Pós-materialismo: por uma política não-cartesiana

A racionalidade não freia a ultradireita. Frente a estudos sobre o imaterial na realidade, surge o ativismo quântico. E se nós, tal qual elétrons, pudéssemos dar “salto planetário”, reconectando-nos com a Natureza e combatendo as injustiças?

“Por milênios, desenvolvemos meios externos, instrumentos externos, técnicas externas de vida e, eventualmente, esses meios e essas técnicas estão nos esmagando. O sinal da nova humanidade é a inversão de perspectiva e a compreensão de que os meios internos, o conhecimento interno e a técnica interna podem mudar o mundo e dominá-lo sem esmagá-lo”.
Mirra Alfassa, A Mãe, 1968

Diante do avanço da extrema direita no mundo, em que personagens deletérios e funestos vêm se destacando na política, uma pergunta se impõe: “por que a racionalidade tem falhado tão rotundamente?” Trazer à tona um elemento complementar de análise, a influência do mundo imaterial, da teia de relações energéticas e informacionais que influenciam as ações humanas, pode ajudar a alargar a mirada. O paradigma quântico-holístico-sistêmico-ecológico, que reconhece a dimensão sutil do mundo, abre portas para essa compreensão.

O modo totalitário de governança das extremas direitas está colocando a democracia, o meio ambiente e os avanços sociais e políticos em risco, e agravando a tendência ao colapso civilizatório. O modo corrente de ver o mundo, baseado no materialismo e chamado de paradigma cartesiano mecanicista, não nos dá ferramentas suficientes para enfrentar esse imenso desafio. É hora de ir além da lógica do combate, da dominação e da competição que são inerentes a esse paradigma e que, infelizmente, é adotado também por muitos daquelas e daqueles que estão angustiados com o que acontece hoje. Reler o mundo com olhar mais largo torna possível encontrar soluções e linhas de ação para os desafios atuais e que serão também as raízes para uma nova civilização.

A mudança civilizatória que decorrerá da superação do paradigma cartesiano e mecanicista já se manifesta hoje e dá destaque à noção de “campo sutil”, que será desenvolvida nesse texto. Com base no trabalho de diversos autores e autoras, de diferentes disciplinas (Teilhard Chardin, Sri Aurobindo, Mirra Alfassa, Ervin Laszlo, Rupert Sheldrake, Greg Braden, Humberto Maturana, entre outros) busca-se reforçar e ampliar a compreensão que a ciência tem do Real.

Como na Filosofia, a ciência busca ir sempre mais além, e para isso ela tem que estar disposta a recriar continuamente seus métodos. Na metodologia da Práxis adotada aqui, admite-se que no decurso da História, o ser, o fazer e o viver humanos revelam sempre novas dimensões e campos do Real. A dimensão imaterial, o campo sutil, é uma nova e vasta janela de compreensão que vem sendo integrada e que funda a ciência pós-materialista (Nunes, 2019).

As ciências da Física e da Biologia, por exemplo, demandam novas noções e substâncias para entender fenômenos que as leis da mecânica convencional não conseguem explicar. No caso da origem e evolução da vida, surge de diferentes fontes científicas a hipótese de um “estofo da Matéria”, de natureza não-material, portanto, pertencente ao que aqui chamamos de campo sutil. Este “estofo” daria sentido à evolução da Matéria, de formas mais simples e menos conscientes para formas mais complexas, conscientes e portanto menos previsíveis. Tal “substância espiritual”, ativamente presente no seio da Matéria, convida a ciência a reconhecer o campo sutil e abre as portas para a pesquisa das interações entre esse e o campo material.

Pierre Teilhard de Chardin, um pesquisador da paleontologia, foi um dos primeiros a avançar a ideia de Estofo do Universo (Chardin, 1966/1956). Ele sugere que não há “matéria e espírito”, mas somente matéria em vias de espiritualização, Espírito-Matéria. Esta seria a única substância capaz de resultar no surgimento da espécie humana, no ser humano como molécula consciente-reflexiva do Universo. Para Chardin, o exterior do Universo (matéria) seria animado por um interior (consciência), ambos formando uma unidade que evolui e se complexifica num sentido mental, psíquico e espiritual. A trajetória da espécie humana é um exemplo vivo dessa complexificação, mas não só ela.

