África, vida selvagem e… cooperativas!

Como, em Botswama, comunidades de caçadores e pescadores transformaram-se em guardiões do Delta do Okovando, um paraíso de biodiversidade

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

A principal beleza natural de Botswana encontra-se no norte do país e abraça 16 mil km² do território nacional, o Okavango. Vindo de Angola, dois rios se juntam para formar o maior delta interior do mundo. O único que nunca encontrou um mar para desaguar. O cenário é casa para milhares de animais: tipos inimagináveis de mamíferos que se aglomeram entre as poças de água, pequenos e grandes répteis que aproveitam o sol nas bordas dos rios e rumorosos pássaros que pululam entre os galhos das árvores. Entre fauna e flora, a região virou atração que costuma encantar turistas dos quatro cantos do planeta.

No delta, o remador Batsillo é um dos responsáveis por receber os visitantes. Da etnia bayeye, cresceu nas vilas ribeirinhas da região. Seus pais viviam da pesca e da caça e para a locomoção na paisagem alagadiça serviam-se de mokoros, canoas que construíam com troncos da árvore Kigelia. Na hora da caça, as empurravam pelas águas impelindo as varas contra o fundo do pântano, à procura da presa. Na década de 80, a região foi transformada em reserva ambiental e o governo proibiu as atividades de caça e pesca incentivando os pais de Batsillo e toda a população local a uma nova maneira de sustento através do aproveitamento ecológico dos recursos naturais.

Nasce assim a Associação Comunitária Okavango Kopano Mokoro, e as seis vilas ribeirinhas antes beneficiárias do delta ficam envolvidas diretamente na preservação do meio ambiente se responsabilizando pelo manuseio e turismo sustentável da região. Hoje, como Batsillo, são mais dezenas de remadores, que conduzem os turistas pelo delta em inesquecíveis passeios de mokoros. Na região de Maun, a Associação é responsável por quase todo o turismo envolvendo a atividade e muitas das agências privadas agendam as viagens através da organização. O lucro então é utilizado para prover novas facilidades para as comunidades envolvidas, reinvestido na associação e dividido entre os trabalhadores, todos nativos da região, como Batsillo.

Batsillo é o nome da certidão, mas entre os amigos é mais conhecido como Life e assim ele prefere ser chamado. Life se manifesta orgulhoso de seu trabalho e gosta de explicar a importância do que faz assim como ensinar detalhadamente os aspectos da natureza que cerca os turistas durante o passeio. Enquanto rema, aponta que a água é transparente e que com um olhar mais atencioso é possível enxergar a corrente. Explica que o fato, adicionado ao poder de filtro de algumas plantas locais, torna a água potável e consumível para os moradores da região, que sabem identificar os pontos de coleta. Esclarece também que os peixes mais comuns são tilápias, peixe-gato, peixe-tigre, o pike africano e outros de tamanho médio, lembrando que a pesca é controlada e, no ano, apenas durante os três meses de inverno é permitida e somente para quem tem autorização.

A educação de turistas também vale para os residentes, faz parte do contrato do Trust. Todos os participantes tornam-se professores do meio ambiente, responsáveis por conscientizar moradores e visitantes da importância do delta e de sua preservação para as gerações presentes e futuras. Outro encargo da organização é apoiar os direitos iguais, encorajando a participação integral das mulheres como beneficiárias e gerenciadoras do negócio. E por fim, assegurar que os benefícios do uso sustentável da reserva natural sejam igualmente divididos sem discriminação racial, étnica, política, religiosa ou de gênero.

Ditshiping, Daunara, Xaxaba, Boro, Xuxao e Xaraxao são as seis comunidades e Life explica que em média em cada uma delas vivem 500 moradores, concretizando três mil beneficiários do Trust. Enquanto abre caminho pela vegetação pantanal, o remador segue explicando o dia a dia dos moradores e ensina que nas bases das flores que enfeitam o passeio, os lírios aquáticos, encontram-se tubérculos parecidos com a batata-doce, que fazem parte da alimentação da população local. As longas plantas aquáticas transformam-se em palha para telhados e para acolchoados. Já o sorgo, outra planta típica do delta, é o principal ingrediente para a confecção da cerveja tradicional.

Para ele, o conhecimento é natural, o remar é espontâneo e andar pelo pântano não é tão difícil quanto parece. Diz que o segredo para guiar a mokoro é manter o equilíbrio e que tudo depende apenas de onde você coloca a vara. Se estiver próxima ao barco, vai reto. Se estiver um pouco longe, a canoa toma então a direção da vara. Espirituoso, ele ainda brinca que nem mesmo é preciso abrir os caminhos entre as plantas. O trabalho fica para o pessoal do turno da noite, os hipopótamos. Life descreve cada passo da vida no delta, fazendo com que tudo pareça fácil e simples, e, enquanto rema, segue compondo um quê de orgânico entre o homem e a natureza.

Saiba mais sobre o Trust: www.okmct.org.bw

 

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Um comentario para "África, vida selvagem e… cooperativas!"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *