Missa para Clarice: liturgia da palavra literária

Em busca da espiritualidade universal, entre sacra e profana, peça constrói ritual para “mistérios e milagres” de Clarice Lispector

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Eduardo Wotzik, ator e diretor

Por Wagner Correa de Araújo | Imagem: Ricardo Brajterman

Estudo para Missa para Clarice – Um espetáculo sobre o homem e seu Deus

Em cartaz, no Rio de Janeiro, até 2 de Maio

De quinta a segunda, às 20 horas

Teatro Glaucio Gill – Pça. Cardeal Arcoverde, s/nº [mapa] – Fone: 2332.7904.

Duração: 80 min. Classificação: 14 anos

Os autos sacramentais e os mistérios, iniciados com as passagens evangélicas teatralizadas da vida de Cristo, ultrapassaram, especialmente a partir do período barroco, a sua mera singularidade de tradição religiosa medieval.

Sua simbologia alcança, assim, uma composição dramática cerimonial de estrutura alegórica, entre o sacro e o profano. Para celebrar o mundo, a natureza, os sentimentos humanos, além de todos os dogmas e rituais religiosos, numa transcendente espiritualidade universal.

É este o grande lance de dados da concepção dramatúrgica de Eduardo Wotzik em Estudo para Missa para Clarice – Um espetáculo sobre o homem e seu Deus. Ao desnudar a profundeza filosófica e a subjetividade psicológica dos conceitos abstratos da obra de Clarice Lispector, através de uma extasiante liturgia cênica.

“Será que Deus sabe que existe?” Esta metafórica imagem é um enunciado dos segredos que marcam Clarice e seu Deus. E já no prólogo do missal, a trajetória da santificação é induzida pela mensagem amorosa da Macabéa, a protagonista/mártir de A Hora da Estrela:

“Na pobreza do corpo e do espírito eu toco na santidade, eu que quero sentir o sopro do meu além”.

O celebrante Eduardo Wotzik, numa expressiva entrega sacrificial, com sua “batina” atemporal de pregador, conduz o ritual “católico”. Instaurando, como um arauto, de Elêusis ou de Cristo, a cerimônia dos mistérios e milagres de Clarice.

Neste seu desempenho de ator/diretor/mensageiro do divino, manifestado na contemplação da palavra interior, ele conclama a participação da plateia de fiéis nas preces da bem aventurada Lispector – “Eu só rezo porque palavras me sustentam. Eu só rezo porque a palavra me maravilha”.

As atrizes Cristina Rudolph e Natally do Ó, como acólitos do diácono protagonista, em suas breves intervenções, estabelecem um imanente clima dialético com os espectadores/devotos das benditas espiritualidades da escritora.

O intensivo impulso criativo da direção de arte (Analu Prestes) acentua cada instante cenográfico desta envolvente epifania da palavra literária e do gesto teatral sacralizados.

Onde o desenho das luzes (Fernanda e Tiago Mantovani) alcança um maneirismo barroquizante, entre brumas e sombras de refletores e velas.

E os acordes melancólicos da elegíaca Sinfonia nº 3, de Gorécki, com seus cantos de dor, conduzem ao clima místico idealizado.

Capaz, enfim, de estabelecer um ritual coletivo palco/plateia (sacro>espiritual>profano>físico) de comunhão estética e louvação, entre as parábolas e prédicas de Clarice:

“Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença… Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase… Receba em teus braços o meu pecado de pensar”.

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