Teilhard admite a existência de um vetor energético, interno à Matéria, que “empurra” e dá alento à evolução, e, em contraponto, “uma força de atração” que age como vetor energético semelhante à gravidade a partir de um centro de convergência, que ele denomina Ponto Omega. A conjugação destes dois vetores teria como resultante o movimento evolutivo não só da Matéria, mas de toda forma de vida, de mente e de consciência individual e coletiva. A evolução da Terra segue então um processo que vai da Geosfera (esfera da matéria terrestre e cósmica), à Biosfera (esfera da vida), à Tecnosfera (esfera da ação humana) e evolui para a à Noosfera (esfera do espírito) segundo um vetor energético que atua, portanto, na pessoa, na sociedade, na política, na cultura e no universo relacional humano e natural.

A dinâmica das dimensões material e imaterial/consciente do mundo clama por um novo campo conceitual e metodológico que incorpore a transcendência sem ser religioso. O paradigma quântico, fundamento da ciência pós-materialista, explica o que aqui chamamos de campo sutil, evidenciando que a realidade abrange a dimensão material e mensurável, mas também compreende conexões que independem do espaço-tempo e pertencem a uma dimensão imaterial. Essa compreensão ampliada do real exige uma releitura do mundo, e um novo conjunto de premissas se impõe.

Algumas bases factuais do paradigma quântico e seu impacto na política

A primeira base do paradigma é a compreensão de que tudo está interligado. Autores que entendem essa interligação como tendo um sentido evolutivo de complexificação e amorização dão deferentes conceitos para o fenômeno. Fritjof Capra chama essa interligação de “Teia da Vida”, Amit Goswami de “Universo Autoconsciente”, Greg Braden de “Matriz Divina”, e muitos desenvolvem a ideia de que existe uma unidade do Real (o invisível), que se materializa em diversidades (o visível) que estão em processo de contínua transformação. Na Teia, na Matriz, no Universo Autoconsciente cada ser encontra seu sentido ao mesmo tempo imanente (realizar sua missão na sua existência terrena) e transcendente (estar a serviço da unidade da Teia da Vida – dinamizar conscientemente a energia unitiva que espiritualiza e “amoriza” as relações).

Isto pode ser melhor entendido a partir de conceitos da Física como “entrelaçamento quântico”, no qual elétrons, fótons e mesmo moléculas mantêm-se interligados independentemente do espaço-tempo, e se comportam de maneira interativa. O que entrelaça essas duas “coisas” (nome genérico, já que o mundo das partículas, subpartículas e ondas não é um mundo de objetos), segundo o físico Amit Goswami, é a consciência, da qual todos os seres fazemos parte: somos corresponsáveis e, ao mesmo tempo, somos influenciados por ela. Daí surge a necessidade de alargar o horizonte da política para abranger o campo imaterial.

Outra noção importante do novo paradigma inspirados na Física quântica é que os átomos e as partículas subatômicas não são, de fato, objetos sólidos. Eles não existem como certeza num lugar definido do espaço-tempo. Alguns desses blocos de matéria se comportam alternativamente como partículas ou como ondas, em função do tipo de intervenção do observador, ou seja, são matéria no momento em que o observador escolhe olhá-los assim e são energia quando os vê assim. Estes fenômenos deram origem ao novo entendimento de que a realidade é afetada pelo observador, tornando impossível a neutralidade ou a pura objetividade. Esse entendimento resultou na teoria quântica da incerteza, que difere completamente da visão mecanicista do velho paradigma de base materialista. Isso dá, ao mesmo tempo, humildade e poder à espécie humana.

Dessa compreensão nasce também um novo olhar sobre o engajamento político, chamado de ativismo quântico(GOSWAMI, 2010) que destaca como a coerência interna de pessoas e movimentos entre o que pensam, dizem e praticam tem imenso poder de impacto na política. Todos os processos são globais e cada indivíduo, como observador e como participante, está conectado com o todo e interfere nele. A construção da realidade inclui a vontade e a ação de cada pessoa, e um pequeno grupo pode propiciar um salto quântico planetário, se as condições são dadas.

O fenômeno do salto quântico é, assim, outra noção importante da ciência pós-materialista, largamente aceito também pela ciência convencional. Aqueles mesmos elétrons que se configuram como realidade segundo o olhar do observador, estranhamente “saltam” de órbita com pequenas inserções ou perdas de energia. Essa mudança de estado descontínua e súbita do elétron não se dá necessariamente por um contínuo acúmulo de energia, mas pode ser uma mudança abrupta, complexa, que depende de muitas variáveis e que pode acontecer sem um “impulso maior”.

