Reflexões para a hora de botar o bloco na rua

Aberto e autogerido, carnaval de rua é vibrante rebeldia na cidade mercantilizada. Ocupa espaços públicos e esboça sonhos libertários. Em 2021, mais que nos amargar, talvez possamos aproveitar para recolher as lições das folias passadas…

Por Felipe Moreira, do BrCidades

Dizem que quanto pior o ano, melhor é o carnaval. Se isso é verdade, nosso próximo tem tudo pra ser um dos melhores de todos os tempos. Desde março de 2020 nos vemos vigilantes, catalisadas(os) por uma enxurrada de notícias que, mais do que ouvidas, são dilaceradamente vividas. Associamos a pandemia ao pandemônio, como nos disse a liderança dos entregadores antifascistas, Paulo Lima. Já chegamos ao poço, ao fundo do fundo do poço, ao alçapão do fundo do fundo do poço e, ao que parece, ainda não paramos de cavar. Onde encontraremos saídas?

Fortalecido nos quilombos urbanos, o carnaval sempre operou como uma catarse coletiva que problematiza a conjuntura do país a partir de um escape engajado, libertário e transgressor. A jornalista Denise Ribeiro diz que a única certeza do carnaval é que de alguma forma o clima social e político do país estará refletido na avenida. Sem carnaval em 2021 e com a covid-19 impondo uma ameaça à ocupação dos espaços públicos, que outras estratégias teremos para contestar e nos movimentarmos coletivamente de forma criativa e organizada? Se a universalização do acesso ao mundo digital ainda é um desafio nacional, quais são os nossos outros territórios democráticos de ação?

A sabedoria dos povos Acã nos ensina que, como o pássaro Sankofa, é preciso buscar elementos do passado para construirmos o futuro. Assim, te convido a pensar: o que você aprendeu com as folias que você já viveu?

No fundo de mim ecoa Dona Ivone Lara cantando que mesmo quando vejo espinhos / Não posso desanimar. Das minhas memórias das ruas de Salvador, ouço Margareth Menezes entoando que Apesar de tanto não / tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade. Dona de uma voz potente e de um sorriso que preenche o corpo, Margareth evoca a ancestralidade amefricana1 e reivindica ao som do Olodum: E Nas Cabeças / Enchei-se De Liberdade/ O Povo Negro Pede Igualdade.

Romper com as barreiras raciais a partir de uma práxis libertadora, diz Lélia Gonzalez, é imprescindível para a construção efetiva da nossa democracia. E isso impõe mudar o lugar que têm hoje as Marias, Mahins, Marielles, malês em nossa sociedade. Há muito que as mulheres negras reivindicam ocupar – e se manter – nos espaços, sejam eles institucionalizados ou não. É delas a potência de transformá-los, justamente porque compreendem com quais mecanismos o sistema oprime, nos ensina Patricia Hill Collins (2016).

A eleição de mulheres como Erika Hilton, Carolina Iara, Erica Malunguinho e Leci Brandão, por exemplo, são avanços valiosos, mas ainda não configuram uma realidade estrutural. Seja porque em 53% dos municípios brasileiros nenhuma mulher negra foi eleita em 2020 para ocupar um cargo na câmara municipal, ou porque há todo um sistema munido de tecnologias para condicioná-las a um lugar de subalternidade e de outridade.

A estrutura capitalista patriarcal, heteronormativa e branca ainda impõe muitas barreiras aos corpos tidos como dissidentes, e as cidades têm um papel central nessa organização. A lógica de captura e de mercantilização do cotidiano impõe uma vida muito comprimida à maioria da população brasileira que constrói, ama, vive e se transforma nas cidades.

Por isso, o carnaval de rua, gratuito, autogerido e livre é tão importante. Ele traz para o espaço público uma combinação poderosa de elementos culturais nascidos nos quilombos como o samba, a capoeira, as mitologias amefricanas, as sabedorias indígenas, etc que estão ancoradas no gosto pelo coletivo, pelo compartilhado e pela emancipação. Blocos protagonizados por mulheres negras, como o Ilu Oba de Min, são um exemplo disso.

Na catarse da folia brasileira, nossas cidades são temporariamente resignificadas.  Andamos como se o destino não importasse, nem a origem. É no atravessamento despretensioso e ritmado dos nossos corpos que, pouco a pouco, vamos desenhando outras cidades libertariamente possíveis. Munidas de nossas fantasias e de nosso imaginário, a diversidade dos ritmos amefricanos dão a tônica. Muito em breve, entoaremos nossos desejos acima pela ladeira do Curuzu, reverenciaremos a coisa mais linda de se ver, que é o Ilê Aiyê, voaremos retados no tempo do frevo, pisaremos forte contra os retrocessos ao som do maracatu, sambaremos pros Orixás, nos libertaremos nos batuques para Oyá.

O meu lugar/ É cercado de luta e suor/ Esperança num mundo melhor.

Axé!

1 Termo usado por Lélia Gonzalez

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