Identidade San

Eles já não são nômades nem caçadores, como seus antepassados da Botswana. Mas mantêm a relação com a arte, que ressurge com traços de pintura contemporânea

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Dispersas pela África austral, pinturas rupestres datando de milhares de anos traduzem os primeiros passos do homem em direção à comunicação abstrata. A grande maioria é atribuída ao povo San, nômades caçadores considerados os primeiros habitantes da região e que nos dias atuais vivem espalhados em vilarejos pelo deserto de Kalahari, no Oeste da Botswana. Sua cultura se mantém viva, porém eles deixaram de ser nômades e também já não vivem da caça, por causa de polêmicas leis do governo proibindo a atividade. Mas nas mãos de algumas dezenas de pessoas uma forte reminiscência San prevaleceu: o apego e o dom da arte.

Uma avenida asfaltada sai da estrada principal que liga o sudoeste ao noroeste do país para, dois quilômetros depois, encontrar, perpendicularmente, uma única rua de terra. O T formado pelos dois caminhos e algumas dezenas de casas ao seu redor formam o mapa completo de D’kar, vilarejo onde hoje se concentra uma população de 943 habitantes, fora alguns visitantes de passagem, todos San. Em uma das duas esquinas existentes na cidade uma placa chama a atenção: ‘Kuru Art Project – Contemporary San Art’.

Ali, ao redor de uma árvore, duas casas de madeira. De um lado, uma loja de artesanato e um mostruário de obras. Do outro, um escritório e um estúdio. Passando pela porta do último cômodo, logo na entrada da sala, uma senhora de trajes coloridos e touca vermelha está sentada no chão e, sem se incomodar com a pessoa estranha no ambiente, continua molhando o seu pincel em uma tampa cheia de tinta e passando-o vagarosamente por cima dos traços desenhados a lápis na tela. De pé, com o cotovelo apoiado na única mesa da sala, um homem bate papo com uma segunda senhora, enquanto usa o outro braço para dar cor ao seu quadro. Ela, no chão, sentada sobre si mesma do outro lado da sala, também está no meio do processo criativo. De trás de um pequeno móvel surge uma voz arrastada. E só chegando bem perto para ver que ali está uma senhorinha ainda mais miúda do que o próprio objeto que a esconde. A sensação é de estar olhando para uma relíquia. E de suas mãos, seus pincéis e sua tinta começa a nascer um quadro de arte contemporânea.

Continuando a tradição de seus ancestrais e incorporando a ela novos toques, o estilo artístico desenvolvido na aldeia de D’kar é único no mundo. Através do uso de materiais e técnicas modernas, os artistas trabalham com pinturas a óleo, litografias, xilogravuras e gravuras com água-forte, abordando sobretudo a temática da identidade San, circulando entre as saudades do passado e as expectativas do futuro. Entre representações de animais, plantas e desenhos assimétricos, os artistas contam histórias com o pincel. “Arte é como política na sua mente. Você sonha com tantas coisas, escuta tantas histórias… A arte é colocar tudo isso junto em um só lugar, dando-lhe um significado a tornando tudo visível, elucidou Thama Kase (Thamae Kaashe), uma das pintoras.

Os artistas, que já exibiram seus trabalhos em diversos países do continente africano e em doze países fora dele, são todos membros do Kuru Art Project, projeto gerenciado pelos próprios habitantes para gerar renda aos membros da sociedade e preservar a cultura local, formando uma identidade San contemporânea, ao mesmo tempo profundamente conectada com suas raízes. Consideração melhor explicada nas palavras de Coex’ae Qgam (Dada): “Eu não me vejo apenas como mais uma artista. Ser uma artista é a minha herança. É parte de mim, tanto quanto ser San é parte da minha existência”.

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