O repórter foi ao inferno – e voltou…

Renato Pompeu, morto em 2014. Para ele, internamento era péssimo na imensa maioria dos casos -- mas não em todos

Renato Pompeu, morto em 2014. Para ele, internamento para tratar distúrbios psíquicos era péssimo na imensa maioria dos casos — mas não em todos

Torturado, vítima de delírios esquizofrênicos, Renato Pompeu encontrou alívio na psicanálise e no isolamento. Sua polêmica com a luta antimanicomial pode ser útil, no 15º aniversário da Reforma Psiquiátrica?

Por Lígia Morais


NESTA SÉRIE, DA MESMA AUTORA:

> Quinze anos de Reforma Psiquiática (I)
Em 6 de abril de 2001, país começava a desativar seus tristes manicômios. Ao resgatar histórias de pacientes com transtornos mentais, nossas matérias ensaiam um balanço desta transformação

> Como fechamos nossos hospícios monstruosos
No 15º aniversário da Reforma Manicomial, um retrospecto da luta que eliminou alguns dos hospitais psiquiátricos mais desumanos do mundo. E um alerta: esta conquista está ameaçada

“O sol estava azul sobre os cabelos cor-de-rosa do vereador fulano, que parecia uma galinha grasnindo, toda molhada com as penas espevitadas, dizendo que era inconcebível que a Companhia Municipal de Transportes Coletivos fosse aumentar as passagens de bonde e ônibus”. Era por medo de a imaginação desandar que Renato Pompeu não se atrevia a fazer entrevistas ou ser repórter. Para um jornalista, essa confusão entre os delírios e o que foi realmente visto e ouvido o levaria à demissão. Por isso Renato preferia trabalhar como redator interno – foi preparador, copidesque, redator final e editor. “Eu tinha uma garantia contra o delírio: o texto imutável escrito por outra pessoa, fosse material de arquivo, reportagem ou livro”, relatou em seu ensaio “Memórias da loucura”, de 1983.

Anos antes, na capa vermelha da primeira edição da revista Veja e leia, no dia 11 de setembro de 1968, anunciava-se “O grande duelo no mundo comunista”. Nas bancas, eram 700 mil edições que estampavam a foice e o martelo, e nas páginas internas o nome de Renato Pompeu como um dos editores assistentes. Já trabalhara na Folha da Manhã e fizera parte da equipe que fundou o Jornal da Tarde. Em 1968, ao lado de Victor Civita e Mino Carta, ajudou a criar uma das maiores revista do Brasil – publicação que futuramente lhe renderia um Prêmio Esso de Jornalismo.

Renato Ribeiro Pompeu lia Marx e Lênin. Não militou em movimentos de resistência à ditadura civil-militar, pois dizia não poder assumir responsabilidades políticas por causa dos delírios que sempre teve. Foi por textos que escreveu e por ter conhecidos procurados pelos militares que, entre 1961 e 1971, foi preso oito vezes. Em uma dessas, numa semana em 1970, aos 29 anos, foi torturado pela primeira vez. “Sofri espancamento com cabo de vassoura e choque nos dedos. Saí com mania de perseguição e me deteriorei até ter alucinações”, Renato comenta em 2009, numa entrevista à Folha. Via carros e pessoas o seguindo. Providenciou ele mesmo sua internação psiquiátrica.

TEXTO-MEIO

Esquizofrênico autodeclarado, de janeiro de 1974 até agosto de 1975 ficou internado em comunidades terapêuticas – primeiro no Instituto de Psiquiatria Comunitária, então no Itaim-Bibi em São Paulo, e depois no Hospital Espírita de Marília. Nas memórias, o jornalista denuncia a questão dos loucos no Brasil como um caso de polícia: “Os loucos são usados como mercadoria para dar lucro às empresas de tratamento psiquiátrico e às fábricas de remédios”. Sua posição combativa é o que faz o movimento de luta antimanicomial se aproximar de Renato, a princípio. “Aplicam-se choques indiscriminadamente, sem anestesia e em doses excessivas”, expõe o jornalista. Os hospícios já não podiam mais existir.

