Porém, já nascemos livres

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Como uma comunidade terapêutica dissolve relações usuais de família, lar e propriedade para criar vida comum e superar neuroses sociais

Por Katia Marko, editora da coluna Outro Viver

Ser feliz é a maior coragem. Todo mundo é capaz de ser infeliz. Para
ser feliz é preciso coragem, é um risco tremendo”.
Osho

Viver na Comunidade Osho Rachana é um desafio ao senso comum. Num dia desses, colegas de trabalho me sabatinaram sobre a minha escolha de vida. Ao final, um deles relatou que possui três casas geminadas para aluguel em que seus moradores não se comunicam. E assim é o “normal”. Pessoas vivem juntas em condomínios e não sabem nada uma da vida da outra. Nem querem saber. É cada um por si. Qualquer desentendimento é motivo para nem mais olhar na cara do outro. A “culpa” não é individual, mas de um sistema que suga a essência do ser humano e nos torna intolerantes.

Na comunidade, buscamos viver em contato com nosso coração. Cada um cuida de si e um cuida do outro. Juntos, cuidamos do sítio. Dividimos tarefas e organizamos o dia-a-dia. Além de desfrutar da natureza. A natureza do corpo, que gosta de ar puro, de céu à vista, das estrelas, de muitas árvores, flores, frutas e vegetais fresquinhos e sem veneno, de banho de lago e de cascata, de caminhar na mata, de movimento, dança e brincadeira. Também tem a natureza do coração, que gosta de amigos perto pra conversar, rir, chorar, abraçar, namorar, dividir tarefas, amar. E a natureza do espírito, que se sente livre pra explorar possibilidades, pra expandir, pra compartilhar, pra crescer.

Em setembro, a comunidade completa oito anos. Não é simples manter um projeto como este por tanto tempo. Pessoas se foram e outras chegaram. Com a vinda de mais moradores, foram necessárias reformas no sítio. Novos espaços foram construídos, como o Bodhidharma, nosso centro de boas vindas. No local, funciona o refeitório, a cozinha e a recepção. Há seis anos, após muito trabalho e com a ajuda dos amigos, inauguramos a Casa do Estudante, um lindo dormitório onde moram 24 pessoas. Os “quartos” ao invés de paredes são divididos por cortinas. O closet e os banheiros são coletivos. O nome surgiu justamente da proposta de ser um espaço de aprendizado. Aprender a conviver, apesar das diferenças.

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Também temos casas, onde vivem principalmente pais e mães com seus filhos. Mas nossa divisão não é por núcleos familiares. Moramos com amigos, mesmo os casais preferem cada um ter seu próprio espaço. O “Maluco Beleza” é um estar coletivo com biblioteca, TV a cabo e jogos. Ainda temos uma danceteria para nossas festas, chamada Boozeria, o salão Ma Deva, local principal para meditações e grupos de terapia, e o dormitório para receber os visitantes e os clientes dos grupos de final de semana. Nossa estrutura também conta com uma pracinha para as crianças com casinha na árvore, uma lavanderia coletiva, um depósito com material de arte e figurinos de teatro. E, nossos últimos investimentos, um estúdio musical e uma sauna seca.

Nosso grupo é formado por pessoas que querem viver de uma forma mais plena. A maioria de nós tem um trabalho em Porto Alegre, para onde vamos e voltamos tantas vezes por semana quanto necessário. Quando estamos na comunidade, trabalhamos em algum dos departamentos (cozinha, jardins, manutenção, limpeza, escritório, projetos, etc.) por algumas horas por semana. Meditamos juntos, nos reunimos para conversar e discutir desde assuntos práticos até questões pessoais ou interpessoais que precisem de atenção. Jogamos futebol, promovemos festas e eventos, fazemos nada ao sol, caminhamos pelas trilhas, nos encontramos para sessões de Bioenergética.

Em nossa Comunidade, há pessoas com várias vivências e momentos de vida diferentes. Isto cria uma experiência de troca e aprendizado muito rica para todos nós. Há os que já meditam e trilham a estrada do autoconhecimento há trinta anos; há os que chegaram há vinte, dez ou um ano. Há as crianças e os adolescentes. Todos sempre têm o que aprender uns com os outros. Somos um grupo de amigos se atrevendo a criar uma vida diferente dos padrões convencionais.

Sigmund Freud disse que o ser humano nasce neurótico. Para o mestre indiano Osho, essa é uma meia-verdade. “O ser humano não nasce neurótico, mas numa humanidade neurótica. A sociedade à volta mais cedo ou mais tarde leva todos à neurose. O ser humano nasce natural, real e normal, mas no momento em que o recém-nascido se torna parte da sociedade, a neurose começa a funcionar.”

Como somos, somos neuróticos. E a neurose consiste numa profunda divisão. Não somos uno, mas sim dois ou mesmo muitos. Nosso sentimento e nosso pensamento se tornaram duas coisas diferentes, e essa é a neurose básica. Estamos mais identificados com a parte pensante do que com a que sente. E o sentir é mais real e natural do que o pensar. Nascemos com um coração que sente, o pensamento é cultivado pela sociedade. Nosso sentimento se tornou algo suprimido. Mesmo quando dizemos que sentimos, pensamos que sentimos. O sentimento se tornou morto e isso aconteceu por certas razões.

Quando uma criança nasce, ela é um ser que sente. Ainda não é um ser pensante. Ela é natural. Mas começamos a moldá-la, a cultivá-la. Ela precisa suprimir seus sentimentos, senão estará sempre em dificuldades. “Não chore, não fique com raiva, não grite”, dizem os pais. Ela não é aceita como ela é. Precisa se comportar de acordo com normas para ser amada. Assim o ser natural começa a ser suprimido e o não-natural, o irreal, lhe é imposto. Esse “irreal” é a sua mente e chega um momento em que a divisão é tão grande que não se pode construir uma ponte. A face original se perdeu. E você fica com medo de sentir a sua originalidade, pois no momento em que a sentir, toda a sociedade ficará contra você.

Isso cria um estado muito neurótico. Você não sabe o que quer, quais são suas necessidades reais e autênticas. Então caminha em direção a necessidades simbólicas. Por exemplo, você pode comer sem parar e nunca se sentir satisfeito. A necessidade é de amor e não de comida, mas comida e amor estão profundamente relacionados. Portanto, quando a necessidade de amor não é sentida ou é suprimida, é criada uma falsa necessidade de comida. Vivemos com necessidades falsas e é por isso que não existe satisfação.

Ter consciência da nossa neurose é o primeiro passo para buscar a integridade do nosso ser. Por isso, moramos juntos. Porque queremos nos envolver uns com os outros. As vezes cuidando, as vezes sendo cuidados, as vezes só relaxando juntos, sentindo o coração e compartilhando a vida.


Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.

Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui

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Katia Marko

Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.    Mantém o site: http://www.engenhocomarte.com.br