Os Condenados: último capítulo da trilogia de Oswald

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141104_seloOswald3“Pela primeira vez alguém lhe falara que havia um mundo, a pátria organizada de todos os revoltados, de todos os oprimidos, de todos os condenados da sociedade burguesa”

 

Por Oswald de Andrade | Imagem Diego Rivera

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TEXTO-MEIO

No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publicou semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os outros capítulos.

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Na sequência anterior, naquelas manhãs iguais, Jorge d’Alvelos nutre uma sensação de desesperado abandono. Uma necessidade de realizações aperta-lhe a alma. Carlos telefona de São Paulo. Não havia ainda decisão alguma. Talvez lhe ocultassem uma condenação. Batem na porta. É Mariinha. Numa língua confusa, transmite um recado: não descesse, havia gente de fora na ilha. A natureza clareia indecisa. A silhueta vigorosa de Quim João grita-lhe uma boa nova: foi tudo favorável em São Paulo. Uma noite parte na lancha de Quim João. Em Santos, já em terra, despede-se do marinheiro. O trem parte às seis horas. No atelier a procissão das figuras esperava-o na postura das criações. Põe-se a trabalhar. Em duas semanas termina uma estátua de Gulnare. Visita Nora. Ela conta-lhe que está para se casar, mas antes quer lhe dar uma despedida do amor. (Theotonio de Paiva, editor de Oswald 60)
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Tomou o trem para Santos. Iria de novo à Ilha Verde, agora como um visitante qualquer.

Nas estações intermediárias, foi descobrindo toda uma vida de pequeninas existências, samburás coloridos, vasilhas de leite, cestas de frutas. Surpreendeu apostolados, a professora, o lavrador de subúrbio.

Chegou quase noite. Decidiu não procurar Claro Dutra que perturbaria o seu silêncio.

Havia lua no céu. Foi à Ponta da Praia. Tomou a lancha de Quim João onde os ajudantes o serviram alegremente. Afastaram-se pelo mar.

O hálito das estrelas descia. A lua enervava a terra.

O artista perdia-se no toldo, junto ao mastro.

Visões lunares começaram a espiá-lo dos rochedos extáticos. Vinha-lhe agora uma vontade antagônica de refugiar-se na sensualidade que lhe prometia a frágil resistência de Vitória Agonia. Lembrava-se à aproximação da ilha das coxas elásticas e brancas enfaixadas nas calças estreitas de algodão que vira nos brinquedos.

Os marítimos assobiaram. Uma débil luz anunciou a velha casa. Chegaram. A cozinha encheu-se de rumores. As crianças acordaram. O fogo ardeu para o café.

Vitória Agonia falou-lhe baixinho, saudosa, feliz. Uma sentimentalidade represada estuou efusiva à lareira do enegrecido quarto.

*-*-*-*-*

Jorge saiu só para o luar do céu benfazejo. As ondas cantavam sob o êxtase da lua.

Voltou ao chalé. Vitória Agonia pusera flores silvestres sobre a mesa.

Ficou pensativo, recostado ao leito. E súbito uma crise nervosa acordou nele. Um frenesi feito de desamparos torcegava-lhe o corpo até as unhas, eletrizadas.

O mar longínquo cantava tudo o que morrera.

*-*-*-*-*

Voltou para Santos na lancha aparecida às quatro horas.

A tarde perfumou de luz os morros, esverdeou o mar, esfriou a terra. Tudo enegreceu num pontilhamento de luzes.

*-*-*-*-*

Ao subir a serra, sentiu a vida penosa do coração, o órgão há tanto tempo lesado. Regressou a São Paulo, ao Clarim e a Gulnare.

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Ela vingara todas as outras.

Um pessimismo mortal invadiu-o. Que fora ele sempre desde o nascimento? Tinha sido aproveitado para todos os interesses alheios. Tinham-no ludibriado. Tinham-no despido a pouco e pouco das alegrias da existência.

*-*-*-*-*

A palavra Revolta veio de repente brotar-lhe à fonte seca da alma.

*-*-*-*-*

Carlos Bairão e a desconhecida tinham subido de automóvel a Sant’Ana e procurado o Clarim. O amigo devotado conduzia uma mulher magra, amarela e escultórea até o refúgio onde Jorge tentava renascer num alento desesperado. Tinha-a descoberto no barulho de uma redação de jornal.

