Crônicas de Nuestra América: histórias de Boal no exílio

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Ele retratou os desenraizados, os sem identidade, fantoches do sistema machista de poder e subjugação do outro. E convidou-os a atuar

Por Clara de Andrade

Augusto Boal traz, em sua história de vida e em sua produção como dramaturgo e escritor, marcas profundas de sua luta política e consequente afastamento do Brasil. Este texto[1] reflete sobre a transformação ocorrida no pensamento de Boal sobre a relação entre arte e política, a partir do estudo das suas Crônicas de Nuestra América. Escritas entre 1971 e 1976, na fase do exílio latino-americano do dramaturgo, quando estava exilado em Buenos Aires, estas crônicas se inserem no mesmo contexto em que Boal transforma sua visão de arte política para criar o Teatro do Oprimido, trazendo um novo sentido para toda a sua obra. Através da publicação regular destas crônicas no jornal O Pasquim, Augusto Boal reata pela primeira vez seu vínculo com o público brasileiro, após sua prisão pelo regime militar e exílio involuntário. Publicadas em conjunto em 1977, estas pequenas histórias revelam ainda uma faceta pouco conhecida da obra de Boal: a do cronista mordaz e bem-humorado dos tempos obscuros das ditaduras em nosso continente.[2]

Em 1971, após intensa atuação como autor, diretor e introdutor de novas técnicas teatrais junto ao Teatro de Arena de São Paulo – onde criou os célebres Seminários de Dramaturgia e espetáculos históricos que exerceram forte papel de denúncia contra a repressão – Boal foi preso pela ditadura militar. O teatrólogo foi mantido no Dops e no presídio Tiradentes em São Paulo por três meses, sob torturas e interrogatórios sistemáticos. No mesmo ano, partiu para o exílio, vivendo afastado do Brasil por quinze anos.

O primeiro pouso do exílio de Boal foi na Argentina. O novo país era a terra natal de sua mulher, a atriz e psicanalista Cecilia Thumin Boal e, além disso, a ditadura se mostrava mais branda aos argentinos naquele momento. A fuga para a Argentina, por se tratar de um país da América Latina, próximo ao Brasil, significava também a esperança de que se poderia voltar em breve, a ilusão de que a ditadura brasileira logo se extinguiria. Na Argentina, Boal se encontrava com muitos amigos brasileiros também exilados, mesmo que transitoriamente: Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Fernando Peixoto, Eric Nepomuceno, Ferreira Gullar, Thiago de Mello e ainda muitos outros. Para os trabalhos relacionados diretamente à prática teatral, Boal realizou viagens para o México, Colômbia, Venezuela e Peru, onde encontrou Darcy Ribeiro, também exilado. (BOAL, 2000, p.297)

TEXTO-MEIO

Os dois primeiros anos de exílio na Argentina foram bastante ativos para Boal. O país atravessava uma “ditadura branda” governada por Alejandro Lanusse, que prometia a democratização e propunha o Grande acordo nacional, da extrema direita à extrema esquerda. No início, Boal encontrou espaço para realizar o seu teatro: consegue dirigir sua peça Torquemada[3], escrita em 1971 quando ainda se encontrava no presídio Tiradentes; Revolução na América do Sul e também seu novo texto nomeado, não por acaso, O grande acordo internacional de Tio Patinhas, de 1972.

Nos anos seguintes, com a volta de Perón, o contexto político na Argentina volta a ficar muito difícil para os estrangeiros. Havia o chamado “peronismo” que reunia também as mais variadas ideologias, e não sendo Boal filiado ao Partido Comunista nem ao Peronista, encontrou muitas dificuldades de trabalhar. Segundo ele, seria inútil tentar fazer um teatro que procurasse desmistificar um movimento de massas como aquele e, além disso, afirma ter sido discriminado por conta do estigma de ex-preso político, o que muitas vezes o impedia de trabalhar. (BOAL, 2000, p. 297) O caminho encontrado por ele, então, foi se concentrar na escrita. Em três anos, de 1972 a 1975, Augusto Boal produz nove livros, alguns dos seus mais conhecidos, entre eles: Teatro do oprimido e outras poéticas políticas, Técnicas latino-americanas de teatro popular, 200 Jogos para atores e não atores; os romances Milagre no Brasil e Jane Spitfire; além das peças Torquemada e O grande acordo de Tio Patinhas. E é justamente nesta fase de intensa produção literária e dramatúrgica que Boal escreve as suas Crônicas de Nuestra América.

