Irã “domesticado”? Aposta errada do Ocidente

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Hassan Rouhani, o novo chefe de governo

Novo presidente pode rever radicalismo retórico de Ahmadinejad mantendo defesa dos interesses de seu país e solidariedade com palestinos

Por Vinícius Gomes

“Bye bye, Ahmadi”, foi um dos gritos entoados pela multidão que comemorava, há semanas, a eleição do novo presidente do Irã, o o clérigo, Hassan Rouhani, 64. O “Ahmadi” no caso, refere-se a seu antecessor, Mahmoud Ahmadinejad, que será para sempre lembrado, entre as inúmeras polêmicas suscitadas durante o seu governo, pelo esforço para enriquecer urânio – algo permitido pelos Tratado de Não-Proliferação Nuclear mas rejeitado pelos Estados Unidos e Israel.

A grande pergunta que parece preocupar os governos europeus e o norte-americano é “como Rouhanni lidará com essa questão?”. As pressões sobre ele não virão apenas dos governos ocidentais. Como a economia foi fragilizada pelas sanções internacionais comandadas por Washington, parte da população sente-se intranquila.

No debate pré-eleitoral, todos os candidatos criticaram abertamente Ahmadinejad, pela inabilidade no caso. Rouhani, o novo presidente, apesar de visto como “moderado” no Ocidente, defendeu o direito de seu país a enriquecer urânio para fins pacíficos. Tem boas credenciais no assunto. Durante o governo do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005), ocupou o cargo de negociador-chefe para assuntos nucleares. Possui um doutorado em direito pela Universidade Glasgow Caledonian, na Escócia e é fluente em inglês, russo, alemão, francês e árabe. Fez promessas de melhorar as relações com o Ocidente. Analistas apostam que o primeiro passo nesse sentido será restabelecer as embaixadas em Londres e em Teerã. Em 2011, após um ataque sofrido, a embaixada britânica foi fechada no Irã, seguido pelo fechamento da iraniana em Londres.

Mas as coisas não serão tão fáceis para os EUA e seus aliados. Rouhani já mandou seu primeiro recado à Israel — em, 2 de agosto, dia A-Qods, ou o Dia de Jerusálem.

Consiste em um desfile anual que representa solidariedade aos palestinos e claro, crítica à Israel: “Existe há anos uma ferida aberta no corpo do mundo islâmico sob a sombra da ocupação da terra sagrada da palestina e de nossa querida Jerusalém”, disse ele.

O primeiro-ministro de Israel replicou imediatamente, de forma áspera. Afirmou que, com tais palavras, Rouhani mostrou sua “verdadeira cara”. Por trás da retórica, há fatos que precisam ser compreendidos em sua complexidade. Por mais que mudem os fatores conjunturais, com a eleição de um moderado ou um reformista, o Irã precisa enfrentar uma barreira, inclusive em sua própria região. Diferente do que muitos pensam, o país, apesar da maioria muçulmana, não é um país árabe – e sim persa. As potências regionais — Egito e Arábia Saudita, especialmente – sempre tentaram frear a influência iraniana no Oriente Médio. Se não quiser correr o risco de alienar os demais países árabes, nada melhor, para o novo presidente, que defender a Palestina e enviar um “recado” à Israel.

Desafios internos, pressões externas: Como em toda a democracia, não basta vencer uma eleição, é necessário apoio político para conseguir governar. Especialmente no caso de Rouhani, que promete implementar mudanças. Ele terá que lidar com duas frentes: os políticos chamados de “linha-dura” e o líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei. Rouhani precisa dos “linha-dura” para ter uma influência maior sobre o Aiatolá, que é o líder religioso – e, segundo a Constituição,líder de facto do país. Deém a última palavra em várias questões nacionais.

O presidente precisa, inclusive, do endosso de Khamenei para tornar-se presidente. Quanto aos “linha-dura”, eles precisam de Rouhani para melhor conduzir a economia, que está em clara recessão. As sanções que o Irã vem sofrendo — inclusive as pressões dos EUA sobre os principais consumidores do petróleo iraniano (China, Japão, Coreia do Sul), para que busquem outros fornecedores – derrubaram em mais de 65% as exportações do país. Outros números também assustam, como a inflação no preço dos alimentos (em 60%) e o desemprego (que atinge 12% da população).

As sanções do Congresso norte-americano destoam do discurso da Casa Branca, que estaria supostamente empenhada em melhorar as relações bilaterais. A partir da posse formal do presidente, nesse sábado, teremos um novo ator no cenário turbulento do Oriente Médio. Boa sorte para Rouhani, e para todos nós.

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Um comentario para "Irã “domesticado”? Aposta errada do Ocidente"

  1. selmo disse:

    em matéria de hipocrisia – se for mesmo esse o caso – Rouham não é pareo para Netaniahu e a extrema direita israelense….E basicamente quase todo isralense pensa como um dos pais fundadores da mitologia sionista e presidente de israel Chaim Weissman…dizia ele: “os árabes moderados sao mais perigosos para israel que os extremistas”.

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