*-*-*-*-*

Discutiam no atelier.

– Tudo está errado. Não só a sua arte, como a sua vida. Carlos Bairão ria.

– Somos um setor atrasado da luta de classes.

A Mongol sentara no vasto divã. As duas maçãs ósseas sorriam uma simpatia amorosa por dentes agudos e alvos.

– Grandes desviados! Que fizeram aqui vocês, enquanto nós transformamos o mundo?

Jorge sentara-se a seu lado, alegre, feliz de se penitenciar:

– Preguei um tiro no peito.

*-*-*-*-*

Seria ela a companheira de que precisava? A que lhe tinham prometido todas as efusões mal compreendidas? Seria ela?

– Que figura espantosa!

De novo só, a um canto do atelier que falava no silêncio, ele se sentiu subitamente persuadido. Chamavam-na somente a Mongol.

Era uma revolucionária militante ligada ao subterrâneo humano da Terceira Internacional.

Tomara o poder com Bela-Kun na Hungria. Fora torturada na China, atirada e ferida pela polícia burguesa nas ruas de Berlim.

Como viera até ele? Como aparecera?

*-*-*-*-*

A reivindicação sentimental precisou-se.

Com essa mulher integral, livre, renovar a vida, agora consciente.

Pela primeira vez alguém lhe falara que havia um mundo, a pátria organizada de todos os revoltados, de todos os oprimidos, de todos os condenados da sociedade burguesa.

Havia um mundo que justificava os protestos de sua vida.

A Rússia vermelha tomou conta do cérebro de Jorge.

*-*-*-*-*

Sentiu um confuso rodar de tumultos.

Estava no atelier onde viera esperar a sua nova amiga.

Pela primeira vez, alguém lhe quebrara as hipnoses ancestrais.

Pensava em partir com ela, em ligar-se ao seu agitado destino, em ser um artista anônimo da Revolução.

Pequena e dourada, ela era uma inquietação alegre e intimativa. Fizera-o ler os revolucionários sociais e conhecer os pintores murais mexicanos.

Discutira com ele. Chamara-lhe pequeno-burguês lancinante. E ele – “o grande d’Alvelos” – identificara-se subitamente. Era de fato uma formação feudal desarrazoada e monstruosa em pleno século XX.

Os seus casos com Alma e Mary Beatriz, a sua arte abstrusa, Nora, as suas esculturas retorcidas, o seu soturno apartamento da luta diária do mundo, o que era tudo isso senão recalques, aspirações e sofrimentos de uma subclasse do mundo feudal capitalista que o Brasil ainda não liquidara? Mais nada!

*-*-*-*-*

– Que fizeram vocês aqui, enquanto transformávamos a terra?

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O seu atraso sobre os horários do mundo precisou-se. Pensou com acanhamento em afrontar agora, nas definitivas batalhas, a confusão agitada dos renovamentos humanos que a revolução social indicava. Sentia-se pequenino, provinciano, fechado.

Ela insistia em transformá-lo.

– Não quero que fiques só um artista. Quero te dar a consciência de tua pobreza, do teu trabalho e das tuas lutas contra os exploradores da vida!

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Essa angústia boa do amor que não sabe, do amor que espera. Ele a sentia. Parecia-lhe que amava pela primeira vez. Talvez não tivesse nunca amado assim.

Mas a sua vida rica voltava aos pedaços. Era ele. Sentia ser impossível matar imediatamente nele o indivíduo de classe. O romanticismo, a exaltação aventureira do eu segui-lo-iam.

Via de repente como ela tinha razão em não ceder ao alumbramento, em não transformar a euforia em vertigem. Acabariam num delírio burguês. E no cansaço inútil. Como era melhor dar tudo à ideologia. Sacrificar conscientemente o que seria de fato o amor. Pela revolução.

*-*-*-*-*

Mas a sua formação reacionária resistia.

Às vezes surpreendia-se ensimesmado, trágico, absurdo.

Um sentimento de recuo vinha-lhe dizer que continuasse levando resignado e sozinho a cruz da família, pelos velhos caminhos de cardos.

