Rafael Braga, 30

O que acontece com Rafael me afeta. Até porque não se trata só do Rafael, mas de todas as pessoas que, como ele, o Estado criminaliza

Crônica de Luiza Sansão

Neste 31 de janeiro, Rafael Braga faz 30 anos. Preso no contexto da grande manifestação de 20 de junho de 2013 no Rio de Janeiro com um frasco de água sanitária e um de desinfetante Pinho Sol, o até então catador de latas ficou conhecido em todo o país e no exterior pela flagrante injustiça de que foi vítima, tornando-se um símbolo da seletividade do sistema penal brasileiro.

De 2015 pra cá, escrevi 22 reportagens sobre o caso — deixando a subjetividade para o livro-reportagem que decidi que produziria em 2016, quando percebi que, como única repórter a cobrir “por dentro” a história do Rafael, tinha e teria pela frente, ao longo desses anos de cobertura, um monte de histórias para contar além das que estão nas matérias.

Rafael na casa de sua família. | Foto: Luiza Sansão

Comecei, então, em 2017, a escrever o livro, que trará bastidores da cobertura que, neste 2018, completa três anos. Entre os diversos aspectos que venho trabalhando, o livro trará detalhes da história do Rafael que venho apurando nesse período — para além das prisões —, questões relacionadas à seletividade do sistema penal e um pouco da experiência de algumas pessoas ligadas de forma mais profunda ao caso — como os advogados do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH) que atuam na defesa do Rafael, alguns integrantes da Campanha Pela Liberdade de Rafael Braga, familiares e, claro, eu mesma.

Hoje, pela primeira vez, entretanto, optei por escrever uma crônica, em primeira pessoa, em vez de uma reportagem jornalística, com toda a carga de subjetividade que decorre desses dois anos e meio de imersão na história.

Rafael encontra-se em prisão domiciliar desde que, em setembro do ano passado, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) permitiu que ele se tratasse, em casa, da tuberculose que contraiu no sistema prisional. Foi preciso que o STJ fizesse o que se recusou a fazer o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) — que negou, dias antes, o pedido da defesa de Rafael para que ele pudesse se tratar em casa.

O dia em que Rafael deixou o Sanatório Penal de Bangu foi especialmente marcante para mim e para os advogados do DDH, com quem venho compartilhando diversos momentos, alguns dolorosos, no decorrer desse processo de cobertura. Foram cinco longas horas de espera, sob o sol escaldante de Bangu. Acompanhei Rafael até a casa de sua família, em uma das favelas de Olaria, na Zona Norte do Rio. Não há como esquecer tudo o que aconteceu ao longo de um trabalho que teve início às 10h — quando nos reunimos no Centro do Rio para ir para Bangu — e terminou às 21h — quando nos despedimos de Rafael e sua família.

Com alguns dos advogados do DDH reunidos no Centro do Rio, antes de irmos para Bangu, no dia em que Rafael foi liberado para a prisão domiciliar. Da esquerda para a direita: Ana Victorino, Lucas Sada, Luiza Sansão, João Henrique Tristão, Natália Damazio, Thiago Melo e Simone Quirino. | Foto: Arquivo pessoal

Nas últimas quatro vezes em que estive com Rafael, em sua casa, não produzi reportagens. Todos os registros feitos nessas visitas serão destinados apenas ao livro. Isto porque há tantas questões sociais complexas na vida de famílias como a do Rafael, que muitas vezes quem trabalha cobrindo uma história em profundidade precisa optar entre expor fatos que “dão ibope” para o repórter e segurar a onda por uma questão que deveria ser sempre considerada em primeiro lugar por qualquer profissional de imprensa: a responsabilidade social do jornalismo.

Obviamente, tenho enorme carinho pela história do Rafael — um envolvimento que muitos colegas condenam, por acreditarem em uma forma de fazer jornalismo que eu, particularmente, não penso que se aplique a todos os tipos de cobertura. Quem acredita realmente que lidar com gente é simples, a ponto de o repórter se manter impassível diante das barbaridades experimentadas pelas pessoas cujas histórias contamos, das duas uma: ou nunca cobriu uma história em profundidade durante um longo período, ou não tem capacidade de empatia — o que, a meu ver, é uma virtude especialíssima sem a qual não se pode fazer jornalismo, sobretudo no campo dos direitos humanos.

