Lembrai, lembrai o cinco de novembro

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História de uma ressignificação: como Guy Fawkes, incendiário católico do século 17, converteu-se em personagem ambíguo de grandes mobilizações contemporâneas

Por João Carlos Correia

“Remember, remember, the fifth of November

The gunpowder, treason and plot;

I know of no reason, why the gunpowder treason

Should ever be forgot.”

(“Lembrai, lembrai, o cinco de novembro

A pólvora, a traição e o ardil;

por isso não vejo porque esquecer;

uma traição de pólvora tão vil”)

O século XVII era uma época de tensões religiosas na Europa. Os católicos ingleses estavam extremamente irritados pelo fato do rei Jaime I, da Inglaterra (também chamado de Jaime VI, da Escócia), não conceder a eles os mesmos direitos dos protestantes. Um grupo de católicos, liderados por Robert Catesby, decidiu, então, eliminar não só o rei como também aqueles que o apoiavam no Parlamento britânico. Acreditavam que, com isso, iniciariam um levante que faria o catolicismo ser novamente a religião predominante no país. O plano era explodir o local com 36 barris de pólvora durante uma sessão parlamentar, na qual o monarca estaria presente, no dia cinco de novembro de 1605. O responsável pela guarda da munição e sua detonação era um homem chamado Guy Fawkes, um especialista em explosivos. Porém, o plano foi descoberto e Fawkes, capturado, interrogado, torturado e, posteriormente, condenado à morte por enforcamento, sendo seu corpo esquartejado após a execução.

Esse é um breve resumo da conjura que ficou conhecida como “A Conspiração da Pólvora” (The Gunpowder Plot). Desde então, em todo dia cinco de novembro, é celebrado na Grã-Bretanha e em países da comunidade britânica um feriado chamado de “Noite de Guy Fawkes”, (Guy Fawkes Night), ou “Noite da Fogueira” (Bonfire Night). Esse feriado foi instituído, a princípio, como uma festividade pela sobrevivência do rei, mas, com o passar do tempo, começaram a soltar de fogos de artifício e a acender grandes fogueiras nas quais são queimadas máscaras ou bonecos a representar Guy Fawkes em uma cerimônia de humilhação do conspirador semelhante à “malhação do Judas” que ocorre no Brasil durante os festejos da Semana Santa.

De alguns anos para cá, a imagem do cinco de novembro novamente mudou. De conspirador fracassado e humilhado, Fawkes passou a ser visto não só como “o único homem a entrar no Parlamento com intenções honestas” (segundo um dito popular local), mas também como símbolo de rebeldia e de anarquia. Essa mudança deve-se em grande parte à graphic novel  “V for Vendetta” (“V de Vingança”, nos países de língua portuguesa), publicada originalmente em 1982, com texto do inglês Alan Moore e desenhos do também inglês David Lloyd, na qual o personagem principal, um anarquista chamado apenas V, usa uma máscara inspirada nas feições de Guy Fawkes, luta e organiza uma revolução contra um estado fascista totalitário que estabeleceu-se na Inglaterra. A obra, sucesso de público e crítica, foi adaptada para o cinema com igual êxito. A máscara de Fawkes popularizou-se e tornou-se um ícone de manifestações e protestos.

Entretanto, quem “turbinou” esse “new look” do cinco de novembro foi o grupo de hack-ativismo chamado Anonymous. Tendo justamente o anonimato como forma de ação e divulgação de seus ideais (liberdade política e de expressão, além de diversas causas sociais), o grupo “adotou” a máscara de Fawkes como seu “rosto” e organizou diversas manifestações ao redor do mundo por meio da internet e seus diversos canais disponíveis (YouTube, Facebook, Twitter etc.). Sua presença e influência puderam ser vistas e sentidas em manifestações tais como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street e em operações como a DarkNet, na qual derrubaram mais de 40 sites de pornografia infantil e publicaram mais de 1500 nomes de pessoas que frequentavam essas páginas. No Brasil, apoiaram e participaram das manifestações ocorridas no mês de junho de 2013 e vêm organizando outras tantas desde então, como, por exemplo, a Operação Sete de Setembro, ocorrida no dia da Independência. E as máscaras de Fawkes cobriam o rosto de milhares de manifestantes.