Apertava-lhe, porém, de súbito, o coração a lembrança dos pais pobres nas aflições da sua infância. Pensou no avô todo branco que o carregara criança. Pensou em Alma, vítima sangrenta do capitalismo. A burguesia impiedosa, pela mão de seus justiçadores – cáftens e usurários – estraçalhara-os sem hesitar.

A Mongol tinha razão!

*-*-*-*-*

Ela recusara todos os artifícios do amor em que ele costumava se embrenhar – mensagens íntimas, torturas, sacrifícios.

Batera as pálpebras langorosas nos seus braços, despida e cálida, numa noite longa de atelier.

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As horas caíam. O crepúsculo abatera lentamente as linhas, os relevos, os contrastes.

Do grande grupo central, os cavalos sobre-humanos, extáticos, se haviam despregado do solo e marchavam para a sombra.

Ele perturbava-se sozinho no caos palpitante. Como? Como? Seria possível acompanhá-la?

Saiu. Fora, numa cruciante significação coral, havia estrelas e fanfarras.

*-*-*-*-*

A Mongol não viria. Seguira para as fazendas negregadas do interior. Sumira no trabalho fervoroso da agitação.

– A questão sexual é secundária – gritou-lhe partindo numa madrugada silvestre.

E a luta dentro de Jorge fizera-se doentia. Como se julgava fraco para a transformação que exigiam dele!

Deus voltara. A sua formação religiosa o assombrava ainda. O seu sentimentalismo protestava contra o desamparo frio em que ela o tinha jogado, para servir um rival mais forte.

Caminhou o dia todo sentindo um gosto de desgraça na boca sem beijos.

*-*-*-*-*

As raízes do seu ser mergulhavam no avesso da natureza. Amarraram-no pelos pés, como um fuzilado, para arrastá-lo.

Lá ia ele… Subiam-no agora. Ele sentia frestas de comunicação com a natureza desenfeitiçada. Queria varar por elas, não podia. Súbito, o homem que estava quieto e abstrato no trem ao seu lado gracejou num gesto desenvolto e patusco. E veio dar-lhe a mão, atencioso e imperativo. A mão pesada agora apalpava-o, prendia-lhe um pedaço de carnes num aperto brusco e crescente. A própria mão crescera e ameaçava rebentá-lo.

Jorge moveu a cabeça dura nos travesseiros do atelier, ajeitou-se melhor.

E, num assombro antigo, viu que tinha consigo, viajando no mesmo banco, Mauro Glade, o cáften de Alma.

O trem em que iam, devorava os trilhos lá fora procurando a manhã.

Foram assim longamente, tristemente, lado a lado. Pressentiam-se solitários, irmãos, numa mútua angústia e numa invencível hostilidade.

Jorge falou:

– Creio que nos encontramos outra vez num trem.

– É verdade – respondeu o outro com a voz metálica. O seu ríctus desenvolvera-se pelo corpo todo. Era um ser adunco, paralisado numa ironia que perdera o sentido.

– Ela morreu – fez Jorge.

Mauro Glade dobrou a velha cabeça canalha e disse que ia lhe fazer uma pergunta. Jorge sentiu uma aflição vibrar em todo o seu ser, desmantelar num segundo o seu peito forte. O homem sussurrava:

– Quem a matou?

– O amor.

O homem adunco tirou o feltro mole e negro. Estava encanecido. Readquiriu num minuto a feição insultuosa e gelada com que se revelara a Jorge na estação perdida da ferrovia antiga. Disse metálico e lento:

– Foi o capital!

Os outros passageiros dormiam na penumbra do vagão em marcha. Uma mulher ressonava pela boca aberta num banco.

Jorge sentiu que pairava longe, para lá da felicidade burguesa, no país dos sovietes.

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Os amigos trouxeram-no para a casa do Castro, trágico, esgazeado, sem colarinho. Haviam-no encontrado desfalecido no divã do atelier.

Na caminhada pelo jardim, carroças passavam tocando como bombos.

Colocaram-no sentado na grande sala de frente.

Estava pálido e sorria para a irradiação do vulto de Gulnare.