Muitas destas histórias latino-americanas são baseadas em notícias de jornal e fatos verídicos, traços do processo criativo de teatro-jornal que Boal vinha desenvolvendo desde 1969/70, no período imediatamente anterior ao seu exílio. Outras destas histórias foram contadas pelo povo e recolhidas pelo autor nas suas andanças de exilado por diversos países da América Latina – Argentina, Uruguai, Equador, Venezuela, Peru e Chile. Boal, então, como pesquisador, “repórter” e escritor, lhes deu tratamento de literatura.

Nas Crônicas de Nuestra América, a possível veracidade das histórias é apenas o ponto de partida para uma viagem ao universo imaginário dos povos hermanos. A trilha lúdica do escritor Boal parece se inspirar nos sinuosos caminhos narrativos de grandes escritores latino-americanos como Gabriel García Márquez e Julio Cortázar. Estes serão autores de referência para Boal até mesmo em trabalhos posteriores, na fase de seu exílio europeu, quando realiza encenações a partir de suas obras: em 1982, dirige o texto Nada más a Calingasta, de Cortázar, na Áustria; e em 1983, em Paris, dirige o espetáculo Eréndira, adaptação teatral para o romance A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada, de Gabriel García Márquez. (BOAL, 2000, p.196-198)

Desde a elaboração das Crônicas, portanto, percebe-se este movimento de aproximação de Boal com os referidos escritores latino-americanos, ao dialogar claramente com um realismo que pode ser fantástico, cruel e até mesmo farsesco. Nestas dez pequenas histórias, situações aparentemente verossímeis que poderiam ser até banais e cotidianas, se desenvolvem, no entanto, de maneira estranha, não usual, trazendo à tona uma realidade risível, cruel e, talvez, por isso mesmo, humana.

Ao contar o lado engraçado e estranho das terras por onde andava, o exilado Boal monta um divertido álbum tipicamente latino-americano, de onde, aqui e ali, irrompem fragmentos do ambiente de repressão da era das ditaduras militares em nosso continente. Na crônica Processo ao macaco ou Ser animal não é atenuante, por exemplo,um coronel do pequeno povoado de Melo, no Uruguai, mata a tiros um chimpanzé de zoológico, só porque este se masturba na frente de sua honrada família. Depois de ter dado ao macaco “o fim que merece!”, o coronel faz questão de ser julgado por um tribunal, completamente submisso à sua autoridade e, como era de se esperar, é absolvido por unanimidade, sob a premissa fundamental de que “ser animal não é atenuante!” (BOAL, 1977, p. 60) em uma referência clara à irracionalidade da estrutura de poder instituída pelos militares.

Outros temas mais delicados são abordados na primeira crônica do livro, intitulada: O “Gato”, a mulher de Johnny e a bicicleta a motor. Esta crônica narra a história de um imigrante inglês nas Ilhas Malvinas que um dia decide simplesmente “trocar” a sua mulher por uma bicicleta. A crônica revela com extrema delicadeza e habilidade por parte do escritor Boal, a permanente situação de opressão contra a mulher, ao ponto de ser tratada como mero objeto a ser possuído e mesmo “trocado”. É notável também nesta crônica o olhar mais subjetivo do autor: o tema da opressão aparece nas entrelinhas daquela situação um tanto estranha, através da qual ficam nítidas para o leitor as relações sexistas de poder e subjugação do outro. Todos os personagens, por sua vez, independente de sua posição neste jogo de forças, são construídos por Boal de maneira mais psicológica do que nas outras crônicas: todas e todos apresentam um mundo interno, humano, com desejos, frustrações e objetivos bastante concretos a serem alcançados.

