USP: muito além da repressão

A exemplo de seu antecessor, o governador Alckmin parece interessado em liderar os que buscam, na crise, a opção do autoritarismo

Os ocupantes da reitoria da USP eram muito poucos: 73. Não esboçaram o menor gesto de resistência, segundo a própria coronel Maria Yamamoto, chefe de Comunicação Social da Polícia Militar. Mesmo assim, a PM ostentou truculência. Arrombou-se a reitoria. Antes disso, a residência universitária (o legendário CRUSP, ocupado pelo exército em 1968) foi cercada e atacada com bombas de gás lacrimogêneo.

Todos os estudantes foram presos e humilhados. Primeiro, a polícia separou homens de mulheres, em salas escuras da própria reitoria. Nesse momento, segundo alguns relatos, ouvia-se “barulho de estilhaços”, como se a PM, que já dominara o prédio, se empenhasse em produzir cenas de vandalismo.

Mais tarde, os 73 foram confinados por várias horas, sob calor, e ameaçados de enquadramento em crimes graves. Circularam boatos de que só seriam libertados (provisoriamente) após o pagamento de fianças pesadas — restando, aos que não as saldassem, os presídios.

Nada disso era necessário, se o interesse da operação fosse apenas reintegrar a posse da reitoria ao autoritário João Rodas, que a comanda. E o governador Geraldo Alckmin estava informado de tudo à tarde, quando afirmou, em entrevista: “os estudantes precisavam de uma aula de democracia”.

A simbologia está completa — e assusta. A polícia reproduziu ao máximo as operações que o aparato repressivo desencadeava contra revoltas estudantis, durantes os governos militares. O governador usa a mesma palavra-chave: a ditadura alegava agir no interesse da democracia para derrubar um governo legítimo, assumir o poder e restringir as liberdades.

Que pretende o governador Alckmin? Em todos os momentos de incerteza, há tanto a esperança de transformação quanto o risco dos retrocessos. Sempre que a ordem vigente se fragiliza, os setores mais inseguros e conservadores da sociedade buscam refúgio no autoritarismo. Querem encontrar no cassetete algo que os proteja da liberdade e suas incertezas. Regimes como os comandados por Hitler, Mussolini e Franco; ditaduras com as que marcaram a América Latina nos anos 1960 e 70 surgiram a partir da mobilização dos que temem o novo.

Em São Paulo, estes setores podem ser articulados como em nenhum outro estado. Aqui, o PSDB reina há 17 anos — com a cumplicidade de uma mídia que abafa seguidas denúncias de corrupção e, mais importante, esconde a decadência econômica de um Estado que gostava de se chamar “a locomotiva do país”. Aqui, há uma oligarquia poderosa, que sofre a perda dos privilégios e se ressente com o avanço das periferias e dos nordestinos. Aqui, esta camada sente-se chocada com movimentos novos, que combinam a crítica ao capitalismo, alianças entre excluídos e classe média (evidente nos saraus da periferia ou nas ocupações dos sem-teto), questionamento da família e valores tradicionais (em nenhuma outra cidade brasileira, há uma parada gay como a de São Paulo, ou uma rua como a Augusta). Daqui, podem surgir tanto um novo projeto de Brasil quanto o encanto retrô com o país aristocrático.

Nas eleições presidenciais do ano passado, José Serra tentou mobilizar o ultraconservadorismo paulista. Geraldo Alckmin opõe-se ao então candidato tucano, nas disputas internas do PSDB, mas parece interessado em herdar este capital político. A brutalidade da desocupação da reitoria é um sinal de alerta.

Que remete, aliás, a outros debates. Estamos todos contra a PM. Mas é preciso discutir melhor a ação de pequenos grupos vanguardistas, que se aferram à ideia de revolução dos séculos passados e tentam privatizar, em favor de seus partidos, o sentimento libertário da multidão. É assunto para outros textos.

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4 comentários para "USP: muito além da repressão"

  1. Paulo disse:

    “Mas é preciso discutir melhor a ação de pequenos grupos vanguardistas, que se aferram à ideia de revolução dos séculos passados e tentam privatizar, em favor de seus partidos, o sentimento libertário da multidão. É assunto para outros textos.”
    Destaco o trecho acima, que encerra o post. É bom contextualizar cada movimento, considerando que a indignação é global e a repressão/manipulação também. Os ‘neocons’ brasileiros também vão reagir!
    No conjunto, o que importa é o aparecimento desse “sentimento libertário da multidão.”

  2. Pedro disse:

    Não houve repressão ou ditadura tudo isso não passa de ideologia comunista alienante, que ainda impera nas faculdades. A policia fez e está fazendo seu trabalho, ao contrário desses estudantes sem causa, que estão provendo uma desordem publica, depredação do patrimonio e vandalismo generalizado.
    Espero que as autoridades tomem as devidas providencias cabíveis e todos os envolvidos sejam expulsos da faculdade.

  3. Eleuterio F. S. Prado disse:

    São ingênuos aqueles que não sabem que uma das reações à crise vem a ser o reaparecimento de formas fascistas de atuação política. E que tem apoio na opinião publica alienada, a qual está se manifestando fortemente. Os pequenos grupos que invadiram a reitoria não atuaram politicamente de forma inteligente e, por isso, facilitaram a vida da direita.

  4. David disse:

    Os estudantes sabiam q a policia ia invadir, e ficaram até o final. Não adianta apelar pra dó da sociedade. Se querem lutar por uma causa, façam pelos motivos certos e divulguem e semeiem a causa. Mas esta foi totalmente um tiro no pé!

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