Até aqui a História foi mostrada como se apenas as grandes forças tivessem possibilidade de fazer avançar o mundo – ou fazê-lo retroceder. Eis que a Física quântica diz que uma mudança de estado pode se fazer em saltos. Extensivamente, propomos a hipótese de que a qualquer momento qualquer pessoa ou movimento possa ser parte de uma mudança capital para o mundo, apenas porque ela é “a gota d’água” que faltava para o salto histórico quântico acontecer. O ativismo quântico cotidiano de cada pessoa e grupo, sendo amoroso e coerente no dizer, no fazer e no ser ecológica, consciente e socialmente comprometido, pode contar tanto ou mais do que os manifestos e manifestações do mundo material.

Um outro fenômeno que pede noções como o campo sutil é o fato comprovado de que, ao saltar de uma órbita e antes de chegar à outra, o elétron sai do alcance do observador. Este sair do alcance, ou seja, não ser detectado por nenhum instrumento hoje existente, aponta para a provável existência de outras dimensões da realidade nas quais a matéria, como a entendemos hoje, não existe. Um cientista imaginativo, Hugh Everett (2012) propôs nos anos 1950 a ideia de “universos paralelos” para explicar um fato enigmático da Física quântica: enquanto uma partícula não for observada, medida ou em estado de interação, ela se encontra num estado de superposição a todos os seus estados possíveis. Quando o estado sobreposto se resolve, a Física matemática diz que a função de onda “colapsa”. Everett concebe, então, que cada probabilidade de resolução do estado superposto da partícula – e isto inclui também o observador ou o aparelho de medição – pertence a um universo diferente e simultâneo ao primeiro. Essas e outras noções e hipóteses da visão de mundo quântico-holística ajudarão a que as observações, deduções e generalizações sobre a realidade vão se complementando ou se excluindo, o que evidencia a relatividade e o caráter evolutivo do conhecimento humano. Qualquer tentação de dogma ou certeza absoluta fica, portanto, excluída.

O campo sutil segundo a Biologia e a Psicologia

As noções de “ressonância mórfica” e de “campo morfogenético”, propostas por Rupert Sheldrake, biólogo inglês, evocam a existência do campo sutil. Observando processos da natureza, tanto mineral como vegetal, animal ou humana, Sheldrake criou a hipótese dos “campos morfogenéticos”. Estes campos explicariam porque emergem simultaneamente mudanças adaptativas em populações que não têm contato direto entre si. Sheldrake observou que mudanças necessárias ao aperfeiçoamento da vida se propagam por contato direto, de forma linear e causal, mas também através de um campo informacional que interliga tudo que existe e cuja informação se propaga como “ressonância mórfica”. Sua hipótese é que os campos mórficos são formados pela ressonância mórfica de todos os sistemas semelhantes do passado e, assim, contêm uma memória coletiva cumulativa, além do espaço-tempo.

Esse campo universal formado pela memória de ações, pensamentos e sentimentos ao longo da História cósmica pode orientar comportamentos novos. O campo mórfico é um campo global que se manifesta localmente e está ativo dentro e em volta dos sistemas (moléculas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades e mentes) e interfere na forma com que eles organizam. Sheldrake entende como “ressonância mórfica” a memória ou registro não local e não material, onipresente no Universo, assim como em cada tipo de ser ou espécie viva, responsável também por fenômenos como a criatividade (artística, científica, etc.). Esse mesmo campo sutil permite a interconexão telepática entre seres vivos, e as famosas sincronicidades que as pessoas atentas observam cotidianamente em suas vidas. Sheldrake conclui que, se toda escolha que fazemos ressoa em todos os seres, devemos assumir a responsabilidade pelos efeitos dessas escolhas.

Uma abordagem próxima da de Sheldrake trata este campo informacional como constituinte do “inconsciente coletivo”, imaginado por Carl Gustav Jung (Jung, 1959: 42-43).1 Para Jung todo ser humano tem uma parte da psique, – um conjunto de memórias, impulsos e instintos, chamados de arquétipos – que não são fruto de experiências pessoais, mas são integralmente herdados. Estas heranças, por sua vez, procedem do universo de experiências resultantes da vivência das pessoas, sociedades e da espécie humana como um todo ao longo do espaço-tempo. Os arquétipos são formas definidas na psique que parecem estar presentes sempre e em toda parte. Portanto, pressupõem a existência de uma dimensão que ele chamou de inconsciente coletivo da psique humana. Os estudos de Jung mostraram que em diferentes culturas se pode encontrar simbologias próximas, independente delas terem tido contato. O conjunto desses símbolos, que advém da experiência humana ao longo das gerações, constitui uma espécie de inteligência compartilhada.

