Assim se silencia a democracia

130806-Fracking

Nos EUA, petroleiras já obtêm, por dinheiro ou junto aos parlamentares, leis e acordos que impõem censura sobre contaminação ambiental

Fracking é um processo ainda quase desconhecido no Brasil. Empregado cada vez mais largamente nos Estados Unidos, é visto, lá, como uma das apostas para recobrar “soberania energética”. Consiste em injetar, em certas regiões do subsolo, água, areia e um coquetel de produtos químicos, em altíssima pressão. Permite recuperar depósitos de petróleo ou gás existentes em rochas subterrâneas, mas que não podem ser extraídos por métodos normais de extração. Agora, o fracking pode tornar-se conhecido, em todo o mundo, por outros de seus produtos. Veto total à produção de evidências a respeito de seus efeitos sobre o Ambiente e a Saúde. Silêncio forçado, imposto inclusive a crianças, em troca de dinheiro. Leis adotadas, sob forte influência de lobbies empresariais, para silenciar também os médicos. Em síntese, novas formas de   bloquear três elementos essenciais da democracia: informação pública, transparência e possibilidade de influenciar a formulação de leis.

O último episódio de censura veio à tona ontem, no site norte-americano Alternet e no jornal londrino The GuardianEm audiência judicial, um casal — Chris e Stephanie Hallowich, do Condado de Washington, na Pennsylvania — revelou ter assumido, em acordo judicial com uma operadora de fracking, cláusula que os obriga a silêncio, até o fim da vida, sobre os danos causados pelo processo a sua saúde. A censura perpétua estende-se, segundo os termos do contrato, a seus filhos, então com sete e dez anos de idade.

Em entrevista ao Alternet, Sharon Vion, ativista da organização Earthworks, que se opõem ao fracking, explica por que este tipo de pressão é eficiente. O casal Hallowich vivia em uma pequena chácara, próxima a um dos locais em que se adotava este tipo de extração. Depois que os trabalhos começaram, a família passou a apresentar sintomas como queimação nos olhos, ulcerações na garganta, dores de cabeça e ouvidos. A água da propriedade ficom contaminada. A empresa ofereceu-se para comprá-la, por 750 mil dólares. Impôs, porém a cláusula de silêncio. O casal aceitou-a, para poder mudar-se. O caso veio à tona por pressão de um jornal local e porque os Hallowich estão preocupados com a impossibilidade prática de calar as crianças.

Há centenas de acordos deste tipo, continua Sharon. E graças ao silêncio das vítimas, a indústria do fracking tem sido capaz de alegar, em juízo e em audiências legislativas, que “não há evidências concretas” da contaminação. Seria, certamente, fruto de exageros… A mesma desculpa é adotada por autoridades favoráveis à extração.

Um terceiro texto, na revista The Atlantic, revela que é ainda mais vasta a intervenção, nas decisões políticas, das empresas de fracking — entre elas, a Halliburton, fortemente ligada ao Pentágono e à guerra contra o Iraque. Alegando “segredos industriais”, obtiveram, do Congresso, o direito de não revelar, com exatidão, que mistura de produtos químicos injetam no solo. Estão desobrigadas de obedecer, também, dispositivos que exigem transparência em relação aos riscos de contaminação da água. Sabe-se já que entre os compostos estão alguns de alta toxicidade, como benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno. Em doses baixas, produzem o tipo de sintomas sentido pelos Hallowich. Com o tempo, ou dependendo da dosagem, causam câncer.

Talvez o caso mais bizarro de silêncio forçado seja, porém o que envolve os médicos da Pennsylvania. The Atlantic revela que o legislativo estadual aprovou, no ano passado, lei que determina às empresas de fracking fornecer, a estes profissionais, informações necessárias a seus diagnósticos. Porém, impõe-se uma cláusula de confidencialidade. Os médicos não podem revelar o que souberam das operadoras a ninguém — nem mesmo aos pacientes que estão tentando tratar…

É de estranhar, nestas condições, que tantos vejam tal tipo de “democracia” como farsa?

 

TEXTO-FIM

8 ideias sobre “Assim se silencia a democracia

  1. E assim caminha a humanidade e a sua venerável bandeira capitalista! Ora, essa notícia só evidencia o quanto homens e empresas esqueceram, esquecem, e esquecerão, os escrúpulos, os princípios morais, e os sentimentos humanitários que deveriam nortear suas ações. Quantas doenças, quantas tragédias pessoais e coletivas que aconteceram por acidentes ou incidentes, quantas almas sofredoras estão ou estiveram enclausuradas em diversas prisões, e que tiveram como ponto de partida a ambição desmedida de homens e suas corporações?! Até quando vamos levantar a bandeira capitalista?, melhor dizer: A bandeira do sistema monetário?.