Uma porta de ferro fechara-lhe o peito. Não podia mais falar. Já se haviam reunido os seus condenadores. Por quê? Por que tinham vindo perturbar o enorme conclave?

Olhou melhor. Gulnare chorava num lenço agarrada a Rita. Havia uma bacia no chão. Carlos falava-lhe alto. Não! Era a mãe, pequenina, ressuscitada que o abraçava e fazia propaganda reacionária!

– Que aflição, meu filho! Que aflição!

Lá dentro ia uma dor infinita de tudo.

E a mãe chorava perguntando-lhe. – Se não houvesse Deus, filho, que nos restaria a nós, pobres seres sem força, na torrente monstruosa que vês?

Ele pesquisava o drama obscuro dela, da progenitora ignorada, esquecida, morta.

Uma efusão de lágrimas subiu, estalou-lhe nos olhos, na garganta. Ele ajoelhou-se ao canto escuro de uma igreja escura.

Ampararam-no.

*-*-*-*-*

Tinham-lhe tirado a verônica com os dedos molhados, arrancando-lhe a pele aos poucos, dos olhos, do nariz, da boca.

Ele viu multidões revolucionárias, agitadas, confusas, longínquas.

E sentiu mais uma vez o degelo sagrado.

*-*-*-*-*

O camarada Deus num imenso macacão veio sentar-se à sua cabeceira e falou-lhe declamatoriamente:

– Porque te nobilitei, dando-te a vontade livre, te rebelaste contra mim, renovaste, no pequeno cenário perdido de tua vida, a tragédia dos Arcanjos!

– Senhor, foi a primeira luta de classes…

– Os homens mesmos deliberam os seus infernos.

– Que é necessário fazer então?

– Sofrer.

– E depois?

– Serás conduzido entre sepulcros alados, verticais, até os primeiros degraus da eternidade conquistada!

Jorge olhou e viu a manhã destacada da terra.

*-*-*-*-*

Estava exausto, semimorto. A síncope tenaz e o delírio se tinham revezado nove vezes durante a noite.

Acordara com Castro junto à cama. Rita fora deitar-se trágica. Passara a noite insone ao seu lado, vendo-o morrer.

Durante o dia escuro, fizeram vir um médico que o auscultou demoradamente. A crise durou cinco dias. Estava salvo. A taquicardia fora debelada.

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Rompera-se nele o abscesso da divindade. Sentia que se despregara do seu cérebro qualquer coisa na doença. Estava chupado e sem forças.

Mas deixara o seu mundo de absurdos.

Convalescia. Esperava a Mongol.

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Mantinha na sua mão a mão enluvada da moça, agradecido dela ter vindo.

Ela perguntou enterrando-lhe os olhos nos olhos:

– E agora? Queres lutar?

– Quero.

– Não uma luta interior e desgraçada, num setor imaginário. Com uma arte doentia por desabafo.

– E o amor?

– Não nego que a nossa exaltação seja boa. Dá um preço enorme à vida. Amo-te, Jorge. Mas se parássemos nisso teríamos nojo de nós mesmos.

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Tivera uma cura total, ao lado dela. Saíam, viajavam, conhecendo caminhos, cidadezinhas e pequenos hotéis e deixando por onde passavam manifestos vermelhos. A crise mental fora debelada com a crise física. Viveram dias perfeitos. E uma tarde, corajosa e simples como viera, a moça agitadora partiu.

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O amor não era mais para ele uma divagação de desocupado, um divertimento de classe.

Gulnare e Rita tinham desaparecido e com elas todas as referências artificiosas do passado.

Ele compreendia agora, no silêncio ativo do atelier, que toda a sua vida tinha sido feita das aspirações e dos sofrimentos de uma subclasse, num reduzido ambiente semicolonial da América portuguesa.

Essa convicção o desenfeitiçava. O velho sentido bruxo e torvo da arte desaparecera. Revia nele mesmo e nas suas criações as torcidas íntimas, os desejos obscuros, os sonhos sexuais e enfim as soluções estéticas e místicas da pequena burguesia. Que fora afinal a sua vida senão o reflexo erótico e religioso de uma classe média de cidade industrial, nas flutuações do após-guerra? O exílio anarcóide e a psicose deísta depois da carnificina mundial do ano 14. Acuado no plano estético, ele fora apenas um pequeno-burguês liberado e dramatizante nas malhas angustas do país feudal.