Como exemplos do inconsciente coletivo estão as formas de “ver” o surgimento da vida, a figura materna, o nascimento, a morte, o medo do escuro e o gesto de cultuar algum tipo de figura divina. Entre esses arquétipos estão as ideias de que o céu está no alto e é luminoso e que o inferno está abaixo e é treva, ou que a vida veio do húmus (ou barro, na acepção judaico-cristã), comuns na maioria das culturas. As simbologias próximas constituem arquétipos humanos e Jung compara o inconsciente coletivo ao ar, que é o mesmo em todo lugar, é respirado por todos e não pertence a ninguém. É o nível mais profundo e menos acessível da psique, que contém o acúmulo de experiências herdadas de espécies humanas e mesmo pré-humanas. A universalidade dessas experiências em inúmeras gerações deixa uma marca em cada pessoa e influencia a maneira como ela percebe e reage ao mundo.

Admitida a psique coletiva como pertencente ao campo sutil, torna-se compreensível a existência de tipos de conhecimento que independem da cultura local, que ocorrem em todas as civilizações modernas e antigas, mesmo que os povos não tenham tido conhecimento uns dos outros. Um exemplo, que hoje está se tornando um novo ramo da medicina, é conhecido como medicina telessomática, ou não local.2

A política e o campo sutil

A política, entendida de forma humanista como a arte da gestão de dinâmicas relacionais entre seres humanos, exige quatro premissas básicas. A primeira é que cada pessoa e cada comunidade humana tem o potencial de construir-se como protagonista do desenvolvimento dos seus potenciais naturais, sociais e humanos. Enquanto humanos, esses potenciais são físicos, mentais, psíquicos e espirituais. Deriva daí a visão de que a forma democrática de governança é aquela que torna viável a partilha do poder de possuir e gerir os bens que garantem a vida, em particular os bens comuns.

A segunda premissa é que só há desenvolvimento humano em contextos relacionais, comunitários. O conceito africano de Ubuntu (“eu sou porque nós somos”) resume essa premissa e reconhece o campo sutil como uma conexão compartilhada unindo todos os seres humanos no hoje e em sua ancestralidade. Tal noção implica a rejeição de todo egocentrismo totalitário, individual ou coletivo. A terceira premissa é que, sendo parte indissociável da Teia da Vida, enquanto portadores de livre arbítrio, somos responsáveis pelo cuidado da nossa relação com o meio natural e pelo reconhecimento da Terra como sujeito de direitos. A quarta premissa implica em reconhecer e agir pela transformação pessoal (“ser aquilo que queremos para o mundo” – Gandhi) e social (práxis política colaborativa e horizontal) necessárias para superar o sistema do capital e qualquer outro sistema centralista ou totalitário de poder.

As análises políticas oriundas do paradigma cartesiano e mecanicista não explicam a situação que o mundo vive hoje nem podem oferecer soluções eficazes, dado que este paradigma está na própria raiz do problema. Ao apreender a lógica dos eventos apenas com números, comparações, relações hierárquicas entre conceitos e entre dados, e com a exigência da necessária “prova material”, essa racionalidade cartesiana carece da visão do todo e de instrumentos para compreender os fenômenos sutis que constituem a dimensão não material da mesma realidade. Isso dificulta o entendimento de aspectos hoje destacados do fenômeno político, como a ascensão da extrema direita. É urgente superarmos a visão materialista vulgar, que está na raiz da exploração entre os seres humanos e da destruição do meio natural, ao desconhecer a interconexão e a unidade sutil de tudo que existe. Como foi dito, o novo paradigma quântico-holístico-sistêmico-ecológico, que reconhece essa dimensão imaterial do mundo, abre novas portas ao conhecimento e ao mundo das relações.

Os materialismos tiveram a virtude de viabilizar a superação dos idealismos no pensamento e na História e o dogmatismo das religiões. Abriram o caminho para o desenvolvimento científico e técnico e para a compreensão dos processos de exploração capitalista. Isso precisa ser relembrado e celebrado. Hoje, entretanto, excluir a dimensão imaterial do mundo facilita que a cultura consumista, produtivista e predadora vigore sem um questionamento poderoso. O mau uso dos bens comuns e a deterioração dos ecossistemas são fruto também da redução do sentido da existência humana à acumulação e consumo excessivo de bens materiais. Esses materialismos, quando integram a subjetividade, mesmo que como uma forma subsidiária às forças materiais, não admitem que fenômenos que independem do espaço-tempo entrem como categorias de explicação do mundo.