  2. Estados Unidos: o país da democracia, dos direitos humanos, da qualidade de vida, enfim, o país que tem por objetivo levar a justiça e a liberdade a todos os países do mundo. hahahahaha

  3. Na evidência do caminho que a “moralidade” tomou neste país tão religioso, impossível não lembrar de Roma e a queda de seu império. Diante de tal decadência, torçamos para que seja rápida a queda, porque qualquer nenhuma solução se avista.

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  5. Essencial essa matéria para o entendimento de algumas das potenciais consequências do “fracking”.

    O mesmo assunto foi divulgado em matéria na página da Bloomberg, que é a principal referência em informações sobre negócios e finanças. A matéria é de 06 de junho e tem o título “Drillers Silence Fracking Claims With Sealed Settlements”. Além das informações aqui postadas por Antônio Martins, a matéria traz também vídeos de entrevistas com alguns dos afetados pela contaminação da água, e também um gráfico descritivo de como pode ocorrer essa contaminação. Acho que vale a pena para quem quiser se aprofundar no assunto.
    Como argumento adicional para a visão crítica de “democracia”, parte do relato revela que a realização do acordo judicial não significa reconhecimento de culpa pela empresa. Uma estranha combinação porque, a menos que se sentisse ameaçada pela publicidade das consequências de suas ações, a empresa nunca proporia um ressarcimento aos afetados. Ou seja, esse pagamento tem toda cara de indenização o que, do ponto de vista forma, implicaria sim em reconhecimento de responsabilidade ou culpa por, no mínimo, ter causado dano ao patrimônio dos afetados.
    Mas é sempre preciso estar atento para a tentação de atribuir exclusivamente a uma conspiração essa realidade do “fracking” e da indústria do petróleo em geral. Na verdade, a possibilidade de extrair petróleo e gás dessa forma (ambientalmente terrível) está causando imensa valorização imobiliária das propriedades situadas na superfície dessas formações. A compra desses terrenos por empreendimentos petroleiros tem sido um dos raríssimos elementos dinâmicos dentro do cenário de marasmo e alto desemprego que persiste na economia dos EUA desde 2008. Ou seja, para muitos dos proprietários desses terrenos, é possível que essa atividade petroleira seja a salvação da lavoura em termos financeiros. A meu ver, o movimento da economia causado pela valorização das propriedades é um importante elemento político que permite ao poder público “fechar os olhos” para o que está acontecendo. Tem mais, não é só nos EUA. O governo da Argentina está usando toda sua força para fomentar o mesmo tipo de atividade nos promissores campos da pródiga província petroleira de Neuquén. O perigo já está morando ao lado, e daqui a pouco vai bater às nossas portas. É a dura realidade.

  6. Há poucos anos os produtores da série de televisão CSI foram intimados judicialmente a não exibirem episódio em que denunciavam o fracking (leiam abaixo) como perigoso para a saúde humana (pelos riscos, muitas vezes comprovados, de explosão do subsolo e em poços freáticos e de contaminação da água do subsolo, freática, semi-artesiana e artesiana, e do ar acima).
    O episódio mostrava, além disso, práticas ilegais de constrangimento e coação de vítimas dos gases fraqueados e de jornalistas.
    A produtora recorreu e, munida de instrumento suspensivo, exibiu o episódio [exibido dublado no Brasil em 2012), que deu origem à celeuma pública sobre o assunto, ao mostrar a morte de fazendeiro, atingido pela explosão de poço freático.

    São desconhecidos (mas muito prováveis) os efeitos sobre a biodiversidade e os recursos hídricos da contaminação forçada por hidrocarbonetos gasosos e em vapor no subsolo.
    Hidrocarbonetos voláteis, solúveis e seus colóides podem ser tóxicos e cancerígenos, mesmo em baixas doses, desde que haja exposição por tempo prolongado.

    A atitude do legislativo da Pensilvânia nos parece especialmente grave, por ser iniciativa legal de cerceamento de direitos básicos do cidadão, prática essa autoritária, essencialmente leonina (para as empresas) e inadmissível.

    O fracking (“fraqueamento”) já foi proposto para ser utilizado no Brasil, para aproveitamento de hidrocarbonetos de depósitos de xisto, pelo que consideramos relevante a publicação, aqui, da notícia baixo.

    Interessa-nos, e muito, a questão política envolvida no problema, representada pela manipulação da informação e dos direitos básicos das pessoas, que não pode ser tolerada em meio social sadio, que pretendemos ajudar a construir.

    É justo que os lucros estejam sempre à frente da saúde, da segurança, da liberdade individual e da conservação da natureza?

    A
    Coordenação de Conservação
    Instituto Pró-Endêmicas
    http://br.groups.yahoo.com/group/proendemicas/

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