As chances de uma esquerda plural

Quatro hipóteses sobre as eleições. Em meio à derrota dupla de Bolsonaro, e ao retorno de uma direita sem elã, emerge uma esquerda onde já não há hegemonia clara – e que, ao contrário do lulismo, aspira a ser antissistema

O Brasil é um carro em ruínas, que continua a descer a ladeira. Mas o condutor já não pode acelerar a marcha e o volante está em disputa. Além disso, alguns passageiros exigem mudar a rota e outros lhes dão ouvidos. Foi só o primeiro turno – há duas semanas cruciais à frente. Mas vale refletir sobre as eleições de ontem: tanto para agir nos próximos dias, quanto para captar que erros elas expõem e que possibilidades revelam.

O bolsonarismo foi o maior derrotado – tanto política como simbolicamente – e poderá pagar muito caro por isso, logo adiante. Em número de prefeituras e de votos, o triunfo é da direita conservadora e fisiológica. Segundo estes mesmos critérios, os partidos progressistas mantiveram-se no mesmo patamar da grave derrota de 2016. Pagam o preço da falta de projetos, da incapacidade de dialogar com os dramas da maioria e de suas divisões internas. Mas há uma novidade relevante. Surgiu, em várias capitais, uma esquerda capaz de reencantar o eleitorado; de olhar para o futuro em vez de voltar-se melancólica para o passado perdido; em alguns casos, de apontar um horizonte pós-capitalista. Aparece de novo, talvez pela primeira vez desde 2013, espaço para desejar o futuro. A seguir, quatro breves hipóteses sobre o que pode ser um início de virada.

1. Batido, Bolsonaro olha no espelho e vê Sarney:

A esta altura, os fracassos principais do presidente já estão falados e repetidos. Seus candidatos em São Paulo e Rio desidrataram e, a certa altura, tentaram dissociar-se de sua imagem, que lhes fazia perder votos em grande quantidade. Das 27 capitais, ele só tem chances de emplacar um aliado próximo em Belém e Fortaleza. No Rio, suas chances, embora estatisticamente perdurem, são ínfimas. Seu filho Carlos Bolsonaro perdeu, para a Câmara carioca, 33% dos votos que havia obtido há quatro anos. Sua ex-esposa Rogéria, que tentou a carreira política confiando herdar parte de seu prestígio, reduziu-se a pouco mais de 2 mil sufrágios, ficando em 266ª lugar. Seu apoio não bastou para sequer para eleger, à vereança de Angra dos Reis, a “Wal do Açaí” (ou “Wal Bolsonaro”) – em favor de quem ele, pateticamente, pediu votos em locução nacional.

A súbita incapacidade de Jair Bolsonaro para puxar votos é um fenômeno a ser melhor estudado, inclusive porque seus índices de popularidade (ainda?) caíram pouco. Talvez esteja relacionada com a decepção do eleitorado, ao perceber que seu discurso “antissistema” era tão falso quanto as “notícias” que ele se compraz em difundir.

Mas, seja qual for o motivo, o fracasso é grave – porque duplo. Bolsonaro inferiorizou-se claramente na queda de braço que trava com o Centrão. Os partidos fisiológicos apoiam o presidente e se tornaram essenciais para sua sustentação política. Mas já vinham exigindo “concessões” (cargos e verbas para emendas parlamentares) cada vez maiores para continuar a fazê-lo. O que fará o capitão se, vitoriosos nas urnas, estes partidos elevarem o preço de seu “apoio”? Romperá com eles ou cederá a sua chantagem? Na primeira hipótese, ficará desguarnecido no Legislativo, num período em o poder econômico exige dele mais contrarreformas. Na segunda, verá multiplicaram-se os sinais públicos de que cede ao fisiologismo da “velha política” e perderá o fator mais estratégico de seu apoio popular.

Será instrutivo e divertido acompanhar, nas próximas semanas e meses, estes trâmites. Hipótese possível: o Centrão avançará lenta mais consistentemente, arrancando concessões cada vez maiores mas evitando desgastar em demasia o capitão, de cujo governo depende. Nesse caso, a presidência se parecerá, aos poucos, com a de José Sarney. Mas se o sentirem demasiado fraco, e se enxergarem que há uma alternativa segura, os partidos fisiológicos abandonarão Bolsonaro à própria sorte – exatamente como fizeram com Dilma Rousseff.

2. Num país sem projeto, o Centrão é rei:

Que ideias mobilizadoras defende o Centrão? Quem líder do bloco é capaz de empolgar a sociedade? Embora seja muito difícil de responder a estas perguntas, algo estranho ocorreu no domingo. O grupo de dez partidos fisiológicos (Progressistas, PSD, PL, PTB, Republicanos, PSC, Solidariedade, Avante, Patriota e Pros) que melhor expressa o esvaziamento da política foi o maior vitorioso. O PSD, de Gilberto Kassab, passou de 8,1 para 10,6 milhões de votos. O PP, que já foi comandado por Paulo Maluf, de 5,7 para 7,5 milhões. O Republicanos, de 3,9 milhões para 5,1 milhões.