A história recente da luta política contra o sistema do capital também se baseia na visão de mundo cartesiano-mecanicista, materialista e patriarcal e por isso funciona em bases próximas ao sistema que combate. Usa as formas hierárquicas de partidos, sindicatos e organizações nas quais as mulheres e negros são minoritários. Coexiste com a danosa competição entre diferentes forças políticas de combate ao sistema, ao invés de valorizar a diversidade, buscar acordos e entender o desacordo como riqueza e não como conflito inconciliável. E enfraquece e empobrece sua atuação por não integrar a dimensão sutil na sua práxis. Nessa dimensão, a energia do amor é uma força motriz que propulsiona a evolução, que convida cada a ser um movimento convergente e integrador com grande resultado político, como se verá mais adiante.

Quando a política deixa de ser prisioneira do espaço-tempo

Tendo feito esta contextualização e explicitado conceitos próximos do campo sutil, como ressonância mórfica e inconsciente coletivo, usaremos o modelo explicativo das “constelações familiares” para compreender o que vem acontecendo no mundo atualmente. Esse modelo é particularmente fecundo para inspirar a necessária ação no campo energético e complementar a ação política humanista, ecológica e emancipadora da cidadania ativa. Hoje, esta ação política se traduz de muitas formas. A educação popular estimula o pensamento crítico que se concretiza em organizações cidadãs (movimentos, sindicatos, organizações da sociedade civil e partidos) e em articulação entre diferentes grupos em grandes redes progressistas. Essas organizações sociais, por sua vez, se manifestam em ações concretas no campo da justiça social, da ecologia, da defesa da diversidade e dos direitos humanos, na busca por políticas públicas humanizadoras, no rico universo da economia solidária, das ecovilas e ecobairros, em ações no ambiente parlamentar, em manifestações de rua e nas redes sociais. A combinação dessas ações com aquelas que atingem a dimensão sutil – as que envolvem a transformação pessoal, subjetiva, cultural e espiritual – será vital para tirar o mundo do perigo que representa o avanço da extrema direita.

Bert Hellinger, o criador do método das constelações familiares, defende que o comportamento humano está relacionado com a existência de algo que podemos chamar de uma “alma universal”, ou um campo morfogenético, que se alimenta de nossas histórias. Ele propõe que nossas emoções e nossos conflitos têm relação com lealdades ancestrais e também que emoções negativas antigas, não curadas, podem ser novamente vividas por pessoas em uma família, em um grupo, em uma nação. Hellinger viveu na África do Sul e aprendeu muito com xamãs sobre como lidar com os ancestrais e com a teia de relações que nos une para além do espaço-tempo, como nos ensina o paradigma quântico. Em seu método, ele desenvolveu a visão original de Virginia Satir, que organizava grupos de cura onde pessoas estranhas interpretavam personagens do drama vivido por alguém. Num movimento empático espontâneo elas se sentiam como as pessoas representadas, imitando até gestos ou repetindo palavras comuns do seu vocabulário, sem tê-las conhecido.

Nas sessões de constelações familiares, as pessoas do grupo de cura acessam a “alma universal” ou o “campo ou arquivo akáshico” da tradição essênia, em que tudo que já foi vivido, pensado, sentido e dito está “escrito”. Isto permite que uma pessoa possa sentir o que a outra sente ao conectar-se com ela. Por sua vez, as pessoas representadas, estando quanticamente entrelaçadas com quem as interpreta, sentem os efeitos da sessão de cura. Elas podem passar a se sentir de outra forma, mesmo sem saberem do trabalho do grupo, percebendo-se, por exemplo, como tendo sido escutadas, compreendidas e perdoadas quando o conflito é adequadamente interpretado. Esse método é amplamente utilizado no Brasil e no mundo, com grande sucesso psicoterapêutico, e serve para curar, inclusive, conflitos ancestrais que se manifestam na vida das pessoas hoje.