Declamara, fizera tolices trágicas. E acabaria em Deus ou num hospital se não se tivesse superado.

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Jorge d’Alvelos criticava-se. Fora preciso uma mulher para fazê-lo mudar, descobrir exatos caminhos revolucionários. Fizera-se nele o processo mórbido de uma geração, desviada no cenário longínquo e colonial do Brasil, bestificada pelo recalque sexual que o feudalismo e a igreja mantinham, ignara e romântica, doentia, tarda e tímida.

Estava preparado decerto, por toda a sua vida de revoltado, a receber a semente. Mas se a Mongol não viesse, talvez sua existência não conhecesse nunca o sentido heroico de seu tempo. Conheceria por outros caminhos?

A sua adesão ao marxismo não dissimulava esse lado apaixonado que ele punha em todos os devotamentos. Ele era assim, formara-se assim. Só assim se podia ter sinceramente agregado ao socialismo antirromântico, calculado e construtor. Romanticamente.

A realidade da luta se encarregaria de transformá-lo.

Pretendia melhorar, procurava agora, numa descoberta emotiva e sensacional, os ambientes que desprezara na sua cretina aristocracia de artista. Lentamente se lhe revelou, face a face, o mundo dividido em duas classes – a dos exploradores que ele tantas vezes servira e a dos explorados que àqueles se engrenavam numa luta de todas as horas, mantida pela incerteza, pela miséria e pela revolta.

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Afinal tudo lhe aparecia bem nítido.

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A religião e a arte eram tóxicos para as massas proletárias, para as massas pequeno-burguesas. Ele mesmo se envenenara dando à tragédia capitalista de Alma uma repercussão falsa e torturante, que o levara a tentar o suicídio no Palácio das Indústrias. Que tinha sido Mary Beatriz senão a pequeno-burguesa típica, literária e viajada?

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Desfazia assim, despregava das paredes emboloradas do espírito, os velhos retratos queridos.

E experimentava um descanso enorme em compreender.

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Sentia-se um homem como os outros. Pela primeira vez vira partir uma mulher que amava, sem montar teatralmente um mito cerebral. Descia de Sant’Ana todas as tardes. Através do antigo formador do Palácio das Indústrias, conseguira penetrar nos sindicatos operários. Auscultava assim pela primeira vez a massa ululante e confusa, agitada e desperta pelos golpes revolucionários que se sucediam no país.

Sentia-se ainda místico. Ia aos comícios como antigamente ia à missa. Mas o materialismo caminhava na salvação do seu ser humano. Suas pretensões eram mínimas. Sabia que os pequenos-burgueses, orientados para o marxismo como ele, por um acidente, só poderiam seguir a reboque do proletariado como antes tinham vivido nas águas do capitalismo.

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Faltava-lhe isto – a perseguição política!

Preso na praça pública emocional de um 1º de maio no Braz fora solto depois de passar duas noites agitadas e insones com dez camaradas num cárcere sórdido.

Os amigos tinham intervido. Mas a repressão continuava. A Ordem Social que permitia a subversão ativa feita pelos grupos burgueses, aguçada na luta dos interesses imperialistas, que permitia as organizações conspirativas regionais e a existência daninha dos grupos anarcóides, era um castelo montado contra o espectro de Marx e de Engels.

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Um tira sinistro, avinhado, com uma bengala grossa na mão, procurara-o numa reunião dos Operários Gráficos.

Avisado, ele conseguira escapar pela escada, logo depois do homem sair. Queriam atirá-lo como agitador no presídio marítimo de uma ilha ou no exílio hostil de qualquer porto sul-americano.

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Na noite rumorosa e comum de São Paulo, com rádios, alto-falantes, ajuntamentos e sorvetes, ele caminhava perseguido. Esperava a toda hora ser interpelado, preso. Parecia-lhe que todos sabiam a sua história. Tomou na Praça João Mendes um bonde amarelo que descia para Santo Amaro.

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O bonde sobre sapatos de aço atravessou bairros adormecidos.