A história também aborda a crise de identidade do sujeito contemporâneo, sempre exilado, no processo de desenraizamento causado pela imigração. O personagem do imigrante inglês, que partiu para o longínquo território das Ilhas Malvinas por ser “uma terra jovem onde qualquer um pode começar uma vida nova” (BOAL, 1977, p. 18), depois de dez anos quer ir embora para Buenos Aires, a cidade grande, e para isso decide vender todas as suas “coisas”. Ele trazia sempre à mente a seguinte frase: “Existe um momento para partir, ainda que não se tenha para onde ir…” (p. 13). Sem referências de princípios éticos e mesmo de sua própria identidade, o imigrante inglês acreditava que ao ter um objeto, a tão desejada bicicleta a motor, ele poderia ser mais feliz, sem se dar conta de que, sem a sua mulher, sua vida não faria mais sentido.

Em Crônicas de Nuestra América, portanto, Boal aborda questões sociais e políticas pelo viés do cidadão comum, o anônimo habitante das cidades sul-americanas, “invisível”, como ele próprio dizia sentir-se em Buenos Aires. Como se realizasse fotografias de rostos desconhecidos, o autor expõe, através destes retratos literários, as forças de todo um sistema de exploração. Pela análise das histórias é possível perceber que Boal direciona o seu olhar para a micropolítica, para as relações interpessoais, familiares e mesmo cotidianas para, a partir delas, tratar de questões mais amplas, que revelam conflitos da própria sociedade.

Esta nova forma de encarar a política seria radicalizada por Augusto Boal no desenvolvimento do Teatro do Oprimido. É justamente nesta fase de seu exílio latino-americano – quando escreve as Crônicas de Nuestra América – cercado pelo autoritarismo, que o teatrólogo vê a necessidade de criar o seu método de teatro popular. E este momento é marcado pela transformação em sua maneira de enxergar a relação entre arte e política: através de diversas técnicas teatrais – teatro-jornal, teatro invisível, teatro-imagem e teatro-fórum – procura recuperar a experiência pessoal e estética de grupos de pessoas que se encontrem em nítida situação de opressão, estimulando a criação de espectadores ativos. O cidadão comum, então, entra em cena para tornar-se também ator, com o objetivo de encontrar uma nova saída para determinado problema vivenciado. Ao transferir para a plateia os meios de produção da arte, tanto no que se refere à intervenção do espect-ator em cena, como no sistema de multiplicação do método, Boal busca uma arte que venha das pessoas, como autoras de sua própria experiência estética.

No Teatro do Oprimido, portanto, assim como nas Crônicas de Nuestra América, Boal parte do indivíduo, da experiência real vivida pelo sujeito, para debater questões que dizem respeito ao coletivo, a camadas mais amplas da sociedade. O teatrólogo busca colocar o cidadão “anônimo” no centro da experiência artística: seja como personagem, na criação literária de suas crônicas latino-americanas, seja como autores e sujeitos de sua própria história, na prática de seu método teatral. Nesta pesquisa incansável por novos meios de trazer a micropolítica para a arte e vice-versa, como caminho de transformação social, pode-se dizer que Boal antecipa, de certo modo, uma mudança na relação entre cultura e política que iria acontecer na América Latina a partir do final dos anos 70.

Segundo a cientista social Evelina Dagnino (2000), após a crise dos regimes autoritários e finalmente a volta à democracia, esta relação entre cultura e política, assim como o próprio campo de atuação do que vem a ser político, são postos em questão pelas sociedades latino-americanas. Com a derrota da luta armada e o fim das utopias, a resistência da esquerda voltou-se para o fortalecimento e a organização da sociedade civil, em seus diversos segmentos e reivindicações, como passos fundamentais para a reconstrução da democracia. A escritora destaca, neste processo, o papel crucial dos movimentos sociais no Brasil – desde o início de 80 e em escala crescente nos anos 90 – que, ao unificarem em desejos comuns a pluralidade de interesses de coletivos e indivíduos, teriam dado origem à constituição de “sujeitos ativos”. (DAGNINO, 2000, p. 86-87)

E é justamente nesta perspectiva de emancipação do sujeito que o trabalho de Boal – principalmente nas técnicas do Teatro do Oprimido – vai atuar na América Latina ainda nos anos 70, seguindo para a Europa e retornando ao Brasil pós-ditadura militar.

