O paradoxo espanhol

As ocupações de praças, que despertaram a atenção do mundo em maio, podem retomar com força. No entanto, a sociedade votará em peso nos sucessores diretos do franquismo

Por Pep Valenzuela, de Barcelona

A indignação voltará de forma massiva às ruas de mais de 60 cidades do Estado espanhol no próximo sábado 15 de Outubro (15-O), uma data que já começa a fazer parte do imaginário das lutas sociais neste país. Se alguém tiver dúvida, pode, simplesmente, dar uma olhada á imprensa ou mídia em geral, que já oferece informações, opiniões e (como não?) especulações as mais variadas.

Mas, desta vez, o movimento se confronta não só com o desafio de animar as dezenas e centenas de milhares que encheram as ruas das principais cidades do país. Dos contatos que se foram tecendo ao calor das acampadas, articulou-se uma ampla rede internacional que é a que hoje promove o 15-O como jornada internacional de luta: “Unidos por uma mudança global”.

Espera-se a celebração de passeatas e concentrações em 719 cidades de 71 países (http://15october.net/pt/), desde Tokyo a Nova York, passando por Johannesburg, Buenos Aires, Santiago de Chile, São Paulo, Los Angeles, Helsinky, Copenhagen, Hong Kong, Alaska, Tijuana, entre tantas outras. A difusão do movimento é espetacular.

Porém, quem procurar um grupo de vanguarda, uma conspiração sinistra ou uma fórmula mágica por trás das ações ficará frustrado . Grupos de vanguarda não faltam; nem, para bem e para mal, conspiradores. Mas, não é isso que faz o 15 de Outubro.

Ao menos até hoje, o movimento é estado de ânimo, mais que organização. Expressa os gritos de raiva e frustração de muitos setores sociais – em especial nos países mais atingidos pela crise. O momento em que surgiu também não foi produto do acaso, nem decisão de dirigente nenhum. Foi definido pelo agravamento das dificuldades que se prolongam por mais de três anos e, na Espanha, apoiam-se num ciclo mais longo de piora da situação econômica e política.

A resposta contra essa crise ampla e profunda expressou-se nas convocatórias e palavras de ordem de maio e continua até hoje – com uma crescente inter-relação entre o movimento e bom número de organizações. Na Grécia, Portugal e Itália, as mobilizações e protestos têm presença marcante sindicatos e partidos de esquerda. Não há fórmula mágica, cada povo vai encontrar a sua via. Porém, como apontava recentemente Toni Negri, durante conversa com os indignados em Madri, a articulação internacional do movimento é indispensável para se pensar e concretizar uma alternativa concreta e real.

Os motivos são muito claros: não é imaginável algum país da Europa procurar uma saída particular ou criar qualquer tipo de autarquia. Disso, os próprios dirigentes políticos e econômicos europeus afirmam ter clareza. O ministro de Exteriores alemão declarava esta semana, para um jornal de Madri: “O decisivo é que todos os membros do euro continuem no mesmo caminho. Devemos retomar o diálogo sobre o futuro da Europa”.

Nas cidades da Espanha, a convocatória do 15-O deveria marcar um importante momento de retomada das lutas, segundo declarações e textos da maioria das pessoas e ou grupos que vêm trabalhando no e para o movimento. Esta nova rodada vai se confrontar rapidamente (em 20 de novembro), com uma data decisiva do calendário institucional. Será eleito o novo Parlamento, que por sua vez deve eleger ao presidente do governo (equivalente ao primeiro ministro). Segundo todas as pesquisas, o novo mandatário será o presidente do chamado Partido Popular (PP), Mariano Rajoy.

Daí um dos aparentes paradoxos da política espanhola. No exato instante em que os indignados retomam a luta contra as políticas de aperto fiscal e ataque aos serviços públicos, pode ocorrer a maior vitória eleitoral da direita, herdeira direta da ditadura franquista.

O fato, obviamente, não deixa ninguém tranquilo. Mas, também há consciência da dificuldade de oferecer respostas rápidas. Como dizia um dos cartazes que apareceram nos primeiros dias dos acampamentos: “Vamos devagar porque vamos longe”.

