Para entender o encontro dos BRICS

Países emergentes têm mais poder que nunca, mas enfrentam uma contra-ofensiva dos mais ricos. Saberão reagir?

Os chefes de governo do Brasil, Rússia Índia, China e África do Sul encontram-se a partir de hoje em Nova Déli, para a 4ª Cúpula dos BRICS — uma série de reuniões importante para testar a capacidade de articulação do grupo. A pauta é ambiciosa: inclui a possível criação de um banco comum de desenvolvimento, a substituição gradual do dólar, no comércio entre os cinco países, segurança energética, articulação das bolsas de valores e mesmo temas geopolíticos, como a situação do Oriente Médio. O encontro (na foto, a cúpula passada, na China) estende-se pelos próximos três dias e ocorre num momento delicado.

Os BRICS mantiveram-se relativamente imunes, desde 2008, à grande crise financeira e econômica que atingiu o centro do sistema. Juntos, já reúnem 45% da população mundial e 25% do PIB do planeta. Mas precisam encontrar soluções para dois problemas graves. A redução do consumo e os sinais de protecionismo, na Europa e América do Norte, podem afetar mais intensamente suas economias: há semanas, o primeiro-ministro chinês anunciou que o crescimento econômico do país cairá dos atuais 10% ao ano para cerca de 7,5%. Além disso, norte-americanos e europeus — especialmente estes — adotaram nos últimos meses uma política de emissão monetária que a presidente Dilma chamou de “tsunami” e que poderá ter efeitos globais.

Juntos, o Banco Central Europeu (BCE) e seu correlato norte-americano (o FED) emitiram cerca de 3 trilhões de dólares, desde novembro. É um volume de recursos equivalente ao que a China acumulou em reservas internacionais, em anos de superávits comerciais. Os recursos foram destinados a empréstimos aos grandes bancos. Por enquanto, estão retidos, como defesa para fazer frente à eventual quebra de uma das instituições financeiras afetadas pela crise. Mas é possível que, afastado o risco principal, estas somas imensas (e muito baratas) sejam utilizadas para valorização financeira ou compra de ativos (empresas, bancos, propriedades) na periferia.

A ameaça do “tsunami” revela que, apesar do avanço dos BRICS, persistem hierarquias históricas. O FED e o BCE têm, por exemplo, condições de emitir moeda de circulação internacional muito superiores às da China — embora a situação financeira desta seja muito mais saudável.

Os BRICS terão condições, vontade e sabedoria política para lidar com a situação? É uma pergunta que ainda não tem resposta, num tema central, que vale a pena acompanhar atentamente nos próximos meses. Abaixo, alguns textos para entender melhor a reunião que começa hoje em Nova Déli.

> No Financial Times (7/3), as especulações sobre a criação de um banco de investimentos comum, e a possível substituição gradual do dólar no bloco.

> No Estado de S.Paulo (5/3), breve balanço sobre as emissões maciças de euros e dólares, nos últimos meses.

> Na Agência Brasil (28/3), a agenda da presidente Dilma em Nova Déli.

> Na Agência Reuters (28/3), as expectativas imediatas sobre a reunião de hoje

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