Trem-bala: em busca de alternativas

Uma linha de alta velocidade é a melhor opção para iniciar a reativação do transporte ferroviário no Brasil?

Na semana passada, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) cobrou de consórcios privados, que operam 5,5 mil km. de ferrovias remanescentes no Brasil, planos para reativação dos trechos pelos quais são responsáveis. A atitude ajuda a alimentar um tema do qual a sociedade civil não pode ficar ausente. A recuperação da malha ferroviária é uma prioridade nacional? O projeto de “trem-bala” ligando São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas (SP) é a melhor forma de promovê-la? Seria importante recolher informações e opiniões a respeito.

O trem-bala, cuja primeira tentativa de licitação fracassou, é um projeto de 55 bilhões de reais. Talvez seja inadequado comparar este montante a outros tipos de investimentos públicos, como construção de escolas ou de linhas de metrô. O Brasil precisa melhorar seu sistema de ensino, suas condições de mobilidade urbana e também sua malha ferroviária. O predomínio quase absoluto do transporte rodoviário e individual interurbano, num país que produz energia elétrica a partir de fontes limpas, é um ataque ao ambiente e aos direitos da maioria.

Mas há, no Brasil e em todo o mundo, um questionamento crescente aos chamados “trens de alta velocidade”, ou “TAVs”. Na Itália um dos movimentos sociais mais criativos dos últimos anos é a resistência dos habitantes do Vale do Susa a um projeto de “trem-bala” ligando Torino a Lion (França). Argumenta-se que, para obter uma redução de apenas 15 minutos no trajeto, seriam necessárias despesas astronômicas e obras agressivas (em especial, grandes túneis). Na China, que entrou recentemente no clube dos países com TAVs (e tem planos para construir a maior malha do mundo), um acidente com 35 mortes, em julho, despertou uma onda de críticas (inclusive pelas redes sociais) e forte mal-estar entre o Partido Comunista. Além das constantes falhas na operação, alega-se que o preço das passagens é acessível apenas a uma minoria. Na Inglaterra, o anúncio recente de uma linha ultra-rápida está suscitando o debate sobre a alternativa de modernizar, ao invés disso, a rede regular já existente.

Em entrevista recente a Carta Capital, a presidente Dilma Roussef apontou uma vantagem adicional do sistema ferroviário: o descongestionamento das grandes áreas urbanas. Um trem confiável permitiria morar confortavelmente a, digamos, 60 quilômetros de São Paulo ou do Rio, e deslocar-se todos os dias para trabalhar em uma das metrópoles. Esta possibilidade reanimaria cidades hoje estagnadas. Mas, também por isso, não seriam mais convenientes trens rápidos comuns (com velocidade de, digamos, 200 km/h?), que podem fazer mais paradas? (para conservar-se em alta velocidade, o TAV precisa reduzir ao máximo o número de estações servidas).

No Brasil, há um verbete bastante rico sobre o projeto do TAV na Wikipedia. Uma Frente Parlamentar das Ferrovias procura garantir, no Congresso, recursos para a recuperação e reconstrução da malha ferroviária brasileira. Outras Palavras teria satisfação de animar um debate a respeito.

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4 comentários para "Trem-bala: em busca de alternativas"

  1. Antonio,
    Um dos problemas na luta pela recuperação da Malha Ferroviária Paulista, é que nem prefeitos e nem vereadores do interior e do litoral estão entrando nessa briga. Não entendem ou não se interessam pelo uso das linhas em operação ou pela revitalização das linhas desativadas para proveito do transporte de cargas produzidas ou consumidas em suas cidades pelo modo ferroviário, e menos ainda pelo transporte de pessoas.

  2. César disse:

    Sou a favor da construção do trem bala, os aeroportos estão deixando a desejar e o Brasil precisa explorar mais sua capacidade de locomoção entre as duas maiores cidades do país,

  3. Luiz Carlos Leoni disse:

    Prezados, bom dia.
    Com relação a este tema, esta é uma iniciativa do governo federal do PT, em que a presidenta Dilma deseja que tenha prioridade, contradizendo a própria diretriz do discurso, no tempo em que eram oposição, com criticas que na época eles consideravam de “obras faraônicas do regime militar”.
    Tal decisão se contrapoem aos acontecimetos relatados diariamente, como descarrilamentos de trens e acidentes em muitos dos locais do Brasil, como no Piaui e tumultos e superlotação diária no RJ e em SP.
    Tambem proponho uma uniformização da bitola em 1, 6 m para trens de passageiros e metro com base de que ela já esta presente nas principais capitais e cidades brasileiras, como: S. Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Brasilia e projetos como em Curitiba e Fortaleza.
    Uma forma racional e econômica de padronização de trens de passageiros no Brasil, é a substituição gradativa com o aproveitamento de composições como as 12 colocadas recentemente em disponibilidade pela CPTM-SP (36 carros) que se encontram em bom estado e já na configuração padrão.
    Com relação a um trem de passageiros de longo percurso no Brasil, entendo serem necessários, porém um modelo convencional em média velocidade, TMV no máximo de 180 km/h, aproveitando parte da estrutura existente, em bitola de 1,6 m e alimentação elétrica em 3 kVcc semelhantes aos projetos do governo paulista de SP-Campinas, SP-Sorocaba, SP-Vale do Paraiba, SP-Santos com uso de cremalheira, com um custo extremamente menor, e de implantação gradativa, com material 100% nacional.
    Finalizando informo que modelo semelhante a esta forma de TMV é o que esta sendo implantado na Argentina, com custo extremamente menor.

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