A Europa à beira da grande crise

Como o pensamento ortodoxo, e as pressões em favor dos que multiplicam seu dinheiro nos mercados financeiros, estão a ponto de inviabilizar o euro e precipitar uma crise financeira mundial

 

I.

Em caso de emergência, durma com o inimigo. Há alguns meses, o ministro das Finanças italiano, Giulio Tremonti, chamou a atenção na Europa por sua pregação estridente contra a China. Segundo este político veterano, que participa pela quinta vez num gabinete do premiê Sílvio Berlusconi, o Velho Continente está ameaçado por uma “colonização inversa”, da qual só poderá escapar estabelecendo barreiras à influência chinesa.

Tal ênfase tornou ainda mais dramático o giro de 180º anunciado por Tremonti na segunda-feira (12/9). Acuado pelas pressões crescentes dos mercados financeiros sobre o Tesouro italiano, o ministro revelou que havia começado a trilhar, semanas antes, o caminho que pode levar a um grande acordo com Beijing. O China Investment Corp, um fundo estatal que maneja astronômicos 3,2 trilhões de dólares (dez vezes as reservas de divisas brasileiras), foi convidado pelo governo Berlusconi a se converter no principal credor do país. Segundo o acerto que lhe foi proposto, ele compraria uma quantidade maciça de títulos emitidos pelo Estado, numa injeção de dezenas ou centenas de bilhões de euros, para tentar afastar os riscos de insolvência. As negociações começaram há cerca de um mês, na China. Avançaram semana passada, já em território europeu. Especulou-se que, em troca do favor, Roma ofereceria suas empresas estatais de gás e ou eletricidade.

A pirueta de Tremonti é mero detalhe pitoresco de um episódio que poderá ter enorme impacto internacional. A economia globalizada está à beira de um novo terremoto, com magnitude igual ou superior à do que semeou pânico em todo o planeta em setembro de 2008, quando faliu o banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers. O epicentro agora é a Europa.

O continente converteu-se, há cerca de um ano, numa espécie de papado do fundamentalismo econômico. As dificuldades são reais: houve forte aumento da dívida dos Estados, após o socorro maciço concedido aos bancos, entre 2008 e 2009. Mas as soluções estão condicionadas pela ideologia, por isso não enfrentam os problemas. Os governos temem agir contra os mecanismos que permitem, a muito poucos (os rentistas), multiplicar continuamente sua riqueza, nos mercados financeiros. Insistem nesta postura mesmo quando ela os impede de reativar a economia combalida pelos anos de crise – encomendando obras públicas, gerando ocupações e renda, por exemplo. Investem, ao contrário, contra os direitos sociais e os serviços públicos.

Esta atitude foi levada a um ponto extremo, próximo ao colapso. É como se o maquinista de um velho trem a vapor passasse a arrancar as paredes de madeira dos vagões, para alimentar a caldeira – obsoleta e voraz – da locomotiva. Os mercados financeiros sabem que os Estados são incapazes de continuar a sustentá-los. Mas os investidores são movidos por uma lógica que os leva a pedir mais, quando identificam as dificuldades do devedor. Num certo momento, a tensão entre estas duas percepções contraditórias explode, trava os mercados, provoca falências em dominó. Como todas as relações econômicas estão entrelaçadas com os circuitos financeiros, o caos resultante pode paralisar a produção, inviabilizar empresas, destruir empregos em massa.

É deste abismo que a Europa aproxima-se, cada vez mais perigosamente, há meses. Nesta segunda-feira, tornou-se impossível continuar enxergando as ameaças como se fossem apenas reflexo das tragédias vividas pela pequena economia grega. Espanha e Itália viveram novas dificuldades para rolar suas dívidas. Só o fizeram pagando taxas de juros próximas dos 6% ao ano – um patamar que, para os padrões vigentes no centro do sistema financeiro, significa grave desconfiança dos credores. Pior: alguns dos maiores bancos franceses foram atingidos. As ações do Société Generale, Crédit Agricole e BNP Paribas sofreram pesadas baixas nas bolsas de valores (14/9). Hoje, uma agência internacional de avaliação de riscos, a Moody’s, rebaixou a quotação dos dois primeiros, o que pode provocar novas turbulências.

Um dos aspectos mais exasperantes da crise é que alguns governos dispõem de instrumentos práticos e informação teórica para debelar as ameaças – e, mesmo assim, permanecem apáticos e desorientados, ou agem sempre tarde demais. Economistas não atrelados à ortodoxia econômica têm alertado para a necessidade de medidas de estímulo à produção e redistribuição de riqueza. O elenco vai do Euromemo, uma rede de pensadores alternativos, a Paul Krugman, Nobel de Economia e colunista do New York Times. O Banco Central Europeu, ao contrário eleva os juros, sempre em nome da “austeridade” e do “combate à inflação” – e para proveito dos rentistas…

Há cerca de um ano, quando os credores da Grécia começaram a pressioná-la, um rápido socorro de seus parceiros ricos da “zona do euro” teria afastado as tensões e dissuadido ataques contra outros países. A oportunidade foi desperdiçada em nome de um discurso falso e moralista (“os gregos precisam aprender a viver com seus próprios meios”). Mesmo as medidas mais banais são adiadas. Em 21 de julho, os ministros das finanças aprovaram a criação de um Mecanismo Europeu para Estabilidade Financeira que permitiria mitigar as pressões sobre os Tesouros. Mas sua implementação completa depende de aprovação dos 17 parlamentos dos países-membros da União Europeia – incerta e em prazo imprevisível.

