Não só no Rio Doce, não só em Belo Monte: a incrível história dos peixes dizimados

Notícia sobre morte de toneladas de peixes no Rio Xingu convida país a refletir sobre  uso de seus recursos hídricos; matança e contaminação não são excepcionais

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em Altamira e Vitória do Xingu (PA), 16 toneladas de peixes morreram durante a formação do reservatório da Usina de Belo Monte. A multa para a Norte Energia – consórcio formado por Eletrobras, Chesf, Eletronorte, Petros, Funcef, Cemig, Vale – foi de R$ 8 milhões. A notícia foi divulgada no sábado: “Belo Monte é multada em R$ 8 milhões por morte de peixes“. Os pescadores estão entre os mais afetados pelo megaprojeto desenvolvimentista no Rio Xingu.

Alguém notou o nome Vale entre os acionistas da Norte Energia? (Vivemos em um país onde os meios de comunicação não citam os nomes de acionistas.) Pois a maior catástrofe socioambiental do país no Século 21 também leva a assinatura indireta da Vale, dona de 50% da Samarco. Assim como em Belo Monte, o problema na bacia do Rio Doce não se restringe aos peixes. Mas estes também foram vítimas em grande escala do rompimento da barragem em Mariana (MG). Quantas toneladas? No fim de novembro, onze. (Quem atualizará esse cálculo?)

No Maranhão, em 2011, 62 toneladas de peixes morreram durante a fase de testes da Usina Hidrelétrica de Estreito, conforme reportagem do projeto Justiça nos Trilhos: “Vale integra consórcio que causa mortandade de peixes, miséria aos pescadores e privatização da água em Estreito“. O consórcio que controla a UHE é controlado pelas empresas Alcoa, Camargo Corrêa, Suez Energy e Vale. (É ela mesmo, a Vale que já foi do Rio Doce.)

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Rio Doce, em novembro (Foto: Leonardo Merçon/Últimos Refúgios)

AO LONGO DO TEMPO

Em 2013, o Ibama confirmou a morte de 11 toneladas de peixes no Rio Madeira, durante a construção da barragem da Usina de Santo Antônio: “Usinas do Madeira são acusadas de aniquilar cardumes“. Multa: R$ 7,7 milhões. O consórcio é formado por Furnas, Odebrecht, Saag Investimentos, Cemig, Caixa Econômica Federal. Com verbas do BNDES, dinheiro do FGTS.

Não se trata apenas, portanto, de ações isoladas e distraídas de um grupo isolado de empresas, privadas e públicas. Em sim de um determinado modelo de desenvolvimento, patrocinado pelo Estado – seja qual for a agremiação partidária que esteja em seu comando. Tomem qualquer governo eleito democraticamente, nos últimos 26 anos, ou os governos usurpadores constituídos anteriormente, que veremos a mesma lógica de destruição em nome do “progresso”.

Os peixes dizimados e contaminados não são os únicos afetados, mas representam bem esse processo. A morte deles é reflexo de um determinado modelo de apropriação dos recursos hídricos. Onde as comunidades tradicionais (como os pescadores, povos ribeirinhos) costumam ser escanteadas pelo Estado para a utilização imediatista e caótica desses recursos por uns poucos eleitos – não é só o nome da Vale que se repete ao longo das notícias.

AO LONGO DO TERRITÓRIO

E não é preciso muito esforço para identificar notícias recentes de morte de peixes, por todo o território brasileiro. Ainda no Espírito Santo, sem relação com a contaminação do Rio Doce, o projeto Peixe-Guia identificou contaminação por metais no Rio Jucu, em Vila Velha. Motivo: o esgoto sanitário: “Pesquisa revela que peixes do Rio Jucu estão contaminados por esgoto“.

As notícias são dadas isoladamente, sem coesão. Tomemos o caso do Mato Grosso. E este título da imprensa local, em outubro: “Rio das Mortes pode estar contaminado com mercúrio e agrotóxico apontam pesquisadores“. A informação é do professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso, uma das vozes mais atuantes no Brasil contra o uso indiscriminado de agrotóxicos.

O G1 noticiou em dezembro que os peixes do Rio Cuiabá também podem estar contaminados pelo esgoto e pelo lixo, mas também por chumbo, cobre e pesticidas – novamente os pesticidas. Mas apenas regionalmente, na edição do Mato Grosso. Número de compartilhamentos no Facebook? Zero. Muito embora se trate também de saúde humana. (A repórter pergunta ao biólogo: “Este peixe pode ser consumido?” E ele: “Olha… É… De uma forma geral não.”)

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