Brasil: quem são os novos desaparecidos

Trinta anos após redemocratização, série de “desaparecimentos” nas periferias, com claro envolvimento policial, convida a perguntar: ditadura de fato terminou?

Por Vladimir Platonow, na Agência Brasil

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Trinta anos após redemocratização, série de “desaparecimentos” nas periferias, com claro envolvimento policial, convida a perguntar: ditadura de fato terminou?

Por Vladimir Platonow, na Agência Brasil
 

Cinco mães e um pai de jovens desaparecidos ou mortos na Bahia nos últimos anos relataram, nessa quinta-feira (4), à Anistia Internacional (AI), no Rio de Janeiro, os dramas vividos. Eles pediram ajuda para solucionar os casos que, alegam, não têm recebido a devida atenção por parte do governo baiano.

Em todos os casos, os jovens são negros e de famílias humildes. Na maior parte, há relatos de testemunhas de participação policial ou de milícias. Em quase todas as situações, os inquéritos foram inconclusivos, sem apontar a autoria nem localizar os jovens, para o desespero dos pais, que não sabem, até hoje, se os filhos estão vivos ou mortos.

O drama mais recente é de Rute Silva, mãe de Davi Fiuza, de 16 anos de idade. Ela relatou que o filho foi pego quando estava observando uma operação da polícia, no dia 24 de outubro deste ano, no bairro de Vila Verde, em Salvador. “De repente, ele foi encapuzado, teve amarrado os pés e as mãos e jogado em um carro descaracterizado. Havia muitas viaturas da polícia por perto, segundo as testemunhas. Desde então, procurei todos os meios legais e jurídicos, fui ao Instituto Médico-Legal, nos campos de desova [de cadáveres], mas nada”, contou.

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Ruth Fiúza, mãe de Davi Fiúza, que desapareceu há cerca de um mês (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O caso de Davi Fiuza motivou a AI a denunciar a situação à Organização das Nações Unidas (ONU), assim como a de outros jovens, até hoje desaparecidos, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Outro Davi, com sobrenome Alves, teve destino semelhante. Filho da vendedora Iracema Barreiros Alves, ele foi apreendido pela polícia, aos 17 anos, no dia 6 de dezembro de 2013, em Salvador. Alves estava, segundo a mãe, na companhia de outros dois menores, em um carro, sem que o motorista tivesse habilitação. Acabou liberado, mas nunca mais foi visto.

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Iracema Barreiros Alves, mãe de Davi Barreiros Alves, desaparecido (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

“Foi levado para a Delegacia do Menor Infrator e depois para a Fundação Casa. Eu recebi um telefonema para buscar meu filho, mas quando cheguei lá disseram que ele já estava indo para casa, só que nunca chegou. Eu voltei e disseram que ele tinha sido liberado com o pai de outro menor, que o teria deixado em outro lugar. Como liberaram o meu filho para outra pessoa?”, perguntou Iracema.

O filho de Antônio Carlos Borges de Carvalho, Jackson Antônio, acabou morto em 23 de junho de 2013, em Itacaré, município praiano a 150 quilômetros ao sul de Salvador, e até hoje não se sabe o motivo. “O meu filho foi brutalmente assassinado, aos 15 anos. Ele era judoca desde os 7 anos, surfava e cursava o primeiro ano do curso técnico de guia de turismo. O corpo foi encontrado por mim, enterrado em um buraco, de cabeça para baixo, com as pernas cortadas na altura do joelho e com um tiro na cabeça. Até hoje, não tive acesso ao inquérito. O delegado o colocou em sigilo de Justiça”, contou Carvalho.

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Antônio Borges pai de Jackson Antonio Souza de Carvalho, morto em Itacaré (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Cleonice Oliveira, mãe de Jean Carlos Oliveira da Silva, 20 anos, disse que o filho foi sequestrado, juntamente com dois jovens, os irmãos Luis Ricardo, de 20 anos, e Sérgio Luis Nascimento, de 28, no dia 16 de maio de 2013, após a casa ser invadida pela Companhia de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar. “Eles foram algemados e encapuzados, de madrugada, na casa onde moravam, e colocados em viaturas. Há um ano e sete meses a gente não tem mais nenhuma informação. Não há investigação alguma. Queremos saber onde eles estão. É isso que nos move.”

A professora Lucimoura Santos, mãe de Sérgio Luís e Luís Ricardo, ainda espera notícia dos filhos: “Levaram eles e até hoje não tenho informação sobre o paradeiro. Mas temos esperança de que estejam vivos”.

