O México invade os EUA pela paz

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Caravana começa a percorrer cidades norte-americanas para sugerir que “guerra contra as drogas” fere sociedades dos dois países

Por Marta Molina | Tradução: Daniela Frabasile


SOBRE O TEMA: Tadeu Breda escreve sobre as consequências da “guerra anti-drogas” e situa contexto e história do Movimento pela Paz mexicano.

No ambiente de agitação pós-eleitoral em seu país, e de campanha para sucessão presidencial nos Estados Unidos, integrantes do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade (MPJD) partiram do México, no último domingo (12/8), em caravana rumo ao território norte-americano. Irão percorrer 25 cidades, em um mês, para exigir uma mudança na violenta “guerra antidrogas”.

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Tijuana, San Diego e Los Angeles serão as três primeiras cidades que receberão a Caravana pela Paz. Ela cruzará o sudoeste dos EUA, o Texas, o Sudeste e daí se dirigirá a Chicago, para chegar finalmente ao rico Nordeste, passando por Nova York e Baltmore. A percurso terminará em Washington, em 10 de setembro

Trata-se da terceira caravana organizada pelo MPJD, o maior movimento contrário à chamada “guerra contra as drogas”, inspirado há mais de um ano pelo poeta Javier Sicilia, que, após o assassinato de seu filho Juanelo, convocou as vítimas desta guerra.

A primeira marcha, com o nome de Caravana del Consuelo, saiu em junho de 2011 e percorreu a rota da dor, a partir de Cuernavaca, Morelos até Ciudad Juaréz. Chegou a cruzar a fronteira norte, atingindo El Paso, no Texas. Durante dez dias, as vítimas da guerra contra as drogas começaram a converter sua dor em organização. Ao mesmo tempo, mostraram ao mundo que as vítimas não eram “danos colaterais” — mas mexicanos de carne e osso, dispostos a recuperar sua dignidade.

Após um primeiro diálogo com o presidente Felipe Calderón (em junho de 2011), para exigir justiça para as vítimas e fim da guerra, partiu a segunda marcha, chamada Caravana de Paz. Dirigiu-se ao sul do México, em setembro do ano passado, passando por Puebla, Veracruz, Oaxaca, Chiapas. Cruzou a fronteira com a Guatemala.

Estas caravanas permitiram ao movimento convocar as vítimas da violência estrutural vivida pelo país, no âmbito da “guerra contra o narcotráfico”. O movimento também articulou-se com movimentos sociais de todo o país e começou a reforçar alianças com aqueles que já tinham grande tradição de organização.

O terceiro movimento, a Caravana por la Paz, vai em direção aos Estados Unidos e convoca as vítimas do lado norte das fronteiras mexicanas: os migrantes; os mexicanos que tiveram que abandonar sua terra por causa da violência e de necessidades econômicas; os que emigraram porque começaram a ser perseguidos e ameaçados por serem defensores dos direitos humanos; aqueles que não encontraram resposta, amparo ou justiça em um Estado mexicano falido, incapaz de entendê-los.

O Movimento pela Paz está convencido de que a proibição das drogas fracassou e gerou um desgaste social com dolorosas consequências, tanto para o México quanto para o país vizinho no norte: morte, dor, corrupção e impunidade. Segundo sustenta seu manifesto, lançado em 2011, “a crescente violência no México (com mais de 70 mil assassinatos e 20 mil desaparecidos desde 2006) e o encarceramento massivo de pessoas nos Estados Unidos (que têm apenas 5% da população mundial, mas mais de 25% da população encarcerada do planeta) são testemunhos das formas que a guerra contra as drogas está destruindo o tecido social dos Estados Unidos e do México.

Em carta publicada em 21 de julho e dirigida ao presidente Calderón, o poeta Javier Sicilia explicita claramente que a chamada “guerra contra as drogas” é filha de uma subordinação da agenda de segurança do México à dos Estados Unidos. Esta “está ligada, em boa parte, a uma estupidez decretada há 40 anos por [pelo ex-presidente norte-americano Richard] Nixon”. Sicilia reafirma um postulado que defendeu desde o início do movimento: “a história demonstra, com a proibição e a legalização do álcool nos Estados Unidos, que as drogas são um assunto de saúde pública, de liberdades e de controle do mercado e do Estado, nunca como um assunto de segurança nacional”.

O México começou a acordar há mais de um ano com o maior movimento contra a guerra contra as drogas, o MPJD. Em 2012, outro movimento, o #Yo Soy 132 abriu, em meio à campanha eleitoral, uma crítica contundente aos meios de comunicação e uma luta por democracia real. Hoje, em um esforço necessário de união de movimentos sociais a favor da dignidade, da paz e da justiça, o #Yo Soy 132 declarou publicamente seu apoio ao MPJD com essas paralvras:

“Agora caminhamos juntos, nos encontramos. As gotas de nossas lutas que caminham pela paz, pela justiça, pela dignidade dos povos, pela vida, formam agora um rio de águas que busca curar as feridas de um país que sangra, que sente dor. Caminhamos juntos por um mundo em que não nos esqueçam, que não nos calem, que não nos matem. É nossa essa luz, em que queimamos juntos, seguimos andando!”.

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Marta Molina

Marta Molina é jornalista independente, de Barcelona, Cataluña. Escreveu para vários veículos independentes em diversos países, sobre resistências culturais no Brasil, lutas não-violentas na Palestina e agora vive no México, seguindo os passos do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade (MPJD) contra a guerra às drogas e movimentos em defesa da terra, e que lutam pela autonomia, no Sul do México e na Guatemala. Pode segui-la através de seu blog Reporting on Resistances ou no Twitter @martamoli_RR.