Portanto, o que acontece com o Rafael me afeta. E, na realidade, não passo um dia sequer sem pensar nele em algum momento. Já atendi a telefonema de sua mãe de madrugada. Já deixei de estar com o meu pai no dia de seu aniversário, em minha cidade natal, para visitar o Rafael, simplesmente porque só teria o domingo para ir lá, em função do ritmo da semana. Já escrevi reportagens sobre ele vendo lágrimas pingarem sobre o teclado. No dia em que ele foi condenado a onze anos e três meses de reclusão em regime fechado, chorei por muitos minutos antes de conseguir escrever.

Até porque não se trata só do Rafael, mas de todas as pessoas que, negras e pobres como ele, o Estado extermina — seja encarcerando em massa, submetendo a contágios ou matando nas favelas, por meio de suas polícias.

Muitas vezes, me pergunto se todas essas negativas do Judiciário não se devem ao fato de Rafael ter se tornado, involuntariamente, um símbolo. E um símbolo que ativistas de direitos humanos e da esquerda abraçaram, o que, neste momento de especial polarização, pode estar afetando as decisões de um Judiciário conservador sobre o caso. Como se a mensagem fosse: se quem está contra nós está com Rafael, nós estamos contra o Rafael. E daí juízes quererem se mostrar insensíveis à opinião pública — que tanto se sensibiliza com a injustiça de que Rafael é vítima.

Passei um ano tentando, ininterruptamente, conseguir permissão para entrevistar Rafael no Complexo Penitenciário de Bangu, na Zona Oeste do Rio, e um dos dias mais intensos da minha vida profissional foi justamente aquele em que finalmente consegui — 14 de julho de 2017. Lembro-me como se fosse ontem meu estado ao deixar a prisão, após a entrevista. Não consegui conter o choro e desabei antes mesmo de cruzar a guarita do Complexo. Cheguei em casa e sentei imediatamente para escrever tudo o que tinha acontecido — parte do livro que tem um significado especial para mim.

Durante o período em que, sem sucesso, tentava conseguir a permissão da Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) para visitá-lo, a mãe dele me dizia que ele sempre perguntava por mim quando ela o visitava, e que aguardava minha visita. Meu choro, na saída de Bangu, foi resultado da longa espera dele e da minha, resultado da minha sede de fazer esse trabalho.

Também foi resultado de ter conseguido, depois de um ano de tentativas frustradas, passar pelas portas de um sistema que, como muito bem disse o advogado João Tancredo — que empregou o Rafael em seu escritório durante o período em que ele estava nos regimes semiaberto e aberto —, “isola as pessoas em um mundo que não é o mundo de ninguém”. Daí a minha dificuldade em conseguir transpor aquela barreira, imposta pelo sistema prisional.

Abraço em Rafael quando ele deixou o Sanatório Penal para tratar a tuberculose em casa. | Foto: Antonio Nicomédes / DDH

Eu não desejaria viver, sem emoção, um mergulho tão profundo. O repórter aprende muito nesse processo, não apenas sobre jornalismo, mas sobre gentes e sobre as diversas possibilidades — e, no caso de uma sociedade tão desigual, também as tantas impossibilidades.

Uma das angústias que carrego comigo decorre do medo de que Rafael não suporte o que estão fazendo com ele. Se, por um lado, ele é fortalecido pelo apoio que recebe de todos os que acompanham sua história, indignam-se com a flagrante injustiça e, de alguma forma, transmitem sua solidariedade, por outro, permanece condenado — enfrentando todos esses ‘nãos’, mesmo sabendo-se inocente nos processos de 2013 (porte de material explosivo) e 2016 (tráfico e associação para o tráfico).

Quem lhe devolverá os quase cinco anos que lhe foram roubados? Nenhuma indenização — o mínimo que o Estado pode lhe dar depois de tudo a que Rafael vem sendo submetido — devolverá a esse jovem, que hoje completa 30 anos, esse tempo de volta. Não há dinheiro que pague a parte da vida consumida nessa batalha judicial, nessa saga que consome suas forças dia após dia.

