Inútil a chuva: quando o teatro procura as artes visuais

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Em curioso confronto entre duas linguagens criativas, peça de Paulo e Jopa Moraes busca traçar autorretrato de um pintor, de intrigante ausência e “causa mortis” incerta

Por Wagner Correa de Araujo | Imagem: João Gabriel Monteiro

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Inútil a Chuva está em cartaz na Fundição Progresso, Lapa/Rio de Janeiro.
Quinta a domingo, 20h. Até 20 de dezembro.
Duração: 120 minutos.

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No delineamento das relações entre a música e as artes cênicas e visuais, o mais referencial resultado é, certamente, a obra descritiva de Modest Mussorgsky – Quadros de Uma Exposição. Composição em que o autor traça um retrato afetivo de um artista russo, Victor Alexandrovitch Hartmann, através de dez quadros pianísticos, após a sua súbita e precoce morte, em 1874.

E é, ainda, nesta trilha formalista, o rastro multifacetado do compositor John Cage quando diz: “Tudo o que fazemos é música… Há teatro todo o tempo, onde estejamos. E a arte não faz senão ajudar a nos persuadir disto”.

TEXTO-MEIO

Neste elo singular de confronto de linguagens criadoras, em Inútil a Chuva, a dramaturgia de Paulo de Moraes e Jopa Moraes impulsiona, sonoro/visualmente, o autorretrato, também, de um pintor. De intrigante ausência, após uma carta de despedida, legando um inquisitivo eco familiar – suicídio ou morte acidental?

E a narrativa textual recria, assim, cenicamente, oito de seus quadros, numa inspirada transposição tela/palco em que as passagens plásticas se confundem com a trajetória dos personagens.

Como a viúva Lotta (Patrícia Selonk) e seus três filhos – Slavoj (Leonardo Hinckel), Claude (Tomás Braune) e Sarah (Andressa Lameu), desde a inicial e simbológica figuração de um barco nas torrentes de um rio. Nas translúcidas cores das taças de um baile ou no muralismo de uma janela envidraçada.

Além das interferências de uma jornalista, Vivian (Amanda Mirasci), que na sua investigativa escrita sobre o misterioso caso encontra o matemático e conhecedor do morto, Matthias (Marcos Martins).

Esta configuração teatral/pictórica se transforma numa pintura viva, em contrastantes paisagens cênicas que visualmente remetem a quadros específicos de uma vernissage, capazes de estimulantes sensações, como os acordes de Mussorgsky.

Ora através da ressonância do score musical ao vivo (Ricco Viana/Rafael Tavares), ora nos estados de espírito provocados pelas sutilezas luminárias (Maneco Quinderé). Ou no pincelamento dos figurinos (Rita Murtinho) e no impacto aquarelado da arquitetura cenográfica (Paulo de Moraes/Carla Berri).

Embora o enredo dramatúrgico torne-se, às vezes, abstrato e irregular diante da prevalente virtualidade plástica e de um discurso acentuadamente fragmentário, em torno deste núcleo familiar metaforicamente caotizado. Ainda que os caracteres de personalização sejam bem delineados na convicção matriarcal de Lotta, nas incertezas de Slavoj, nas provocações de Claude e Sarah, nas dúvidas de Vivian, na espontaneidade de Matthias.

Mas onde, mesmo com este visível confronto entre o teor dramático e a imanente estética visual, está presente a habitual contundência e não faltam as rédeas firmes de Paulo de Moraes, reiterando a permanência transcendente da Armazém Cia de Teatro.

TEXTO-FIM
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Wagner Correa de Araújo

Jornalista especializado em cultura, roteirista, diretor de televisão, crítico de artes cênicas. Dirigiu os documentários "O Grande Circo Místico" e "Balé Teatro Guaíra 30 Anos" . Participou como critico e jurado de festivais de dança e cinema, no Brasil e na Europa.