Como mudanças nas relações sutis entre os humanos podem contrabalançar e vencer o avanço da extrema direita e estimular uma transformação positiva do mundo? A história humana é permeada por memórias dolorosas de opressão a milhões de índios, escravos, “bárbaros”, mas também às mulheres, aos pobres, aos portadores de necessidades especiais, às crianças e jovens, aos gays, aos imigrantes, etc. À iníqua desigualdade social e de poder, ao sexismo, ao racismo e todas as formas de preconceito, juntam-se os crimes de guerra, da inquisição, da colonização, dos golpes e das ditaduras, com suas torturas, mutilações e mortes. Esse imenso sofrimento e raiva reprimidos, junta-se às dores de hoje, que, ao não serem expressas para poderem ser superadas, afetam o “campo de consciência coletiva”, que até hoje não pôde se manifestar num sentido de cura e redenção.

Se é visível que a cultura humana está impregnada desse passado, cada pessoa também está, e essas dores fervilham inconscientemente, conduzindo a comportamentos de compaixão ou de ódio. Sem ajuda de um trabalho de cura, de perdão, essas energias estarão sempre latentes, prontas a fazer um “salto quântico” involutivo quando ativadas por situações externas detonantes. Se incluirmos a percepção da dimensão sutil desses acontecimentos e dos agentes por ele responsáveis, fica muito mais fácil entender o que vem acontecendo no mundo de hoje – desarmonia insustentável com a Natureza, doenças psicossomáticas tornando-se epidemias, fragilidade da democracia, fracasso de governos populistas, erros das esquerdas, gigantismo das corporações, aumento dos gastos em guerras imperiais e máquinas de matar, superpoder do setor financeiro.

Aqueles e aquelas que incorporam o campo sutil em suas pesquisas sobre a dinâmica civilizacional apontam para um ciclo que se fecha e, com isso, mudanças profundas que sacodem a humanidade nesse momento. Nessa mirada mais larga da História que tem por base tradições de sabedoria de diversas partes do mundo, seria o início da era de Aquarius, o fim da Kali-yuga dos hinduístas, o fim de um ciclo no calendário maia, o Pachacuti do povo Q´eros dos Andes, o início da ativação coletiva do chacra do coração que favorece a convivência horizontal e amorosa, ou algum conceito novo a surgir, oriundo da ciência histórica pós-materialista. O que se vê nessa perspectiva é um grande movimento de luz e sombra no campo sutil. Um olhar sobre essas concepções pode inspirar uma análise política que incorpore a dimensão imaterial.

Nestes tempos de transição e de grande mobilização energética, algumas pessoas acessam mais o campo de luz, outras mais o campo de sombra. Como é sabido nas práticas espirituais e mesmo em experiências científicas (Leloup, 2001) acerca da relação entre o humor e temperamento das pessoas e as experiências que elas vivem no cotidiano, o acesso à luz ou à sombra está vinculado à história e escolhas de cada pessoa. Quanto maior o sentimento de apreciação por si, que vem de um alinhamento entre o que se faz (corpo), o que se pensa e diz (mente) e o que se sente (coração), maior a possibilidade de acesso ao campo da luz. A autoestima é um atributo essencial para o equilíbrio saudável das relações interpessoais e sociais. Ela se distingue do egoísmo e da arrogância ao valorizar e respeitar o que é único em si próprio e, igualmente, o que é único em cada outra pessoa, comunidade e povo. O acesso à luz no campo sutil, e a humildade autêntica que brota da autoestima, se traduzem num comportamento de empatia com os demais. A apreciação de si mesmo favorece o exercício dos talentos pessoais em prol da amizade, da amorosidade e da evolução da vida. O contrário acontece com as pessoas com baixa autoestima, que não se sentem reconhecidas pelo que são, que estão desconectadas de seu propósito pessoal e por isso ficam vulneráveis às energias sombrias.

O movimento das energias sombrias da humanidade nesse momento crítico pode explicar o avanço de sentimentos de ódio, intolerância e pânico – “salve-se quem puder” – estimulados e capitalizados eleitoralmente pela ação criminosa da extrema direita. Toda a herança sombria no campo morfogenético humano está sendo ativada pelas fake news (falsas notícias), pelo medo como estratégia política, pela desesperança e pela intensa manipulação do ódio pelas redes sociais. Como se sabe, as pessoas mais sensíveis à manipulação raivosa estão sendo identificadas facilmente pelos algoritmos da inteligência artificial, seja para a eleição de Trump nos Estados Unidos, para a vitória do Brexit na Inglaterra, e da extrema direita no Brasil e em outras partes do mundo. Em todos esses lugares, é difícil o combate ao ódio por argumentos racionais, por dados coerentes, pois as pessoas estão como embotadas pelo campo sutil negativo. A tristeza, o medo e a ansiedade por proteção e domínio trazem como consequência a busca de um mítico “salvador da pátria”, identificado em muitos casos com o discurso da extrema direita, assim como a escolha preconceituosa de bodes expiatórios “culpados pela nossa situação”, em geral os mais desvalidos.

Agir racionalmente contra os preconceitos e ódios pode dar resultados junto a pessoas que ainda não entraram completamente no campo sutil obscuro e que, mais conectadas com seus corações, podem responder positivamente se afastando do ódio, que é a face mais visível das energias sombrias. Para as pessoas fragilizadas, submetidas à manipulação das energias sutis pelas forças da extrema direita, apenas ações amorosas que integrem as dimensões afetiva, física e a atuação no campo sutil para reforçar a luz pode dar resultado.

O movimento positivo do campo sutil se manifesta em ações generosas, cooperativas, criativas e alegres, que se nutrem de sentimentos e pensamentos amorosos na história ancestral humana e do alinhamento espiritual de muitas pessoas hoje. Sinais dessa nova civilização se multiplicam e incluem o espírito comunitário, a horizontalidade e amorosidade dos coletivos, as meditações e orações pela paz, as práticas de perdão como o O’oponopono, as terapias frequenciais,3 a comunicação não violenta, a criação de redes cidadãs baseadas no reconhecimento mútuo de valores humanistas e ecológicos partilhados, o recente movimento feminino contra a opressão patriarcal através de movimentos coreagrafados e cantados nas ruas… Em suma, assiste-se hoje um movimento vertiginoso de energias positivas que se movimenta para evitar o retrocesso e estimular o avanço da humanidade. Essas energias em movimento ainda são, em grande parte, subterrâneas, pois não têm destaque na mídia e são combatidas como “ingênuas”, “apenas locais” ou “subversivas”.

O campo sutil e o movimento “EleNão”

O movimento brasileiro que lutou contra a vitória da extrema direita em 2018, é exemplar neste sentido. Tendo mobilizado intensamente as energias positivas da amorosidade e da paz com justiça, precisa ser entendido como caminho de atuação política que incorpora a dimensão sutil. Observe-se que foi um movimento massivamente feminino, o que por si só o relaciona com a nova era civilizacional de superação do patriarcado e de equilíbrio entre os gêneros. Atente-se para o fato de que o movimento não teve uma direção centralizada, evidenciando novamente um novo tempo de co-responsabilidade e superação das hierarquias. Quando cada pessoa tomou para si o compromisso de evitar que a extrema direita ganhasse as eleições, nutrindo o espírito do grupo e a confiança interpessoal, assistiu-se a um compartilhamento do sentimento de responsabilidade com o destino da Nação em um movimento que se aproxima da dinâmica da Teia da Vida.

A quase virada eleitoral brasileira, que nas duas semanas anteriores à eleição incorporou sete milhões de votos ao candidato progressista, se baseou em uma mobilização massiva de pessoas para convencer outras a evitar o pior. A união de esforços nas redes sociais, as conversas respeitosas com familiares e amigos sobre as opções políticas de cada pessoa, as articulações sem fronteiras partidárias, as alegres manifestações nas ruas, os eventos artísticos colaborativos, as músicas e poesias inspiradoras, exemplos de ação local – como as bancas onde se trocava um bolinho por uma conversa política – expressaram o sentimento de responsabilidade individual com o destino de todos. O esforço que se fez no Brasil através da escuta, do diálogo e da amorosidade, para evitar votos para a extrema direita, assim como o criativo movimento de resistência que se sucedeu em todo o país são exemplos para o mundo de que um modo humanizador de fazer política é possível.

Nunca houve uma eleição brasileira com tanta ação no campo sutil – meditações individuais e coletivas, emanações de luz em direção ao povo e ao território brasileiros feitas por gente do mundo inteiro, assim como o compromisso em resistir à violência com instrumentos pacíficos e criativos, em presença da arte, do humor e da festa. Nunca se viu tantas visualizações ativas da realidade a ser co-criada no campo sutil para se manifestar na realidade objetiva de forma cordial, serena e alegre, mesmo em face das manifestações de ódio nas ruas e nas redes sociais. Movidos pela coragem de serem responsáveis pelo destino coletivo, e sobretudo pela convicção de que só o amor pode vencer o ódio, as brasileiras (que lideraram o processo) e os brasileiros fizeram o que foi possível nas esferas material e sutil. Não venceram a eleição, mas mostram que a política pode se renovar e trazer esperança (PINHEIRO-MACHADO, 2019). A cidadania engajada do planeta inteiro está atenta, sabendo que cada país está ameaçado pelas mesmas armas.