O que posso desejar, então, ao Rafael, neste seu aniversário, é que ele tenha força para suportar o peso da bola de chumbo que este sistema que criminaliza pessoas como ele lhe amarrou ao tornozelo. Que ele tenha força para superar as consequências psicológicas de tudo isso — que venho acompanhando e que me dilacera o peito.

Parabéns pelos seus 30 anos, Rafael. Espero que, em junho, eu não tenha que escrever uma matéria sobre os cinco anos de sua prisão. Que essa saga termine e você possa sentir de novo o gosto da liberdade — e que tudo isso que você está enfrentando e te fez tão conhecido permita-lhe ter oportunidades que tantos jovens iguais a você não têm e não terão.

 

 

Todas as matérias que produzi sobre o caso, em ordem cronológica:

O primeiro e único condenado das manifestações de junho de 2013

Preso injustamente desde 2013, Rafael Braga volta a trabalhar fora da prisão

Rafael Braga é preso com novo flagrante forjado, diz advogado

Rafael Braga volta à prisão após audiência de custódia

PM se contradiz ao depor contra Rafael Braga, preso nas manifestações de junho de 2013

Segundo PM a depor contra Rafael Braga contradiz colega

“Mandaram eu abrir a mão, botaram pó na minha mão, me forçando a cheirar”, revela Rafael Braga

Mobilização pela liberdade de Rafael Braga ganha seis países além do Brasil

Advogados de Rafael Braga afirmam que Juiz nega direito à ampla defesa do ex-catador de latas

Sarau mobiliza moradores de favela em apoio a Rafael Braga no Rio

Rafael Braga é condenado a onze anos de prisão

Defesa de Rafael Braga entra com recurso de apelação à sentença de condenação

Julgamento de habeas corpus para Rafael Braga é adiado

Por 2 votos a 1, Tribunal de Justiça decide manter Rafael Braga preso

Rafael Braga é internado sob suspeita de ter contraído tuberculose

Rafael Braga contraiu tuberculose, confirma advogado

TJ nega pedido para Rafael Braga tratar tuberculose em casa

Rafael Braga poderá tratar tuberculose em casa

Rafael Braga deixa prisão e sorri: ‘Quero agradecer todo mundo que luta por mim’

“Não quero passar por isso mais”, diz Rafael Braga sobre prisão

TJ julgará recurso que pode reverter condenação de Rafael Braga

TJRJ mantém condenação de Rafael Braga

Luiza Sansão

Jornalista com foco em segurança pública e direitos humanos, formou-se pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, em 2013, com reportagem publicada na Revista Adusp. Foi repórter da Ponte Jornalismo entre 2015 e 2017. Está escrevendo livro sobre o caso Rafael Braga.

3 opiniões sobre “Rafael Braga, 30

  • 1 de fevereiro de 2018 em 22:44
    Permalink

    Parabéns Luiza,
    Solidarizo-me com o Rafael e ainda bem que um anjo cruzou seu caminho: você.

    Resposta
  • 14 de fevereiro de 2018 em 02:52
    Permalink

    Luiza sansão… Li toda sua matéria sobre Rafael Braga, e por uma conscidência, tbm tenho um Rafael e um Anderson, 2 irmãos, que estão sofrendo no mesmo presidio em Bangu, no regime fechado, condenados a 14 anos por homicídio duplamente qualificado. Procurei um advogado dos Direitos Humanos perto da minha cidade, interior do Rio de Janeiro. Sou patroa desses rapazes, meninos bons, de família e que estão ficando quase loucos naquele lugar. Assiste todo o júri popular deles, e posso te dizer, que foi uma verdadeira palhaçada. Gostaria se possível fosse, de vc entrar em contato comigo, que eu te explico o que aconteceu. Por favor!! Precisamos de ajuda! Vou deixar meu celular, que tbm é estão.

    Resposta
  • 6 de julho de 2018 em 02:15
    Permalink

    Estou lendo essa matéria em Julho de 2018, novamente, e gostaria muito que essa situação tivesse mudado.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *