Homem em chamas na Venezuela

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País vive espiral delirante de polarização. Governo Maduro parece paralisado. Mas o incêndio de um homem, visto acima, serve como metáfora perfeita da virulência da oposição

Por Greg Grandin, no The Nation | Tradução: Taís Krugman

Há alguns dias, na Venezuela, manifestantes antigoverno incendiaram um homem, queimando gravemente quase 80% de seu corpo. O homem tinha a pele parda, e os partidários do governo disseram que ele era um chavista, para ressaltar a selvageria racista de seus adversários. A oposição diz que ele era um ladrão.

O vídeo do incidente (veja abaixo) — que mostra um manifestante antigoverno disparando um lança-chamas sobre o homem que se incendeia e corre pela rua, enquanto outros manifestantes, ao invés de ajudar a apagar o fogo, deixam-no queimar – é horrível. Obviamente, não se encaixa na narrativa de ativistas corajosos, virtuosos e democráticos que enfrentam um governo tirânico. Os noticiários têm um enquadramento curioso: eles decidiram que o ponto alto da história não é “manifestantes da oposição incendiaram um homem no domingo”, mas sim “Maduro criticou os manifestantes da oposição, no domingo, por incendiarem um homem”. Escolha o lado correto, e você também pode se tornar um correspondente estrangeiro: “Homem explode bomba fora da arena”; ou: “Theresa May critica homem por explodir bomba fora da arena”? “Bombas dos EUA atingem hospital”; ou “EUA acusados depois de bomba atingir hospital”?

TEXTO-MEIO

A crise que a Venezuela tem enfrentado é profunda, com calamidades sobrepostas, incluindo escassez crítica de alimentos e remédios, aumento da violência criminal, corrupção, degradação da capacidade petrolífera e escalada de protestos antigovernamentais. A crise é tão existencial quanto econômica e política, atingindo o núcleo da identidade nacional. Os ativistas estão preocupados com o fato de seu país estar próximo de se tornar outra Síria. (Percebi, após meu último artigo sobre a Venezuela – uma “mesa-redonda” de opiniões diversas – um fenômeno novo, em que a publicação foi denunciada por alguns com a justiça geralmente reservada para argumentos sobre a Síria, em que “chavista” foi usado com a mesma veemência de “assadista”. Isso não pode ser bom.)

Há muitas pessoas, dentro e fora da Venezuela, simpatizantes do chavismo, que criticam muito o sucessor de Hugo Chávez, Nicolás Maduro. No entanto, no fim das contas, escolher o culpado significa escolher seu lado no desastre. Ou os esforços da oposição para derrubar o governo são uma resposta justificada diante do autoritarismo, ou o regime autoritário é uma resposta justificada aos esforços dos oponentes para dar um golpe. Por um lado, o regime chavista governou como se mantivesse uma longa campanha eleitoral, constantemente sob o risco de ser derrubado – ou pelas elites domésticas, ou então por estas mesmas elites sob o comando do eixo Washington-Bogotá. Por outro lado, a oposição realizou uma campanha igualmente longa – não para estabelecer freios e limites ao chavismo, mas sim para derrubá-lo.

Aqueles que seguem a Venezuela conhecem a história desse debate – da primeira eleição de Chávez, em 1998, à tentativa de golpe de Estado apoiado pelos EUA em 2002, à greve petroleira, ao plebiscito revogatório vencido pelo presidente em 2004, aos anos dourados do chavismo, decorrentes da reeleição de Chávez até sua morte pelo câncer, em 2013, quando os indicadores de saúde, educação e habitação estavam crescendo e a Venezuela estava prestes a atingir muitas das metas sociais incluídas nos Objetivos do Milênio da ONU. Julia Buxton expõe isso com clareza em entrevista que publicou há cerca de um ano na New Left Review.

Qualquer que seja a causa inicial – ou latente na ideia de usar a política para alcançar a reforma social, ou manifestada no medo primal da classe dominante de perder seu status econômico, cultural e racial – a Venezuela está presa em uma espiral descendente autoimpulsionada, e dominada pelo que o grande historiador da Europa, Arno Mayer, em seus escritos sobre as revoluções francesa e russa, chamou de “As Fúrias”.

