A brecha de Francisco e o muro sobre direitos gays

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Papa começa a alterar posição da Igreja sobre famílias sem casamento formal e divórcio. Tradicionalistas resistem em relação a homossexuais

Por Marco Politi, no Il Fatto Quotidiano | Tradução Moisés Sbardelotto, no IHU

O Papa Francisco abriu uma brecha. O veto da comunhão aos divorciados em segunda união vacila. Será estudada a possibilidade de permiti-la. O Sínodo muda o olhar da Igreja também em relação à coabitação. E aplaina o caminho para uma reforma para tornar rápidas e gratuitas as causas de nulidade dos matrimônios religiosos.

Mas o contra-ataque da ala conservadora foi muito forte. Os tradicionalistas de dentro e de fora da Cúria pisaram no freio sempre que possível e venceram sobre o ponto das coabitações gays. Impedindo que o Sínodo reconhecesse os valores de afetividade e de solidariedade vividos pelos casais homossexuais.

A batalha pelas reformas passa, agora, para as dioceses. Só quem esqueceu o caminho cheio de polêmicas e conflitos do Vaticano II, que durou três anos, e quem não conhece a obra paciente do Papa Paulo VI – o pontífice aberto à modernidade, beatificado no domingo em São Pedro –, que levou à aprovação final os documentos da reviravolta conciliar, pode acreditar que, em duas semanas, pudessem ser derrubados magicamente os muros de uma “doutrina inegociável”, martelada por 35 anos pelos papas João Paulo II e Ratzinger.

No entanto, o método Bergoglio, que consiste em dar plena liberdade de expressão aos padres sinodais, trouxe à tona o “centro silencioso” da Igreja Católica, levando-o a uma atitude reformadora. De fato, uma série de aberturas foram votadas com uma maioria superior aos 90%, enquanto, mesmo sobre a questão controversa do “caminho penitencial” preparatório para a concessão da Eucaristia aos divorciados em segunda união, a maioria da assembleia expressou um “sim” majoritário.

Para evitar desinformações, Francisco deu ordens para divulgar imediatamente os números das votações sobre cada parágrafo do Relatório final. Uma inovação importante depois da mordaça às intervenções na Aula, imposta pela Secretaria sinodal.

Certamente, o documento parece ser marcado pela preocupação de se remeter de modo abrangente ao magistério da Igreja, mas justamente a análise específica dos votos permite que se capte os avanços. O Sínodo reconhece “elementos válidos” também nas formas matrimoniais diferentes das do cristianismo. E, acima de tudo, os bispos (a grande maioria) afirmam que a Igreja se dirige com amor para aqueles que “contraíram o matrimônio civil, que são divorciados em segunda união ou que simplesmente convivem”, porque – destaque teologicamente importante – a “graça de Deus também atua nas suas vidas”, onde os parceiros se cuidam com amor um pelo outro.

Ainda mais claro é o convite a prestar atenção à coabitação, em que a união alcança a estabilidade através de um vínculo público e é caracterizada por afeto e responsabilidade para com a prole. O novo olhar a essa realidade é uma novidade indubitável do Sínodo. É equivocado considerá-la como um fenômeno restrito ao Norte do mundo. Nos grandes aglomerados urbanos latino-americanos, na África, nas Filipinas, as famílias desfeitas e reconstruídas fora das instituições são um fenômeno de massa.

Por isso, o Sínodo retomou – com mais de 90% dos votos – um trecho da exortação apostólica Evangelii gaudium de Francisco, em que se salienta que “Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”. A todos deve chegar a “consolação” e a ajuda de Deus.

Mais de três quartos dos bispos concordaram em convidar a “um grande respeito” pelos divorciados em segunda união, “evitando toda linguagem e atitude que os faça se sentir discriminados” e envolvendo-os na vida da comunidade paroquial. Também representa uma virada – votada pela maioria, embora não com o quórum de dois terços – o compromisso de aprofundar a questão do “eventual acesso aos sacramentos (dos divorciados em segunda união) (…) precedido por um caminho penitencial sob a responsabilidade do bispo diocesano”.

Em relação ao relatório do debate geral (publicado há semana), o documento final do Sínodo é uma marcha à ré total sobre o reconhecimento dos valores existentes em um casal homossexual. Os conservadores impuseram que se detivessem na linha-Ratzinger: respeito pelas pessoas, zero atenção à coabitação e, portanto, implícita demonização da sexualidade gay.

A palavra, agora, passa para as Conferências Episcopais e para as dioceses individuais em vista do Sínodo de 2015, chamado a fazer propostas pastorais. “Deus não tem medo das novidades”, reitera Francisco, convidando a “não se enrijecer”.

Ele lançará uma nova pesquisa. O seu antecessor Ratzinger rejeitou as tentativas dos lobos de utilizá-lo contra Bergoglio. Muito vai depender do fato de se as organizações laicais vão se acordar e tomar posição sobre os temas candentes. Na Itália, movimentos e associações até agora estiveram paralisados pelo medo de se descobrir, expressando-se sobre escolhas específicas.

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Redação

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