Para passear pelo universo criativo de Margurite Duras

UNSPECIFIED - 1955:  Marguerite Duras, French writer, in 1955.  (Photo by Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images)

Marguerite Duras em 1955

Curso percorre produção de escritora, cineasta e dramaturga que caminhou pelo feminismo, loucura e amor, sempre encantada pelo possível surgimento de nova humanidade. Membros de “Outros Quinhentos” têm 50% de desconto

Com Maurício Ayer

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Marguerite Duras e seus territórios criativos: literatura, teatro e cinema

De 30 de novembro a 3 de dezembro – 2ª a 5ª feiras – das 19h30 às 22h30

Inscrições até 30 de novembro, aqui

R$ 380

Desconto de 50% para participantes de Outros Quinhentos e alunos da FFLCH/USP

Como compreender a obra de uma artista que transitou entre literatura, teatro, cinema e jornalismo, tratando, desde a primeira metade do século passado, de temas cada vez mais contemporâneos? Ministrado por Maurício Ayer, doutor em Literatura Francesa, um curso de quatro sessões procurará pistas para responder a esta questão. Para fazê-lo, apresentará quatro percursos pelo universo de Marguerite Duras, autora que produziu literatura, teatro, cinema, peças jornalísticas e intervenções de rádio e TV, criando uma densa malha de interconexões entre esses meios. Romances cinematográficos feitos de vozes teatrais, filmes literários com espaço e corpo de teatro numa polifônica temporalidade musical, etc. Este modus operandi criativo poderia ser chamada de Poética da Porosidade – produzida a partir do reconhecimento de que tudo se comunica com tudo o tempo todo.

Estrangeira em sua própria língua, nômade, selvagem, feroz, a condição existencial de Marguerite Duras perpassa os temas de suas obras: a escrita de mulher, a incomunicabilidade, o incesto e o adultério, a depossessão/devassidão sexual, o crime de humanidade, o crime em massa, o crime singular, a loucura, o fim do mundo, a destruição da linguagem e do conhecimento, o judeu e o holocausto, o escrever, a possibilidade do surgimento de uma nova humanidade, o amor.

Marguerite Duras é, pois, duplamente contemporânea: de um lado, pelas sínteses que realiza da experiência contemporânea de um mundo que caminha à sua autodestruição, de extrema violência e de desejo intenso e múltiplo; de outro, pela desconstrução e reconfiguração da linguagem a cada obra pela interconexão de todos os meios disponíveis – muito antes dos gadgets, da internet e dos multimeios.

O curso pretende apresentar os gestos criativos fundamentais de Marguerite Duras em cada um de seus territórios criativos – território do escrever (texto), território da presença (teatro), território do rastro (cinema) e território exterior (as mídias). As transformações, incorporações e configurações em cada território serão mostradas na forma de percursos que envolverão leitura/visão/audição e análise de livros, peças, filmes e outras produções da autora.

Programa do curso

> Percurso 1 – Poética da porosidade (3 horas)

Apresentação do conceito norteador do curso, com exemplos de literatura, teatro, cinema e outros meios. Procuraremos delimitar as matrizes de cada território e identificar alguns modos como eles se interpenetram: temporalidade, espacialidade, corpo, voz, escrever. Abordaremos também os conceitos de “sombra interna”, “caverna escura” e “música”, constitutivos do fazer criativo de Marguerite Duras. A experiência de India Song, descrito como “texto teatro filme”, escrito que pode ser lido como romance, peça de teatro ou roteiro de cinema.

Obras visitadas: India Song, Hiroshima meu amor, Moderato Cantabile, O marinheiro de Gibraltar, Emily L., Escrever, O homem sentado no corredor e Marguerite telle qu’en elle-même, Outside, O verão de 80, Roma, Os olhos verdes (Cahiers du Cinéma)

Percurso 2 – Território do escrever: livros (3 horas)

Um percurso pelos livros de Marguerite Duras, a começar pelos primeiros romances, em que o realismo e o fantástico se interpenetram, passando pela escritura do desejo, da loucura e do fim do mundo, até os livros de autoficção deliberada, com uma fusão cada vez mais múltipla e explícita dos territórios de linguagem. A construção cinematográfica das cenas nos romances, a simultaneidade musical, a voz como teatro da palavra.