Mayer fornece dois padrões para julgar o quão revolucionária é, na verdade, uma revolução: a primeira tem a ver com a natureza da reação doméstica que provoca. Para Mayer, “revolução/contrarrevolução” é um conceito indivisível; você não pode ter a primeira sem a última. O segundo padrão tem a ver com a reação internacional. Todas as revoluções verdadeiras desafiam não apenas a hierarquia doméstica, mas a hegemonia dominante do sistema interestatal.

Para Mayer, as “fúrias” são dialéticas. A ruptura revolucionária da soberania do Estado cria um vácuo preenchido não apenas por conflitos políticos e ideológicos, mas por antagonismos locais, ódio devido à frustração das pretensões da elite, desejo de vingança, interesses básicos e ambições. As revoluções são “estufas” da “realização dos desejos”, comprimindo e explodindo em momentos de intensas esperanças e temores – esperança de libertação, medo da chegada do novo ou do retorno ao antigo.

Precisamos prestar muita atenção ao desdobramento cronológico desses êxtases, para as querelas reais ou imaginárias que marcam os contornos da polarização. Os revolucionários, tanto os bem-sucedidos como os aspirantes, têm de aproveitar essas fúrias, conectando o local ao nacional em um novo sistema de soberania. À medida em que procuram estabelecer a soberania sobre um terreno social que eles mesmos quebraram, os revolucionários procuram monopolizar a violência e o terror, não só para neutralizar a inevitável oposição, mas também para incorporar diversas demandas populares de justiça e vingança em novas estruturas estatais. Esta é uma das razões pelas quais o Terror Vermelho é frequentemente público, incessantemente teorizado e abertamente justificado (pense nos primeiros julgamentos e fuzilamentos de Cuba, realizados em pleno brilho da ordem internacional), enquanto o Terror Branco pode fazer o seu trabalho no escuro, discreta e secretamente (pense em Pinochet, no Chile, ou Uribe, na Colômbia).

Contra aqueles que argumentam que o terror é intrínseco à ideologia revolucionária, Mayer recorre ao existencialismo marxista dos anos 1970 para argumentar que os atores políticos não operam com um roteiro ideológico fixo. Como atores históricos emergentes no palco político, diante de obstáculos e oposições aparentemente arcaicos, Mayer escreve: “Os revolucionários fixam seu fascínio em um futuro imperativo, mas incontrolável e perigoso”. Ele cita Maurice Merleau-Ponty para argumentar que, durante os momentos revolucionários, “a história é suspensa, e as instituições que se aproximam da extinção exigem que os homens tomem decisões fundamentais, sujeitas a um enorme risco em virtude de seu resultado final estar subordinado a uma conjuntura muito imprevisível”. “A história”, escreve Merleau-Ponty, “é terror porque há contingência. “Como resultado, os revolucionários tomam, muitas vezes, a resistência a seu programa como algo mais coerente do que é de fato, o que tende a produzir uma divisão entre amigos/inimigos cada vez mais polarizada.

Por sua parte, os contrarrevolucionários, confrontados com um desafio à sua classe, status e visão de mundo, não podem mais defender simplesmente, de maneira reflexiva, a hierarquia como senso comum. Eles precisam tornar-se mais ideológicos e ativos, o que geralmente implica em adotar um estilo revolucionário e vontade de mergulhar no futuro. Mas, para que a contrarrevolução ganhe pleno poder, é preciso olhar para fora e atrair a atenção e o patrocínio, seja sob a forma de invasão ou cerco de potências estrangeiras (como os venezuelanos de direita fizeram com Washington e, em menor grau, com a Bogotá de Uribe). E também olhar para baixo. A elite precisa conectar-se com as massas, que têm seus próprios motivos para se opor ou romper com o estado revolucionário.

A Revolução Bolivariana, inaugurada com as eleições de Chávez, em 1998, conheceu claramente esses dois testes: rompeu um establishment doméstico já cambaleante, destruiu seus mitos de governo e chocou a condição de hierarquia, abrindo o campo político para a maioria excluída e marginalizada da Venezuela. E ameaçou os pressupostos neoliberais da ordem interestatal, estabelecidos pelos Estados Unidos, especialmente nos esforços da revolução para repolitizar o petróleo, retornar à concepção dos anos 70, usando o recurso como um instrumento para tributar nações ricas e socializar os benefícios, através de programas internacionais de ajuda e bem-estar social. A Venezuela parece estar, hoje, por certo, presa na espiral de Mayer, em que contratempos aprofundam cisões, exigindo que todos os atos tenham significado político, transformando cada evento em uma provocação, intensificando a distinção entre amigos e inimigos, e deixando o país no limiar de uma guerra civil ou de um grande banho de sangue.

