Sistematizando a nova rebeldia

Toni Negri e Michael Hardt analisam como as novas manifestações políticas querem superar nossas concepções de trabalho, propriedade e representatividade

Começamos a semana na revista digital Outras Palavras com um texto bastante significativo: traduzimos o prefácio à edição em castelhano do novo livro dos intelectuais Toni Negri e Michael Hardt, intitulado Commonwealth — El proyecto de una revolución del común. A dupla composta pelo sociólogo italiano e pelo filósofo norte-americano ficou bastante conhecida após a publicação de Império, em 2000. Aqui é possível ter acesso ao conteúdo de uma conferência que ambos ministraram na Espanha, semana passada, a pedido da Universidad Nómada, sobre o tema de sua mais recente obra.

No texto em questão, Negri e Hardt analisam as recentes — e as nem tão recentes — manifestações e movimentos políticos que vem sacudindo o mundo, com destaque para suas expressões ibéricas e latino-americanas, que começaram a tomar corpo a partir do levante zapatista em Chiapas, México. Desde aquele longínquo 1994, muita coisa aconteceu. Por exemplo, em Cochabamba, indígenas e camponeses conseguiram desprivatizar os serviços de distribuição de água; na Argentina, dois presidentes foram derrubados pelos panelaços. Muitos protestos se seguiram, governos “progressistas” foram eleitos em quase todos os países da América do Sul, novas forças políticas se consolidaram até que, em 2011, diante de uma crise econômica arrasadora, jovens espanhóis começaram a ocupar a praça Puerta del Sol, em Madri, exigindo democracia real já.

Como muita gente ao redor do mundo, Negri e Hardt decidiram começar a pensar as mobilizações políticas contemporâneas e chegaram à conclusão de que todas elas convergem em três pontos, ao negar os atuais paradigmas republicanos de trabalho, propriedade e representação. A ideia é simples.

Nosso sistema legal vincula o acesso à cidadania ao acesso, antes, à renda. Goza de plenos direitos quem trabalha e produz para a sociedade. O trabalho permite pagar impostos e, depois, em teoria, gozar de seus serviços: educação, saúde, segurança etc. Porém, os novos imperativos econômicos precarizaram as condições trabalhistas. Está cada vez mais difícil conseguir um emprego com carteira assinada. É cada vez maior o exército de trabalhadores na informalidade, sem direito a férias, décimoterceiro, seguridade social e uma longa lista de benefícios perdidos. Diante dessa realidade, Negri e Hardt perguntam: como pode o sistema pretender oferecer cidadania apenas aos cidadãos devidamente assalariados se não cria condições para que o povo — sobretudo os mais jovens — consiga galgar posições mínimas de conforto laboral?

Depois, a propriedade: sem dúvida, uma das principais — senão a principal — bases de sustentação do sistema capitalista contemporâneo. A propriedade lança seus tentáculos sobre tudo: remédios, tecnologia, conhecimento, cultura. É plenamente justificada dentro da racionalidade econômica e, em certo aspecto, um dos motores do progresso da civilização como a conhecemos. No entanto, é cada vez maior o número de seres humanos que se dedica a outras formas de produção e distribuição de bens, serviços e conteúdos, principalmente no terreno da cultura. Iniciativas como o Creative Commons e o Software Livre, para ficar em dois exemplos, florescem com o auxílio da internet. Os medicamentos genéricos, tema que trataremos em breve em nossa revista digital, também ganham adeptos ao redor do mundo. Diante das pressões pela colaboração e o compartilhamento — e dos vícios financistas do sistema, que insiste em lucrar em cima da especulação —, Negri e Hardt escrevem: “a propriedade privada está se convertendo não apenas em parasita, mas também em obstáculo para a produção e o bem-estar sociais”.

A representação política, finalmente, talvez seja o aspecto mais clarividente das recentes mobilizações políticas. E a última crise econômica na Europa e Estados Unidos escancarou a distância que existe — e sempre existiu — entre a classe política profissional e os anseios da população. O exemplo grego é paradigmático. Os bancos provocaram a recessão, logo, os cidadãos pagam as contas: demissões, redução de salários, cortes nos investimentos sociais, nas aposentadorias etc. Medidas vêm sendo tomadas por governos em óbvia desobediência a seus mandatos populares. Em Chiapas, os zapatistas propuseram a construção de um governo que “mande obedecendo”. Não é o que temos visto. Logo, a proposta de Negri e Hardt é romper com a falta de representação e com as falsas promessas de representação existentes em nossos sistema jurídico e simbólico.

Certo, mas, e depois? Eis o convite para construir o novo e pensar alternativas. Os autores acreditam que protestar é só o começo. O verdadeiro desafio, que se impõe aos indignados a cada segundo, é manter a rebeldia e transformá-la em formas alternativas de organização social. Assim, a revolta pode perdurar e desabrochar naquilo que, por enquanto, é apenas um sentimento entalado na garganta dos que saem de casa, ocupam praças e exigem mais da vida. —@tadeubreda

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3 comentários para "Sistematizando a nova rebeldia"

  1. O que estamos esperando…? As ruas são os destinos e a Praça a nossa morada. A paciência com a Corrupção e a Especulação vai chegando ao fim.
    Faremos três Marchas contra a Corrupção em Goiânia, nos dias: 12/10; 15/10 e 24/10. Apenas começamos…

  2. Nick Stones disse:

    Duvido que o padrão capitalista dê lugar a algo alternativo e universal. Logo, logo os detentores da riqueza encontrarão um “inimigo” e terão motivo para mover seus exércitos. A máquina de moer carne humana nunca será desligada.

  3. TMARTA disse:

    NÃO PRECISA MUITA COISA, É SÓ ESPERAR PRA VER O CIRCO PEGAR FOGO, INVADIDO PELAS ÁGUAS DE MARÇO! A PROPOSTA É BOTAR PRA FORA A VIDA ENTALADA NO PEITO DA GENTE!

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