Nos últimos anos, o grupo organiza uma manifestação global em todo o dia cinco de novembro, que é tido agora, por alguns, como data mundial de resistência e rebelião contra a corrupção de governos, tirania e injustiças sociais. Essa manifestação ganha mais e mais adeptos cada vez que é realizada e a máscara de Guy Fawkes, claro, não pode faltar.

O fato é que o cinco de novembro e Guy Fawkes sintetizam o descontentamento geral que vem a ocorrer em todo o mundo nestes tempos sombrios de crise financeira internacional, espionagem e violência. As pessoas estão simplesmente cansadas do cotidiano que são obrigadas a encarar, seja viajar em um ônibus lotado ou a falta de liberdade e democracia ou a praga da corrupção política, e começam a reagir contra esta situação opressiva e a usar os meios que têm em mãos – que vão desde as manifestações em locais públicos até a internet, meio poderoso de divulgação e organização, que, aliás, foi subestimado por muitos políticos como, por exemplo, o ex-presidente Lula, que não acreditava na força da rede mundial de computadores – achava a televisão mais eficiente – até que as chamadas Revolta dos 20 Centavos e Revolta do Vinagre ocorreram e fizeram-no “quebrar a cara”.

Os governos sentiram o golpe. Tentaram e ainda tentam conter todo esse movimento usando a mídia conservadora (governamental e/ou particular) para criticar e desacreditar os manifestantes que, de uma maneira geral, têm o apoio da população. O modo favorito é usar os Black Blocs – para muitos o “lado negro da força” do movimento – e seus polêmicos e contestados métodos violentos de protesto, os quais destroem patrimônios públicos e particulares, para criminalizar os manifestantes chamando-os de “baderneiros” e “vândalos”. O outro modo é usar uma tática de terror utilizando as forças de segurança civis (polícia) ou militares (forças armadas). Todos ainda lembram-se da violência policial ocorrida nas manifestações brasileiras, que incluía o uso de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes e que também atingiu jornalistas que cobriam o evento. Em desespero, chegaram a proibir o uso de máscaras em manifestações – especialmente de nosso velho amigo Guy Fawkes…

Apesar dessa rude e dura reação por parte dos detentores do poder, as manifestações aumentam em um processo irreversível e o cinco de novembro é, cada vez mais, uma data para lembrar não de um atentado fracassado, mas de uma revolta contra um estado de coisas que não se pode mais suportar e do desejo de mudança de situações intoleráveis por meio da união de pessoas de todas as raças, cores, credos e orientação sexual. Uma data que ultrapassou todas as fronteiras e veio para ficar. Por tudo isso, lembrai e lembrai do cinco de novembro, com ou sem máscara de Guy Fawkes.

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6 comentários para "Lembrai, lembrai o cinco de novembro"

  1. William disse:

    Será que uma foto que não mostre condições paupérrimas de trabalho não ilustraria melhor o artigo? Se o intuito foi ilustrar a popularidade da máscara e o que ela representa, talvez uma foto que aludi à exploração do trabalho seja uma escolha errada.

  2. Alexandre Baquero disse:

    Acho que a foto que ilustra o texto vem bem a calhar, e o texto só faltou em não mencionar essa exploração do trabalho como alicerce desse nosso sistema político. Ademais, acho que o texto é um pouco ingênuo, mas isso não é exatamente um demérito.

  3. José Carlos Abrão disse:

    Willian, devagar com o seu andor, como diria a minha querida vovó! A foto a que vc. se referiu, numa concepção leibniziana (1646-1715), diga-se de passagem, está para além de uma visão tosca e moralista como a sua ao criticar o texto. Na concepção leibiniziana , de acordo com o inglês Russell e o francês Couturat no início do século passado, o filósofo já mostrava os caminhos crítico-éticos menos errados de se entender aquilo que leva para “onde caminha a humanidade”… Então, Willian, mão na massa, vai ler, vai!

  4. Joilson disse:

    Achei um bom texto. Vejo a foto como uma ilustração de cultura pop.A “Revolução do Vinagre” começou interessante mas logo se propaga pelo país, no entanto é diluída em falta de objetividade na pauta reivindicatória.
    Na época a violência policial nos protestos era lastimável, hoje a violência nos protestos é seletiva. Pancada em professor grevista é usual já em outros protestos digamos “Emparelhados” rola até selfie.

  5. ju amaral disse:

    Você me ajudou muito em um trabalho para a faculdade, obrigada!!

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