentada e em crise, a direita está em igual estado centrífugo. Só que eles têm uma figura de liderança que cancela diferenças.

Saí a pé e caminhei para casa.

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