Estudar a crise europeia é importante por pelo menos três grandes motivos. O primeiro é prático. Como tem alertado o mega-investidor George Soros, uma pane no sistema financeiro do Velho Continente, semelhante à de setembro de 2008 nos EUA, teria consequências mais devastadoras. O peso econômico e o risco de contágio mundial são semelhantes, mas os mecanismos de coordenação (e combate a desastres), muito mais débeis.

Além disso, as ideias que estão colocando a Europa em risco têm também enorme peso no Brasil. Na mídia, qualquer medida que contrarie os interesses dos rentistas é recebida com bombardeio pesado – basta ver as reações à recente decisão do Banco Central de reduzir timidamente as taxas de juros. No governo, as atitudes ousadas que marcaram o final do governo Lula no terreno financeiro foram substituídas por uma posição mais cautelosa – e, em certo sentido, dúbia – de sua sucessora. Os discursos mais recentes são animadores, mas ainda não se converteram em prática. Uma sociedade civil consciente poderá exercer contra-pressões decisivas.

Por fim, imaginar um modo alternativo de funcionamento dos sistemas financeiros e monetários parece indispensável, para continuar construindo novas relações sociais. Qualquer sociedade complexa precisa de moeda e crédito. Embora fáceis (e, às vezes, poéticos…), os discursos que demonizam estes instrumentos têm, em geral, cheiro de moralismo. Bem mais desafiador que lançar uma condenação religiosa ao dinheiro e às finanças é absorvê-los antropofagicamente. Como voltá-los à redistribuição de riquezas e a novos padrões de produção e consumo?

Este texto introdutório terá continuidade, nos próximos dias. O plano inicial prevê examinar em profundidade as causas do envidamento dos Estados após a crise, para demonstrar que estão relacionadas ao salvamento dos bancos e demais instituições financeiras – não a suposto esbanjamento social. Pretende rever, em retrospecto, o alastramento das dificuldades, mostrando que foram agravadas pelo temor de contrariar os grandes aplicadores nos mercados financeiros. Procurará sugerir hipóteses para a investigação das alternativas.

Mas é um projeto aberto. Comentários e sugestões sobre aspectos novos a ser investigados são muito benvindos – assim como indicações de textos relevantes. Assistir de modo passivo ao desenrolar da crise é muito angustiante. Examiná-la em diálogo pode ser, além de importante, muito mobilizador.

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3 comentários para "A Europa à beira da grande crise"

  1. Tuko Dias disse:

    Durante milênios a China, protegida pelas muralhas, fez comercio com o mundo ocidental pela chamada rota da seda. No início do século XIX a revolução industrial permitiu que a Europa inundasse os cercados, inclusive os asiáticos, com produtos baratos e a sofisticação dos produtos chineses perderam espaço. Recentemente é a China que inunda o mundo de produtos baratos. Uma revanche com o um intervalo de dois séculos. Agora se prepara pra ter a Europa ao seus pés.

  2. Sonia P. Laus disse:

    Excelente a proposta de uma análise em etapas , com aprofundamento sobre as diversas variáveis envolvidas.Sem catastrofismos mas também sem fugir da gravidade do tema que é global. A fragilidade européia precisa ser entendida e as economias chamadas periféricas precisam estar atentas e preparadas para o tsunami que vem em direção a todos. Também a China precisa ser entendida em suas reais proporções, sem mêdo , mas com muito esforço de entender suas possibilidades de transformar-se no novo poder hegemônico. Não vejo o China in box como o novo Mac Donald e nem é disso que o mundo precisa. Só com o pé bem plantado na realidade global se poderá estruturar um novo modelo de desenvolvimento e um novo modo de produção.

  3. Thiana disse:

    Muito esclarecedor o texto, principalmente no que diz respeito a não vilanificação do dinheiro; um discurso ultrapasado contra o lucro; mas combater o rentismo (conceito que fiquei a par recentemente).
    Eu acredito que uma das soluções seria a existência de regras mais éticas aplicadas ao mercado financeiro que deveria ser pautado por um ‘lucro social’ e não pela política do bônus fácil. Outra questão é sobre índices relacionados ao crescimento do PIB que não levam em conta o Índice de Desenvolvimento Humano. O mercado apenas considera o primeiro e ignora o segundo. Com certeza, existem várias outras alternativas e complexidades, mas cito algumas.
    Sobre links, confere essa cobertura especiali:
    http://globalvoicesonline.org/specialcoverage/europe-in-crisis/

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