Embora não integrem mais o Centrão oficialmente, outros partidos conservadores deram-se bem. Destaca-se entre eles o DEM, que passou de 5,1 para 8,3 milhões votos. E embora tenham perdido apoio, o MDB, com 10,9 milhões e o PSDB, como 10,7 milhões, mantiveram-se como partidos mais sufragados. Todos eles demonstraram, há apenas dois anos, incapacidade completa de conquistar o eleitorado. Os tucanos, por exemplo, que começaram a última disputa eleitoral (em que concorreram com Geraldo Alckmin) com mais recursos, mais tempo de TV e mais apoio empresarial que qualquer outro partido, terminaram com menos de 5% dos votos. Por que esta mudança, agora?

É cedo para uma avaliação definitiva. Mas vão duas hipóteses. A mais importante: ao declínio do bolsonarismo não corresponderam uma esquerda ou centro-esquerda capazes de apresentar um projeto de país. Capturados pelas institucionalidade e pelo cálculo eleitoral primário, os chamados “partidos progressistas” perderam há muito a capacidade de enxergar o país e, ainda mais, de formular alternativas. Nestas eleições foram incapazes, além disso, até mesmo de costurar alianças entre si mesmos. O caso do Rio é emblemático e seria também o de São Paulo, não fosse a súbita arrancada de Boulos, que será tratada a seguir.

Quem vive voltado para o passado dificilmente consegue superar seus rancores. Nos últimos dois anos, Lula e Ciro Gomes por certo perderam muito mais tempo remoendo suas diferenças sobre as causas do desastre de 2018 que pensando em meios de mobilizar a sociedade para afastar o pesadelo em que estamos mergulhados.

Por isso, o Centrão e seus iguais triunfaram. Tiraram proveito também, é claro, do caráter tacanho das eleições municipais, quando não há fatores que as politizem nacionalmente (como ocorreu, em 1988 e 1992 por exemplo). Sem que esteja em debate uma visão de país, predomina nos interiores – mas também nas relações de trocas de favor que os candidatos a prefeito e vereador estabelecem com seus exércitos de “cabos eleitorais”, nas capitais – a lógica dos pequenos poderes.

Se ganharmos nesse distrito, eu serei o subprefeito, e você nomeará o chefe dos fiscais.

Preciso de dinheiro, para que a gente mantenha a prefeitura e renove seu contrato de coleta de lixo.

O bolsonarismo duro, que fingia confrontar o sistema político, refluiu. A esquerda não preencheu o espaço. Que poderia triunfar, em plano nacional, além do poder dos caciques locais?

3. A emergência de uma esquerda pós-Nova República

A eleição de Guilherme Boulos é certamente o fenômeno singular mais destacado das eleições de 2020. Mas que levou o candidato do PSOL a passar dos minguados 1,21%, que obteve nas eleições presidenciais em São Paulo, há apenas dois anos (no plano nacional, ele não chegou nem à metade disso, perdendo até de candidatos folclóricos, como o Cabo Daciolo), aos 20,24% de agora – quase dezessete vezes mais? Que isso projeta, para as próximas disputas eleitorais no Brasil?

A hipótese, aqui, é mais ousada. É possível que esteja começando a se configurar, no Brasil, uma nova esquerda. Ela é pós-Nova República – portanto, também, pós-hegemonia do PT. Sua expressão principal, nas eleições de domingo, é Boulos. Mas ela se expressa também em fenômenos pouco previsíveis, há poucos meses. Edmilson Rodrigues, o urbanista que quer devolver a Belém o rio Guamá-Amazonas, sequestrado pelas elites, teve 34,22% dos votos em Belém (mais de onze pontos acima do segundo colocado). Em Recife, estão no segundo turno dois candidatos muito à esquerda do cenário político brasileiro (João Campos e Marília Arraes). Em Fortaleza, o favoritismo inicial do capitão Wagner, candidato de Bolsonaro, foi vencido no primeiro turno por Sarto Nogueira (PDT) e deverá ser confirmado na eleição final. Em Aracaju, que parece esquecida pela mídia tradicional e mesmo pelas publicações alternativas, Edvaldo Nogueira (um marxista que faz um governo popular e concorre à reeleição pelo PDT) obteve 44,67% no domingo. Em Vitória, o ex-prefeito João Coser (PT) irá à segunda volta depois de obter 22%. Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila fará o mesmo, a partir de um patamar superior: 29%.