Havia chegado à vila, sem incidente. Seriam onze horas. Bilhares e bares abriam ainda portas mortas para o largo provinciano da igreja.

Automóveis alinhavam-se a um canto.

Jorge aproximou-se instintivamente.

Um chauffeur baixotinho, quase preto sob a casquete de couro e a capa, aproximou-se também.

– Boa noitel Quer ir à Represa?

– Não. Quero fugir.

Aquela confissão, brotada do subconsciente do artista, não espantou o homem.

– Estou às suas ordens.

– E para onde você me leva?

– Para a minha casa.

– Mas você não me conhece.. .

– Que é que tem? Eu trabalho toda a noite. O senhor pode dormir na minha cama.

– Eu estou perseguido como comunista. ..

– Não faz mal.

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O carro gasto, de molas guinchantes, a capota rasgada, onde o vento da noite barulhava, rodou por uma estrada acesa e deserta. Depois tudo escureceu. Passaram aglomerações de casas silentes.

Jorge recusara a oferta generosa.

O homem mal sabia o que ele era, por que fugia.

Tinha combinado então levá-lo na direção da Serra do Mar. Estariam em Santos pela madrugada. Lá tomaria rumo.

Arbustos gigantescos ganhavam em escada as alturas. Caminhos estreitos ladeavam, perdiam-se entre porteiras. O cheiro da mata excitava. Às vezes um carro ofuscava a noite, passava na direção contrária.

Jorge ia dominado por uma emoção oposta ao ciclo que formara sua vida anterior. Voltara à efusão da infância, aos primeiros passos diretos, entusiásticos e líricos, numa eclosão final da sua consciência de lutador.

Quebrara-se o exílio que fazia dele um apartado da vida, um escravo dos mitos corrosivos do amor, de Deus e da arte.

Só ao lado daquele homem pequenino, que fumava no volante, a caminho de míseras casas proletárias, onde ele seria abraçado, sem se indagar quem tinha sido, Jorge sentia, através do trabalhador, uma ligação secreta com a humanidade tumultuosa que construiria o futuro.

Longos anos atrás descera aquela serra ao lado de Alma, individualista, ciumento, odioso, numa roda de meninos bonitos e inúteis.

Depois fugira sem compreender como devia lutar contra o capitalismo que o perseguia, sem saber que a vida era um choque de classes.

Era outro homem o que procurava agora comunidades ilegais, preso para sempre às cordas humanas da revolução social.

Descia na madrugada cheirosa. Um horizonte prático exaltava-o. A questão sexual, como predissera a Mongol, passara para um plano inferior, sem orgias de sentimentos, sem fantasmas e sem saudade.

Ele era apenas um trabalhador. E bastava isso para desencantar as suas antigas solidões.

Lembrou-se, com os seus olhos novos, da gente pobre da Ilha Verde. Quim João, Vitória Agonia. Iria revê-los.

As suas mais caras saudades, as suas roupas e malas, os seus retratos e os seus livros, deixara-os no Clarim. Talvez definitivamente. Talvez nunca mais pudesse buscá-los. No romantismo da sua primeira evasão política, supunha-se Aasverus.

Não tinha mais nada senão a roupa do corpo e as mãos para trabalhar.

Era um fugitivo.

Mas onde houvesse uma consciência revoltada, na luta contra a exploração do homem, abrir-se-lhe-ia sempre uma casa, uma célula da transformação do mundo.

Irmãs, irmãos, a família afinal, a família humana, jorrada nos mesmos anseios, ele a encontraria longe das trágicas convenções e das diferenças.

Poderia, assim, varar fronteiras, percorrer países de outra língua, passar continentes, cidades, granjas, matas e caminhos. Nunca seria um estrangeiro entre os condenados sociais e os oprimidos pelo capital.

Um encarvoado saci o conduzia. Para onde?

A voz do homem falou no escuro.

– Tudo gente que nem o senhor! Tem de toda raça. Alemão, Lituano, Preto, Argentino, Índio.

– Onde?

O chauffeur fez com os ombros um gesto imenso.

– No mundo do sofrimento.

FIM
da terceira e última parte d’Os Condenados

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, integra o corpo editorial de Outras Palavras. Foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem Mulheres da Boca e Histerias e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.