"O problema da USP não é a insegurança, é o reitor"

Professor defende que João Grandino Rodas foi nomeado pelo ex-governador José Serra para a Reitoria da USP exatamente por causa do seu histórico relacionado à repressão

No dia 9 de novembro, foi postado no YouTube uma entrevista que o professor Luiz Renato Martins, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concedeu a jornalistas da Rádio Bandeirantes, TV Bandeirantes, Rede TV, TV Brasil, SBT e Record em frente à Reitoria da USP.

Na rápida conversa que teve com os repórteres, Luiz Renato Martins fala dos laços existentes entre o reitor da USP, João Grandino Rodas, e episódios autoritários ocorridos nos últimos anos dentro e fora da Universidade. Um exemplo é a propensão de Rodas — conhecida publicamente desde 2007, pelo menos — por resolver os problemas políticos pelo viés da militarização.

O professor da ECA defende que é exatamente devido a esse histórico que Rodas foi nomeado pelo ex-governador José Serra para assumir a Reitoria da USP, mesmo tendo perdido a eleição indireta realizada pelo Conselho Universitário — até então, instância decisória soberana dentro da Universidade. Confira a transcrição:

Já há alguns anos, desde antes de assumir a Reitoria, João Grandino Rodas vem propondo o endurecimento das relações dentro da USP. Quando houve a crise durante o mandato da ex-reitora Suely Vilela, em 2007, época em que o ex-governador José Serra tentou aplicar decretos que privatizavam a pesquisa e subordinavam a Universidade, e a Universidade se insurgiu contra isso, Rodas, então diretor da Faculdade de Direito, propunha a intervenção policial imediata. Naquela altura, em 2007, nós conseguimos que não houvesse intervenção policial na Reitoria. Mas, João Grandino Rodas chamou a polícia para dentro da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Depois disso, a polícia entrou na Unesp [campus de Araraquara] também.

Rodas veio para cá, então, para exercer, de fato, um poder de intervenção violenta. Já veio para cá preconizando a militarização da Universidade. No primeiro semestre do ano passado, ele deu uma entrevista pública à Rádio Bandeirantes na qual comparava a Universidade a morros do Rio de Janeiro e ao Haiti. Ou seja, ele claramente dizia que a solução para a USP era uma solução militar. Uma entrevista claramente racista, na qual ele defendia que a Universidade estava a ponto de sofrer um transtorno por causa de grupos clandestinos — isso ele dizia de grupos constituídos democraticamente.

Ademais, é um homem que prestou serviços à ditadura. Quando integrou um conselho em Brasília encarregado de se pronunciar sobre a morte de Zuzu Angel, o atual reitor, como membro desse conselho, votou contra a reabertura do caso, um dos episódios de maior barbárie durante o regime. Quer dizer, esse homem tem uma folha de serviços prestados à repressão, está dentro da USP por causa disso e está agindo de acordo com isso. Então, esta crise é uma crise anunciada. Só que nós não vamos aceitar isso. Esse movimento é pela derrubada do reitor, pelo fim da repressão policial aqui dentro, pelo fim da perseguição contra trabalhadores e estudantes.

Rádio Bandeirantes: O sr. não acha que a presença da PM pode aumentar a segurança e reprimir roubos e furtos ou a presença da PM não vai resolver esse problema?

O campus não é diferente da cidade de São Paulo. O que eu posso dizer é que o principal perigo que sofremos aqui dentro está consubstanciado na figura do reitor. Ele é o principal agressor. Ele é o principal perseguidor de trabalhadores e estudantes aqui dentro.

O dispositivo policial que começou a se montar no gabinete do ex-governador Serra, em 2007, depois da primeira ocupação da Reitoria, e que passou pela nomeação do delegado Francisco Pena como diretor técnico de Segurança no campus, foi o início de uma esclada repressiva aqui dentro. Outro momento da escalada repressiva foi a entrevista do reitor à Rádio Bandeitrantes, na qual ele dizia publicamente que a solução para a USP era militar. E o outro momento é o convênio com a Polícia Militar. Outro, as agressões que a PM está fazendo aqui.

O problema, na verdade, é o reitor, é o Conselho Universitário, é o Estatuto da USP que faculta a ele essas prerrogativas.

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Um comentario para ""O problema da USP não é a insegurança, é o reitor""

  1. Edlene disse:

    O que está sendo divulgado, é que os estudantes acampados não representavam a maioria, ou seja, em assembléia, a decisão era pela não ocupação. Isso é verdade?

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