Pompeu sentia a loucura como uma mutilação. Suas produções literárias e resenhas não foram produto dela, mas resultado do seu tratamento. Sentia sua criatividade sufocada, até internar-se e iniciar terapia contínua. O tratamento lhe fez bem. “No duro mesmo, não posso mais considerar-me louco – e sim ex-louco”, revela em seu ensaio. Terminou de escrever em 1975 o primeiro romance, Quatro-olhos, ficção que cuida de memórias e ausências, no gancho de um escritor que perdera os originais de sua obra prima. O primeiro capítulo, Renato havia escrito à mão num só dia em 1968. Percebera depois que as pessoas não gostavam de conversar com um delirante, mas que têm prazer em ler delírios escritos ou assistir a cenas de delírios em filmes ou na televisão.

Na década de 1980, com ajuda de terapia e pela redução de sua equipe jornalística, Renato passou a trabalhar como repórter. “Notemos que a minha profissão, a de jornalista, é propícia ao enlouquecimento”, escreveu nas memórias, quando constatou que não era o único inclinado às falsificações da realidade. Antes apegado ao texto já redigido, não tinha que lidar com o problema da omissão de informações. Foi produzindo reportagens que pôde comprovar a manipulação a que tantos de seus colegas de profissão se sujeitavam, com passe livre dado pelas próprias empresas jornalísticas. Gostava de questionar as incoerências cometidas. Seu primor pela precisão levou Mino Carta a lhe compor os versos: “Renato Pompeu dos Ribeiros, senhor do texto conciso; Escreve ao deus dos pauteiros, pede um repórter preciso”.

O contato com a luta antimanicomial diminui à medida que Pompeu dá declarações contrárias a uma questão chave do movimento. Ele via a internação, em condições adequadas, como uma necessidade – “Repito: em condições adequadas, que não é o caso na esmagadora maioria dos casos no chamado mundo ocidental”, escreveu. Deixou claro, em sua teoria, que o louco não deve ser internado contra a sua vontade, mas o isolamento por decisão própria pode contribuir no tratamento da doença mental. “Quanto mais experiências o louco tiver das loucuras dos outros, maiores possibilidades terá ele de, por comparação, tomar consciência de sua própria loucura”, diz no ensaio. Na entrevista à Folha, comenta que o internamento foi a melhor coisa que lhe ocorreu, depois da psicanálise. Os militantes da luta antimanicomial se afastam por serem contra as internações prolongadas.

Renato revê algumas de suas críticas ao movimento em novembro de 2011. Publica em seu blog que estava ele próprio mal informado. Lembra que não se internou em hospitais psiquiátricos clássicos, mas em locais mais avançados – que lhe pareciam até melhores do que os modelos de atenção psicossocial mais recentes. Onde esteve, os médicos e os outros profissionais de saúde somente se distinguiam dos pacientes por terem acesso aos medicamentos. Tinham todos direitos e deveres, o que Renato não via acontecer no modelo atual. “Os pacientes ricos continuam tendo acesso a comunidades terapêuticas adequadas; a maioria dos pacientes pobres continua não recebendo uma boa assistência”, escreveu.

As publicações em seu blog continuaram até 8 de fevereiro de 2014. Renato morreu no dia seguinte, aos 72 anos, após uma parada cardíaca. O jornal Folha de S.Paulo registrou no obituário o falecimento de “Renato Pompeu de Toledo”, mas o “de Toledo” nunca existira. Foi escrito errado o sobrenome daquele jornalista que tanto valorizava a precisão. Seis anos antes, Pompeu já observara que nos jornais atuais saem mais erros do que saíam nas décadas passadas. Em entrevista ao Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, lembrara que antes os textos dos repórteres passavam pelo copidesque, pelo chefe da seção, pelo secretário e por uma dupla de revisores. “Então saía um erro por mês. Hoje são dezenas por dia. Não há mais a preocupação com o texto que havia na minha geração; a preocupação é dar a informação direta”, comentara.

O jornalista publicou mais de vinte obras, entre literárias e de não-ficção. Também ajudou a organizar a Enciclopédia Larrouse Cultural, colaborou com o Diário do Comércio, o Diário de S. Paulo, a revista Carta Capital. Desde 1997, escrevia para a Caros Amigos, cuja redação lembrou uma das muitas tiradas do colega, que já tinha mais de 50 anos de jornalismo: “Saiba você, que leu alguma das minhas reportagens dos tempos de Veja ou de Folha ou JT, inclusive premiadas, que pode ter lido uma reportagem feita por um louco”.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Lígia Morais

Lígia Morais é jornalista formada pela Unesp de Bauru. Produz conteúdo para o site feminista Frida Diria e se interessa em escrever sobre a realidade política da América Latina.