Obras visitadas: Barragem contra o Pacífico, O marinheiro de Gibraltar, Moderato Cantabile, O deslumbramento de Lol V. Stein, Dez horas e meia da noite no verão, O Vice-cônsul, O amante, Chuva de verão

Percurso 3 – Território da presença: teatro (3 horas)

Já projetada em contos/novelas dialogados, a produção dramatúrgica de Marguerite Duras se funda na presença do corpo, em particular no estar diante do autor de um “crime” – potencial ou realizado: o assassinato, o esquartejamento, o abandono, o incesto, o adultério, a loucura. O recurso do “grito interno”, a encenação da leitura, as desdobradas “unidades de tempo e espaço” em Duras.

Obras visitadas: Le Square, Les eaux et forêts, La Musica 1 e 2, Le théâtre de l’amante anglaise, Détruire, dit-elle, Savannah Bay, Agatha, A doença da morte, O homem sentado no corredor

Percurso 4 – Território do rastro: cinema (3 horas)

Após o roteiro de Hiroshima meu amor, Marguerite Duras escreveu e dirigiu 18 filmes autorais, cuja radicalidade até hoje aponta caminhos possíveis do cinema. O registro de um instante irrepetível – rastro do corpo, de uma história, de um amor – participa da poética de muitos destes filmes, que mantêm presente uma dimensão documental, mesmo em filmes de ficção. A marca mais singular de seu cinema é a radical dissociação e defasagem entre os vários elementos que compõem a linguagem fílmica: luz, corpos, vozes, sons etc., cada qual tem um desenvolvimento temporal próprio, como numa complexa orquestração. Ao ponto de alguns filmes serem descritos como dois ao mesmo tempo: o filme das imagens e o filme das vozes.

Obras visitadas: Hiroshima meu amor, Détruire, dit-elle, Nathalie Granger, India Song, Son nom de Venise dans Calcutta désert, O caminhão, As mãos negativas, Agatha ou as leituras ilimitadas, Le Navire Night, O homem atlântico (filme) e As crianças

Sobre Maurício Ayer

Maurício Ayer atualmente realiza pós-doutorado em Literatura Francesa na FFLCH/USP, é doutor na área por esta mesma universidade (bolsas da Capes e CNPq), com especialização na Université de Paris 8 (bolsa Région Île de France), e bacharelado em Composição e Regência pela FASM. Dedica-se ao estudo da obra de Marguerite Duras desde 2002. Sua tese de doutorado aborda os cruzamentos entre música, literatura, teatro e cinema na obra durassiana, publicada no livro Música meu amor: orquestrações de literatura, teatro e cinema em Marguerite Duras (2014, Publisher Brasil). É organizador (com Maria Cristina Kuntz) do livro Olhares sobre Marguerite Duras (2014, Publisher Brasil).

Membro da Société Internationale Marguerite Duras, apresentou trabalhos nos colóquios internacionais Marguerite Duras de Göteborg, Suécia (2007), Montréal, Canadá (2012) e São Paulo (2014). Foi membro da Comissão Organizador deste último, que envolveu palestras de debates na USP e no Mackenzie, e mostra de cinema na Cinemateca Brasileira e Cinusp, da qual foi o curador responsável.

Em 2009, foi curador da mais completa mostra de cinema dedicada à obra de Duras organizada no Brasil (Marguerite Duras: escrever imagens), com 16 filmes da autora, com temporadas no Rio de Janeiro (Caixa Cultural), Porto Alegre, Salvador , Belo Horizonte (Palácio das Artes) e São Paulo (CineSesc). Em 2007, organizou juntamente com Dominique Fingermann (Campo Lacaniano) jornada sobre Marguerite Duras, e em 2010 ministrou curso sobre o cinema de Duras na Escola Freudiana de Belo Horizonte.

Além de pesquisador e professor na área de literatura francesa, Maurício Ayer é escritor, tradutor, editor e consultor em cachaça, entre outras atividades. Coautor (com Camila Frésca) de Música nas Montanhas: 40 anos do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão (2010), entre outras publicações.

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