O reconhecimento crescente da existência do aspecto sutil da realidade ampliará a efetividade das forças humanistas, ecológicas e libertárias rumo a uma forma inovadora de fazer política. A cidadania planetária está desafiada a reforçar a democracia como modo de afastar o perigo iminente de um totalitarismo de dimensão internacional. Radicalizar a democracia significa promover o empoderamento socioeconômico e político dos novos coletivos cidadãos que agem cooperativamente, sem hierarquias coercitivas, que valorizam o sonho, a afetividade, a subjetividade, o autoconhecimento, a intuição e a amizade. Significa tornar visíveis essas comunidades intencionais fundadas na autogestão e organizadas na busca da soberania solidária, que praticam hoje o que querem para o mundo de amanhã e buscam se articular em escala global como cidadania planetária.

Reconhecer o ativismo quântico como uma necessidade e uma metodologia para uma política pós-materialista é viabilizar a renovação da política por esses novos coletivos cidadãos. Isto será fundamental para que os tempos difíceis de decomposição da velha civilização pelo colapso sistêmico que se acelera hoje sejam superados mais rapidamente. E que a nova civilização, que já brota em várias partes do planeta, se fundamente num novo paradigma, que inclui o feminino e promove relações sociais e ecológicas que constroem unidades que respeitam a diversidade, e favorecem a evolução humana em direção à Noosfera de Teilhard de Chardin, a era da amorosidade.

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JUNG, Carl G. (1959). The Archetypes and the Collective Unconscious. Bollingen Series. Princeton: 42-43.

LELOUP, Jean Yves (2001) Além da luz e da sombra – sobre o viver, o morrer e o ser. Editora Vozes.

MATURANA, Humberto (2009/1993). Amar e Brincar – Fundamentos Esquecidos do Humano. Editora Palas Athena, São Paulo.

NUNES, Débora (2014). Os novos coletivos cidadãos. Salvador: Editora Kalango.NUNES, Débora. Paradigma quântico e transformação do mundo. Outras Palavras. https://outraspalavras.net/sem-categoria/historia-fisica-quantica-o-que-a-esquerda-tem-a-ganhar/ (acesso em 14.12.2019)

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NUNES, Débora. Cidades do Futuro, Novos Paradigmas. https://cirandas.net/deboranunes/blog/cidades-do-futuro-novos-paradigmas (acesso em 14.12.2019)NUNES, Débora. E o futuro, a Deus pertence? Sri Aurobindo e Teilhard de Chardin https://cirandas.net/deboranunes/blog/e-o-futuro-a-deus-pertence-sri-aurobindo-e-teilhard-de-chardin (acesso em 14.12.2019)

NUNES, Débora (2019). Uma ciência pós materialista já existe. http://revistatransdisciplinar.com.br/edicao/vol-14-ano-7-no-14-julho-2019/ (acesso em 14.12.2019)

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SY ATEZAZ Saeed, MD (2012). Overcoming Barriers to Implementation. Current Psychiatry, Dec. 11 (12): 10-16.

1 https://www.verywellmind.com/what-is-the-collective-unconscious-2671571

2 Três referências úteis, entre outras:

About Caroline Myss

Ver também https://resonanthealingarts.com/ |https://www.mdedge.com/psychiatry/article/64943/practice-management/telepsychiatry-overcoming-barriers-implementation.

3 https://www.frequencytx.com/; https://www.myss.com

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Leia Também:

2 comentários para "Pós-materialismo: por uma política não-cartesiana"

  1. Sérgio Alves disse:

    ENFIM, UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL E NÃO É UM TREM NA CONTRA MÃO☝🏾☝🏾☝🏾☝🏾

  2. Aurino disse:

    Atribuo o que há de bom e bem enunciado, senti algo próximo dum êxtase deleite com tal dessedentação mental fortuita, apesar da potência do encontro de multiposições que compõem discussão pertinente (https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/e-fake-nao-existe-yoga-ou-coach-quantico-se-nao-e-microscopico-nao-e-quantico.html). Há percepções de influências in(ex)trínsecas do m(a)(i)cro no m(i)(a)cro, perspectivas. Agraciado com a disponibilidade de informações gratuitas, adubo para fertilização de registros psíquicos rizomáticos.

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