Mostra da Cooperifa desafia perseguição à arte

171018_cooperifa
Sueli Carneiro, Sarau das Pretas, Paulo Lins, Wagner Moura e Xico Sá são alguns [email protected] [email protected] para o evento, que acontece a partir deste sábado na Zona Sul de São Paulo

Comemorando os 16 anos de existência da Cooperifa – o sarau de poesia que deu início ao deslocamento da melhor cultura paulistana para a periferia da cidade –, começa dia 21 de outubro a 10ª Mostra Cultural da Cooperifa. Até o dia 29, a mostra leva à Zona Sul de São Paulo artistas consagrados na periferia da metrópole juntos a nomes estrelados da cultura brasileira. É o caso da teórica do feminismo negro Sueli Carneiro, ao lado do Sarau das Pretas, coletivo que celebra a vida com poesia, teatro, contação de histórias e brincadeiras com crianças.

“Vivemos um período de censura à arte e cultura. Nós da Cooperifa resistimos e vamos levar o que há de melhor na periferia e fora da periferia para a Mostra”, afirma o poeta Sérgio Vaz, fundador do coletivo, lembrando os episódios recentes em que exposições em museus ou centro culturais foram atacadas por setores conservadores da sociedade brasileira.

Se no ano passado teve show gratuito do Criolo, desta vez a mostra tem Wagner Moura, Xico Sá e Dexter na mesma programação que apresentará a cantora Fernanda Coimbra, o poeta Akins Kintê e o rapper Cocão.

“É importante trazer gente de fora, mostrar que a periferia se tornou um importante palco da cultura brasileira. Mas a maior parte da programação é, e tem que ser, de nomes que a periferia já conhece e que produzem muito do que é consumido pela periferia”, afirma Vaz.

Confira aqui a programação completa.

TEXTO-FIM

Binho do Sarau: “arte na periferia exige ação”

Binho em 1997, com telas prontas para espalhar poesia pelos postes da cidade

Um dos grandes agitadores culturais das quebradas de São Paulo irriga “sementes de poesia” — crianças que começam a conhecer literatura — durante a mostra “Estéticas da Periferias” 

Por Leandro Cruz*

“Na periferia, a vontade de dizer é tanta que as pessoas querem produzir. Então, teve muita gente que frequentava bar que acabou virando poeta”, conta Binho — criador de um dos principais saraus que marcam a Cultura Periférica. Em 1995 iniciou uma verdadeira transformação poética no bairro do Campo Limpo. Naquela época, a poesia não tinha tomado o espaço que hoje ocupa na cultura das periferias. Não que alguma vez a “quebrada” tenha perdido seu lirismo que existe desde que o samba é o samba, mas é que, de fato, na década do auge das FM’s e do boom da TV aberta, a indústria cultural investia forte em idiotização de massas e massificação da idiotice. Foi na época do “É o Tchan”. Hoje em dia, a indústria cultural oferece opções mais variadas: você pode escolher se quer “Tchu”, se quer “Tchá” ou se preferir, o cardápio também oferece “Tchê Tchê Rere”.

Enquanto isso, na quebrada, tem o Sarau do Binho, o Sarau da Brasa, o Sarau da Vila Fundão, o Sarau da Cooperifa… Revolução vandalírica que acompanha o crescimento do sentimento de “nóis por nóis”, de “isso memo, tâmo junto” nas periferias de São Paulo. Movimentações que obviamente, mais cedo ou mais tarde haveriam de incomodar as estruturas estabelecidas. Gente trocando ideia e poesia é o que a Matrix mais teme… Basicamente por isso, o Sarau do Binho, onde tudo começou, teve de fechar as portas no começo do ano. Continuar lendo