Recentemente, no Brasil, algumas montagens teatrais têm procurado ressaltar esta faceta de Augusto Boal também em sua obra como dramaturgo. Neste sentido, destaca-se a montagem de sua peça Murro em Ponta de Faca, que aborda o sempre atual tema do exílio, dirigida por Paulo José e realizada em 2010/2012 pelo grupo Acti, de Curitiba. Em agosto deste ano de 2014, estreou a primeira encenação em território brasileiro das Crônicas de Nuestra América, com direção de Gustavo Guenzburger, no Oi Futuro-Flamengo, Rio de Janeiro. O elenco é composto por artistas acostumados com o trabalho de criação dramatúrgica em cena: Adriana Schneider, Carmen Luz, Clara de Andrade, Henrique Manoel Pinho, Larissa Siqueira e Lucas Oradovschi. No processo de adaptação do texto para o palco, o pesquisador e dramaturgo Theotonio de Paiva se deparou com novas crônicas, ainda inéditas, no acervo do Instituto Augusto Boal. Ainda não se sabe se estas novas histórias chegaram a ser publicadas também no jornal O Pasquim, mas de todo modo, fica o desejo de uma nova publicação destas sempre nossas Crônicas de Nuestra América que, sob o olhar exilado de Boal, formam um quebra-cabeça múltiplo e colorido da memória de nosso continente.
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[1]Esta é uma versão resumida do artigo. O original completo será publicado no livro: Augusto Boal: embaixador do teatro brasileiro, organizado por Izaías Almada e Anderson Zanetti.

[2]Agradeço ao professor Victor Hugo Adler Pereira, pela rica contribuição de bibliografia que utilizo neste texto e a Gustavo Guenzburger pela colaboração na elaboração deste artigo.
[3]Desenvolvo também uma análise desta peça no artigo: “Torquemada de Augusto Boal: uma catarse do trauma”. In: Revista CENA, UFRGS, número 11, dossiê microhistórias. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/cena/article/view/24098
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Referências bibliográficas:
ANDRADE, Clara de. O exílio de Augusto Boal: reflexões sobre um teatro sem fronteiras. Rio de Janeiro: Dissertação de mestrado. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Centro de Letras e Artes, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), 2011.
______. Torquemada de Augusto Boal: uma catarse do trauma. In: Revista CENA, UFRGS, número 11, dossiê microhistórias. Disponível em: http://seer.ufrgs.br/cena/article/view/24098
BOAL, Augusto. Crônicas de Nuestra América. Rio de Janeiro: Codecri, 1977.
______. Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas. Rio de Janeiro: Record, 2000.
DAGNINO, Evelina. “Cultura, cidadania e democracia: a transformação dos discursos e práticas na esquerda latino-americana.” In: ______, ALVAREZ, Sonia E.; e ESCOBAR, Arturo. (orgs.). Cultura e política nos movimentos sociais latino-americanos: novas leituras. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000, p. 61-102

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Clara de Andrade

Atriz e pesquisadora em teatro. Doutoranda em Artes Cênicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, UNIRIO, tendo realizado estágio na Sorbonne Nouvelle, Paris 3. Autora do livro: "O exílio de Augusto Boal: reflexões sobre um teatro sem fronteiras", a ser publicado neste ano de 2014, pela Editora 7Letras. Co-organizadora do livro: Augusto Boal: arte, pedagogia e política (Ed. Mauad, 2013). Sua pesquisa atual se debruça sobre as relações entre teatro e política no campo de atuação do teatrólogo brasileiro Augusto Boal.

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