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5 comentários para "O paradoxo espanhol"

  1. egle e. siquera disse:

    N é contradição da Espanha. O povo vota contra ,sempre q a economia vai mal. Vota unica e exclusivamente em função do próprio bolso, e da situação particular.
    É a despolitização global. No caso da Espanha pode ser trágico.
    Abrs,
    Egle.
    obs- vou tentar enviar, e compartilhar. Curiosamente n estou conseguindo.

  2. PENSADOR disse:

    PERCENTUAL DO SERVIÇO DA DÍVIDA É MAIOR DO QUE JURO NO CREDIÁRIO
    É interessante notar que iniciativa já consagrada por aqui não tenha, ainda, gerado frutos no exterior.
    Dilma Roussef propôs na ONU a transparencia dos gastos públicos dos países, na NET, como se faz aqui, mas nã fez muitos ouvintes.
    LÁ, NÃO INTERESSA TAMBÉM O POVO SABER QUANTO GASTA COM OS BANCOS.
    Estive lendo,em inglês para mais fidedignidade da informação, um pouco mais sobre a Grécia e vi que seu gasto com funcionalismo é proporcionalmente, muito maior do que o nosso, cerca de 30% da arredadação. Como lá os benefícios de saúde, segurança e educação pública devem ser maiores do que aqui, talvez justifique.
    No entanto, no Brasil, o gasto com funcionalismo foi de R$186 BI ou 12,6% da arrecadação federal.
    Como os juros de até 12,7% não justifiquem os R$600 BI em serviço da dívida, provávelmente multas contratuais pesadíssimas para refinanciá-la corroborem o gasto de mais de R$300 BI somente com refinanciamento da dívida.
    Ora, quando refinancio uma dívida esta não pode ser colocada na aba despesa pois, refinanciar é pagar no futuro. Assim, não justificaria colocar como despesa hoje o que vou pagar amanhã.
    Se tivéssemos feito a renegociação forçada como a Argentina, estaríamos crescendo a 7,5% ou mais.
    Os gastos brutos do serviço da nossa dívida estão maiores do que os juros do crediário de varejo das Casas Bahia, por ex.
    FAÇA A CONTA = SERVIÇO DA DIVIDA DE 596 BI DIVIDIDO POR 1,5 TRI E ACHARÁ 39,7%AA DE ENCARGOS.
    Assim, passo-a-passo, também estamos no caminho da Grécia.

  3. Victor disse:

    A esquerda espanhola é tão fraca que mais parece direita. Zapatero é subserviente aos Estados Unidos e não é muito diferente dos franquistas.
    Os indignados nem têm opção.

  4. Orlando Sampaio Silva disse:

    A reação popular, principalmente, dos jovens, e, entre estes, os desempregados, mas, também, dos oprimidos em geral por governos ditatoriais, não oclodiu como um movimento global em um mesmo momento. Ela, a reação popular tem sido respostas, por um lado, às medidas autoritárias que se fundamentam nos ditames do neoliberalismo que sacrificam as populações, e, por outro, simbolizam o sonho de liberdade dos oprimidos. É natural que a reação se expanda tendo por sujeitos as populações ofendidas. Há uma central gestora mundial por trás de todas essas ações? No passado as idéias dos filósofos inspiravam as ações de resistência dos povos. Eles eram os cérebros impulsionadores. Hoje, não. Nem partidos políticos. Os povos ofendidos estão aprendendo a criar novos instrumentos de luta, novas formas de organização para reagirem e tornar concretos seus sonhos. Todos passam a exigir justiça social com liberdade. As flores da primavera humana começam a brotar!

  5. BENJAMIM LIMA disse:

    E qual é a diferença entre o Partido solicialista espanhol e o PP, sucessor do franquismo? O PP faria a mesma coisa que o PSE está fazendo ou vice-versa. Portanto, do ponto de vista do trabalhador é tudo a mesma mierda. Os partidos socialistas europeus, seja espanhol, francês ou qualquer outro, de socialistas têm apenas o nome. Na hora do aperto são os trabalhadores que pagam a conta, para salvar a fortuna dos ricos.

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