Os sonhos estético-políticos de Antonioni

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Começa retrospectiva completa de grande diretor italiano. Vale conhecer, em especial, fase em que, além da experimentação formal, ele vasculha temas atualíssimos como cultura pop, utopias erótico-libertárias e fraturas geopolíticas globais

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Entre os filmes que estão entrando em cartaz no país, o mais interessante, se não o mais belo, talvez seja Paterson, de Jim Jarmusch. Paterson, no caso, é o nome de um personagem (Adam Driver), de uma cidade e de um livro de poemas de William Carlos Williams. Essas três instâncias – o homem, o lugar, a poesia – entrelaçam-se lindamente nesse filme sutil e discreto.

Escrevi sobre ele quando foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Acrescento apenas que um dos encantos que Paterson proporciona é o da sua própria construção narrativa não-consecutiva, mas circular, ou antes em espiral, com as mesmas situações cotidianas sendo retomadas com ligeiras variações, cada vez num novo patamar.

Mais do que exibir uma coesão estética notável, com seu ritmo musical e suas “rimas” internas, esse método de composição é a tradução audiovisual de toda uma percepção poético-filosófica do fluxo da vida, uma busca do poético no prosaico, do extraordinário no banal.

Antonioni completo

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Quando se fala em modos de apreensão do espaço-tempo diferentes daquele do cinema narrativo clássico, herdeiro do romance realista do século XIX, um nome que sempre vem à tona é o de Michelangelo Antonioni, um dos expoentes do cinema moderno. A boa notícia é que o Centro Cultural Banco do Brasil apresenta a partir do próximo dia 26 em São Paulo e no Rio uma retrospectiva completa da obra do diretor italiano. No mês que vem a mostra chega também a Brasília.

Já se tornou um clichê dizer que Antonioni é o cineasta da incomunicabilidade, do tédio, do silêncio ou da solidão. Chama-se a atenção para o que é recorrente em suas tramas, personagens e situações: casais burgueses em crise, personagens à deriva, desencanto com os rumos da vida. Mas, se esse é um aspecto importante da sua obra, refletindo a alienação e a angústia do homem urbano contemporâneo, talvez ainda mais eloquente e fecundo do que os “enredos” seja o modo como isso tudo se plasma em imagem, em organização do espaço, em exploração das distâncias entre os seres, e entre estes e os objetos.

France Cannes Maria Schneider with Michelangelo Antonioni

Maria Schneider e Michelangelo Antonioni em Cannes na França

Praticamente desde os curtas e documentários de seu início de carreira (todos incluídos na retrospectiva), Antonioni parece contrariar a tendência dominante no cinema clássico, que é a de achatar ou aplainar as distâncias por meio do campo/contracampo, “facilitando” a ação e a interação dos personagens (seja nos diálogos, nos confrontos físicos ou nas cenas de amor). Em Antonioni, ao contrário, os deslocamentos parecem árduos, toda distância tem peso e materialidade, os movimentos custam. Mesmo nos planos abertos, ao ar livre, os personagens parecem prisioneiros de uma geometria fria e implacável.

O auge desse método de construção se dá no início dos anos 1960, com a esplêndida “trilogia da incomunicabilidade” formada por A aventura, A noite e O eclipse. Nesses filmes aparece com toda a força o que Pasolini chamava de “enquadramento obsedante”, ou seja, o plano fixo, em geral de uma composição plástica rigorosa, que pré-existe à entrada em cena dos personagens e que continua após a sua saída do quadro. Como observou Deleuze, “o quadro preexistente induz um curioso desprendimento do personagem que se vê agindo”. O personagem, assim, é como que o prisioneiro de um sonho, ou pelo menos de um espaço de sonho – como nas paisagens metafísicas de De Chirico.

Asfixia na imensidão

A par desse procedimento visual, há uma espécie de “desdramatização” do enredo, com a predominância dos tempos mortos e a omissão sistemática dos acontecimentos decisivos, que ou já aconteceram ou estão por acontecer. O que resta é o impacto deles – ou sua expectativa – sobre os personagens. Ocorre portanto um mergulho na interioridade dos indivíduos, mas mediado pelo espaço circundante, que tende a ser vasto e vazio, ou quase. Há uma paradoxal asfixia na imensidão, como na parábola de Borges que mostra que o labirinto mais terrível é o deserto sem fim.

Depois da exploração em profundidade empreendida pela célebre trilogia, vem aquela que, a meu ver, é a fase mais exuberante e estimulante de Antonioni, formada por O deserto vermelho, Blow-up, Zabriskie Point e O passageiro, profissão: repórter. Tendo dominado a geometria do preto e branco, o artista salta para a exploração e experimentação das cores, ao mesmo tempo em que torna seu quadro mais poroso às contingências do mundo e do tempo: a cultura pop em Blow-up, a utopia erótico-libertária hippie em Zabriskie Point, as fraturas geopolíticas mundiais em O passageiro. São filmes que não perderam nem um pouco do seu viço e do seu poder de inquietar.

Faltou dizer que uma preocupação central que atravessa todo o cinema de Antonioni é a tentativa de ao mesmo tempo exaltar e compreender a mulher moderna, em sua complexidade fugidia, irredutível. A Monica Vitti de A aventura e O deserto vermelho, a Jeanne Moreau de A noite, a Maria Schneider de O passageiro, entre tantas outras, são faces de uma esfinge que continua a nos desafiar e a propor novos enigmas a cada reencontro. Não dá para faltar.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.