Mas é preciso salientar que, na Venezuela, as fúrias foram decididamente não dialéticas. Sim, o regime tornou-se mais autoritário, e os observadores não concordam em que medida isso foi: (1) uma resposta às ações da oposição; ou (2) algo inerente à ideia e política do próprio chavismo. Mas, em que pesem todos os rompantes populistas de Hugo Chávez e ataques retóricos contra a oligarquia, seu governo foi notavelmente inclusivo, capaz de incorporar inimigos em potencial em suas novas estruturas políticas e econômicas, com relativamente pouca repressão. Apenas um punhado de pessoas foi à prisão por algum tempo, por seu papel desempenhado no golpe de Estado de 2002. Ou seja, por tentar derrubar o governo. Nos Estados Unidos, Oscar López Rivera acaba de cumprir 36 anos na prisão por apoiar uma campanha de explosões em nome do nacionalismo porto-riquenho, e Leonard Peltier ainda não está livre.

Na verdade, devido à atenção prestada na Venezuela a Leopoldo López, que foi preso por seu envolvimento nos protestos violentos de 2014, as vítimas chavistas do golpe de 2002 criticam um duplo padrão na indulgência oferecida aos conspiradores golpistas. Ressaltam que a pele branca ainda fornece algo como um cartão de “saída livre da prisão” para os venezuelanos de direita. Em outras palavras, há muito tempo o Estado chavista evitou o que Mayer vê como um requisito básico da centralização de um Estado revolucionário: a canalização da raiva e das queixas populares em novas estruturas judiciárias, através de atos públicos destinados a ritualizar a legitimidade. “Não se preocupem, golpistas e fascistas, vocês podem continuar matando chavistas… Não há uma sentença para vocês. Vocês não terão sua hora, Vocês não terão que pagar por isso”.

No relato da revolução e contrarrevolução de Mayer, o tipo de violência executada pela oposição, primeiramente em 2002 e 2003, e depois de 2013 até o presente, deveria ter (sem derrubar o governo, como no Chile, em 1973) mergulhado o país em uma guerra civil (pense na guerra contra a Nicarágua sandinista), guerra internacional (novamente, Cuba que procurou desviar a campanha de Washington contra si, patrocinando “duas, três, muitas” insurreições em toda a América Latina) ou um período de Terror Vermelho sustentado (Rússia e França). Mas nenhuma guerra ou expurgo por terror ocorreu. Ainda não.

Em 2013, animado por uma eleição nacional mais disputada do que o esperado (que trouxe Maduro ao poder após a morte de Chávez), a campanha perdedora de Henrique Capriles (considerado representante da ala mais moderada da oposição, por dispor-se a disputar as eleições), alegou fraude sem qualquer evidência, e convocou protestos. Oito chavistas foram assassinados. Alguns meses depois, em 2014, a oposição apelou a protestos de rua violentos, que deixaram mais de 40 pessoas mortas — em sua maioria, chavistas ou funcionários do governo. Um motociclista foi decapitado por um fio que manifestantes antigoverno colocaram na estrada, como uma guilhotina improvisada. Mais de 50 pessoas morreram no ciclo atual de protestos e contraprotestos.

Maduro, de fato, comprometeu-se em uma série de questões, incluindo a criação de uma data para realizar eleições regionais. Mas a oposição – dividida entre seus “moderados”, muitos dos quais adotaram o quadro de direitos sociais do chavismo, e os “extremistas” de direita, que acreditam estar travando uma luta do fim dos tempos -, está totalmente envolvida na aceleração da crise, ao pedir cada vez mais protestos. Esses protestos têm como foco os agentes policiais do Estado. Os manifestantes estão atirando nas forças de segurança e lançando pedras e coquetéis Molotov contra elas, na esperança de provocar represálias que serão cobertas por meios de comunicação internacionais. Mas eles também se concentram nos símbolos redistributivos do Estado. Como a oposição fez na Nicarágua, na década de 1980, os manifestantes na Venezuela concentram sua energia na destruição de clínicas de saúde e na paralisação dos centros de redistribuição de alimentos. O objetivo é claro: cortar a mão direita (a repressiva) e a esquerda (a social) do Estado, tornando-o incapaz.