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Ana Lúcia Conceição, mãe de Matheus Silva Souza, desaparecido aos 16 anos (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Ana Lucia Conceição da Silva, mãe de Mateus Silva Souza, de 19 anos, é outra que não viu mais o filho. “Ele saiu de casa dizendo que ia para uma lan house, no dia 10 de maio de 2012. Até agora, não tenho notícia nenhuma. Fiquei sabendo que meu filho foi pego pela polícia e torturado, no bairro de Itaigara, em Salvador. Ele estava com mais dois colegas, que saíram correndo [ao ver a polícia]. Ele parou, para se justificar. Aí deram um tiro na perna dele e o jogaram na mala do carro. Até o dia de hoje, não sei o que aconteceu. Sumiram com o meu filho.”

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Cleonice Oliveira, mãe de Jean Carlos Oliveira da Silva, e Lucy Moura Santos, mãe de Luiz Ricardo Santos Nascimento e Sérgio Luiz Santos Nascimento, todos sequestrados em Canabrava (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Hamilton Borges, militante da organização Quilombo X Ação Comunitária e da Campanha Reaja, disse que o objetivo das entidades é lutar contra os grupos de extermínio, a brutalidade policial e a lógica de segurança pública vigente no estado. “Ser negro, jovem e pobre é uma sentença de morte na Bahia. As abordagens policiais são letais. As pessoas estão sendo orientadas pelas famílias a não sair às ruas. A gente vive em uma grande cadeia, onde tem tortura, mortes e desaparecimentos que, na verdade, são sequestros”, disse Hamilton.

Ele alegou que o governo baiano não criou nenhum mecanismo para combater os grupos de extermínio nem a brutalidade policial, o que levaria a polícia da Bahia a ser a terceira que mais mata no país, em dados absolutos. Além disso, Hamilton disse que há um componente de discriminação racial nas abordagens.

“Se o policial encontra um garoto branco, de classe média alta, fumando maconha, leva para casa e entrega para os pais, dizendo que ele estava cometendo um erro. Se um garoto negro apenas está usando um chapéu, uma tatuagem, eles matam e desaparecem.”

Procurada para se pronunciar sobre os casos, especialmente o mais recente, de Davi Fiuza, a Secretaria de Segurança Pública da Bahia informou, em nota, que todas as medidas cabíveis estão sendo tomadas. Disse que várias vertentes são investigadas, inclusive a participação de policiais. Os que estavam de plantão no dia do desaparecimento estão sendo ouvidos no inquérito. A secretaria também informou que, no período de 2013 a 2014, 104 policiais foram demitidos, graças ao trabalho das corregedorias.

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Um comentario para "Brasil: quem são os novos desaparecidos"

  1. Vivemos um Estado Policial permanente?
    As “periferias” vivem esse estado permanente de medo, de violência e de asilo.
    As “periferias” com as aspas é para demonstrar que temos várias periferias, são situações de violência social, principalmente por parte da polícia militar por praticamente todas as regiões do país. São os grupos LGBT, por exemplo, que são impedidos, muitas vezes, de viver uma vida normal. É a juventude negra e pobre que é sistematicamente assassinada num grotesco e violento ritual de extermínio que, parece, não ser visto por ninguém.
    Se lermos o livro “Cidadania no Brasil – O longo caminho” de José Murilo de Carvalho, entenderemos melhor.
    O libelo mostra os caminhos percorridos pelas elites para impedir a construção da cidadania no Brasil.
    Se fizermos o acompanhamento cotidiano das votações nas Comissões e depois nos plenários da Câmara e do Senado, veremos os projetos e as leis que estão sendo criadas, chamadas por alguns de “pacotes de maldade de final de ano”, refere-se à PEC 215 que retira direitos dos povos indígenas, esse é apenas um exemplo, são várias outras tentativas de retirar direitos da sociedade e dos trabalhadores.
    Essa violência que nossa sociedade vive, principalmente os pobres nas periferias das cidades desse país, é perpetrada de forma direta e indireta pelas políticas subliminares criadas pela elite econômica que não se importa com a formação cidadã, se importa sim em manter a segurança e a “paz armada” para garantir o consumismo, a venda de suas mercadorias.
    A ditadura não acabou.
    Só olharmos as formas de ação da polícia e dos órgãos da justiça e da imprensa no trato com as questões que envolvam as demandas dos mais pobres e da sociedade como um todo.
    As manifestações de rua foram tratadas pela mídia, pelos partidos conservados, pela justiça e pelos governos, como manifestações de desordeiros e baderneiros que deveriam ser enquadrados e retirados das ruas como de fato aconteceu.
    Dezenas de manifestantes foram presos de forma ilegal, arbitrária mesmo. Alguns foram caçados e presos na surdina, sem direitos nenhum, numa clara demonstração de que vivemos um período que, devido a essas ações, parecem continuar de fato com a ditadura.

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