Em nenhuma destas sete capitais a vitória da esquerda é certa. Mas, em seu conjunto, há fenômenos novos. A esquerda já não surge como fantasma melancólico do lulismo – e sim como alternativa a um capitalismo em crise, num país recolonizado. Boulos, cuja campanha está se transformando num novo paradigma, é o grande exemplo. Ações extremamente criativas na internet, articuladas por uma rede de colaboradores voluntários e sempre confrontando os truques baixos das fake news, conseguiram captar e transmitir a figura de um personagem político transformado. Ele dribla a polarização despolitizante que marcou a esquerda no período de preparação e execução do golpe de 2016. Ele sabe que o futuro não está em regressar a um projeto (o lulismo) que chegou a seu limite e não foi capaz de dar o salto adiante.

4. O caminho da pluralidade inovadora

Saudar a emergência de uma nova esquerda não significa, é óbvio, jogar no lixo o passado. É preciso operar uma transição. Boulos e Manuela, por exemplo, expressam o novo. Outros fenômenos fazem o mesmo. Curitiba, Vitória e Belém elegeram, pela primeira vez, candidatas negras. Em Aracaju, Linda Brasil é a primeira transexual eleita – e também a mais votada para a Câmara. Mas tudo isso ainda é pouco. O gráfico abaixo mostra: mesmo com todas as mudanças gente como Boulos e o PSOL ainda representa, materialmente, pouco. O PT caiu (6,8 milhões de votos) a pouco mais de um sexto do consórcio MDB+PSDB+PSD+DEM+PP (46,5 milhões). O PDT tem ainda menos: 5,3 milhões. Apesar disso, estes dois partidos têm 3,5 vezes mais apoio popular que o PSOL (o PT) e 3,13 vezes mais (o PDT).

Que fazer, diante deste cenário heterogêneo e contraditório? Negar a necessidade de uma transição ao pós-lulismo? Pensar, ao contrário, que ela pode ser feita desprezando a experiência anterior?

As duas alternativas parecem irrealistas e pouco producentes. O primeiro turno das eleições de 2020 sugere outro caminho. Ele indica a chance de uma esquerda plural. Nela, o PT abandonaria sua conhecida pretensão hegemonista. Mas a enorme experiência petista e lulista no diálogo com as maiorias seria aproveitada, valorizada e incorporada… Surgiria uma construção de alternativas em que o desenho que vigora há ao menos 30 anos – a centralidade absoluta do PT – seria substituído por uma Esquerda Plural. Nela, teriam voz não apenas os partidos, mas a vasta tradição brasileira de movimentos sociais autônomos.

Será possível?

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6 comentários para "As chances de uma esquerda plural"

  1. Eduardo disse:

    Ótimo texto! Um outro fenômeno que já vi ser comentado aqui no Outras Palavras mas que ficou de fora desse texto é o dos mandatos coletivos. Na minha cidade (Santos) foram pelo menos duas campanhas de mandatos coletivos que receberam uma votação significativa, ainda que, salvo engano, não tenham conseguido se eleger. Na mesma linha do que pensa o texto, justamente uma pelo PSOL e outra pelo PT, ambas apontando para esse momento novo da esquerda.

  2. José Mário Ferraz disse:

    Sendo a qualidade de vida de cada um ditada pela política, apenas por ela e de nada mais, uma política tão absurda que cria leis proibindo punição de ladrões clama pela necessidade de tomar nas mãos a tarefa da mudança em vez de esperar pelo convencimento de tal necessidade que o tempo se encarrega de impor pela experiência por ser demasiadamente lento o processo. Veja-se por exemplo o que acontece com a religião, atraso mental tão espetacular que queimou legalmente na fogueira quem era suspeito de não adorar deus, mas que não obstante tamanha necessidade de mudança, ainda tem força para impor ensino religioso e trazer de volta o estado teocrático medieval. Mas, em primeiríssimo plano deve-se lutar contra o analfabetismo político. Só um povo feito de gente em vez de torcedores, carnavalescos, ladrões, futucadores de telefone e religiosos é capaz da lucidez necessária para promover mudanças socialmente sadias.

  3. José Vanin Martins disse:

    Boa colocação. Vou completar 80 anos, gostaria de ver realizada a minha esperança de encontrar um candidato que realmente lutasse para acabar 50% pelo meno
    s a desigualdade social. Já não se pode esperar que a consciência política floresça com o apoio das Igrejas. Também aqui é preciso que os cristão das diferentes denominações religiosas se unam para a busca da igualdade social, sonho do nosso único e verdadeiro guru: jesus cristo, o filho do homem!

  4. Joma disse:

    O Guilherme Boulos recorde-se em todos os momentos que a sua candidatura para o segundo turno da Prefeitura de São Paulo é direcionada para todos os paulistanos de todas as cores políticas. Vencer a eleição de Prefeito é governar para todo o Estado de São Paulo. Que a população paulistana seja conquistada pelos seus projetos humanistas, sociais e logísticos e, por conseguinte, vote em Guilherme Boulos para Prefeito de São Paulo!

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