O governo Maduro parece paralisado. Na década de 1980, os sandinistas perderam a guerra dos “contras”, ao reverter muitos de seus programas sociais e embarcar em um programa de austeridade punitiva. O antropólogo Roger Lancaster contou-me que ouviu pela primeira vez a palavra “neoliberalismo” quando estava fazendo um trabalho de campo em Manágua, para descrever o recuo dos sandinistas, em sua primeira agenda social ambiciosa. Ainda assim, diz Lancaster, os “sandinistas resistiram à crise, em grande parte pela disciplina de sua base, para não falar da disciplina da polícia e do exército. Os sandinistas sabiam apertar, mas sem provocar um banho de sangue ou uma campanha de assassinatos seletivos. Mas o período de dificuldades corroeu o apoio popular a seu projeto: a Frente Sandinista (FSLN) perdeu as eleições seguintes, mesmo depois de vencer a guerra”. De certa forma, Maduro está em uma cilada pior, em grande parte porque Chávez, antes dele, optou por manter a moeda nacional artificialmente sobrevalorizada (o que contribui para a escassez). E Maduro insiste em fazer pagamentos “surreais, suicidas” de sua dívida externa, ao invés de gastar esse dinheiro com ajuda de emergência para acalmar a situação interna.

É a oposição que tem a iniciativa, mas neste momento ela age de modo automático e potencialmente calamitoso. Não pode mais cancelar os protestos, por mais violentos que se tornem, já que isso arriscaria dividir suas fileiras. Um retorno à calma pode criar um cenário onde a ala “moderada” negociaria um acordo com o governo, sem a capitulação total deste último (o que é o único resultado aceitável para os extremistas). Os protestos também precisam continuar para manter força centrípeta, à la Mayer, e unir as elites a setores das massas. Os meios de comunicação de língua inglesa estão constantemente realçando a natureza multiclasse e multitons de pele dos manifestantes, e o fato de que a oposição, em comparação com o passado, é de base ampla. Talvez.

Mas esta oposição desespera-se para atrair o verdadeiro perfil chavista – aqueles que vivem nas favelas, nas encostas das montanhas que circundam Caracas e que ajudaram a reinstalar Chávez no poder, após o fracassado golpe de 2002, em bairros como 23 de janeiro. Alejandro Velasco, meu colega da Universidade de Nova York e autor do excelente Barrio Rising: Urban Popular Politics and the Making of Modern Venezuela diz que é verdade que há mais protestos, incluindo saques e vandalismo, nesses bairros, do que em 2014 – mas, em grande medida, isso ocorre em paralelo às manifestações antigovernamentais. Esses bairros, Velasco recentemente relatou aos repórteres da BBC, estão alinhados com Chávez, porque ele não os entendeu em termos instrumentais ou contingentes, mas como atores sociais centrais na política venezuelana. Há uma profunda desconfiança nos barrios em relação à oposição, não importa o quão ruins estejam as coisas. Sentem que a liderança oposicionista só quer usá-los como ariete. O que, exatamente, os líderes da oposição poderiam fazer, se essas pessoas descessem os morros mas, depois de o governo cair, decidissem ficar?

Há também um profundo medo do ódio primal, do racismo e da fúria da oposição. Por enquanto, ela está dirigida aos agentes do Estado, mas volta-se em especial contra a expansão da esfera pública, feita por Chávez para incluir os pobres da Venezuela. Afinal, para voltar à cena de início, não é desculpa alguma dizer que esses manifestantes antigoverno pensaram que estavam incendiando um “ladrão”, e não um “chavista”. Em sua mente, os dois termos são intercambiáveis.

Velasco conta que está “em contato com amigos e outras pessoas, nos barrios: eles estão assustados e profundamente temerosos por três motivos: 1) a violência revanchista por parte de alguns na oposição; 2) o fato de a violência ser completamente escondida (ou, no caso desses incêndios, comemorada) pelos meios de comunicação, especialmente no exterior; 3) quão pouco o governo está equipado ou disposto a lidar com isso (ouço, por exemplo, muitos argumentos para que Maduro implemente um toque de recolher). Nenhum dos três é surpreendente em si mesmo. Mas, juntos, eles são um caldeirão de medo e paralisia que, com razão, deixa muitas pessoas com medo do que está acontecendo”.

A imagem do homem que corre pela rua em chamas pode ser apenas a metáfora perfeita para a oposição da Venezuela.

 

TEXTO-FIM
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