Uma pedra de crack no caminho da reurbanização

O alarmismo midiático em torno da droga abre espaço para um projeto de cidade que visa estabelecer a segregação — e esquece a saúde

Mais uma vez, o crack é pauta da mídia. O discurso alarmista que circula nos jornais e televisões difunde o problema da chamada “cracolândia” de São Paulo como questão urgente e de solução complexa. A droga é demonizada e seus consumidores são considerados população de segunda categoria. Há quem afirme haver uma epidemia relacionada ao uso desta substância no Brasil.

A solução mágica da internação compulsória de pessoas que fazem uso do crack – entre elas crianças e adolescentes – parece ser a panaceia para o grande mal que assola as cidades e aterroriza as famílias. Projetos de lei de iniciativa municipal e estadual, intervenções do Tribunal de Justiça de SP e um poderoso lobby que envolve a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP, a indústria famacêutica, os donos de clínicas de tratamento e comunidades terapêuticas com  viés religioso (1) agem nesta direção, prometendo, cada qual na sua esfera, solucionar o problema.

De fato, existem situações de abuso do crack. Mas a campanha em favor da internação compulsória tem servido de biombo para dois movimentos articulados. Um, de roupagem moralista, procura restaurar o manicômio e reverter importantes avanços alcançados nas políticas de saúde mental, nas últimas décadas. Revela a face do saber médico que pretente retomar o monopólio sobre a loucura e seu tratamento. O outro atua na produção do espaço urbano e disputa as regras das cidades: quer acelerar a segregação nas grandes metrópoles e expulsar os pobres de algumas das suas regiões centrais — destinando-as ao capital imobiliário e financeiro transnacional.

MAIS:

(1) Comunidades terapêuticas não são dispositivos de saúde pública. São a versão moderna dos antigos manicômios, seja pela função social a elas endereçada, quanto pelas condições de uma suposta assistência ofertada. Elas reintroduzem o isolamento das instituições totais, propondo a internação e permanência involuntárias. Centram suas ações na temática religiosa, frequentemente desrespeitando tanto a liberdade de crença quanto o direito de ir e vir dos cidadãos. Rompem, portanto, com a estrutura de rede que vem sendo construída pelo SUS, não havendo qualquer justificativa técnica para seu financiamento público. (in: Manifesto do CFP: 13 razões para defender uma política para usuários de crack, disponível aqui).

 

TEXTO-FIM

3 ideias sobre “Uma pedra de crack no caminho da reurbanização

  1. O post está corretíssimo ao denunciar certa, digamos, sordidez das políticas públicas(e privadas) em torno do crack. Mas, por outro lado, faltou objetividade em articular essa crítica a alternativas. O problema do crack é seríssimo e seu caráter “epidêmico”, como dizem, não se afasta de certa “epidemia” que ocorre mesmo. Pelo preço barato, pode ser considerado uma droga “brasileira”, bastante acolhida pela população “drogadicta” de baixa renda. Até em cidades pacatas do interior a droga já chegou. Não é um efeito colateral cortadores de cana a utilizarem. Como se vê e o post o supõe, o crack está intimamente articulado com várias práticas (degradação do trabalho, exclusão, ausência de assitência, emprego, fiscalização pública etc.). Que algo deve ser feito, isso é claro. Que o que deve ser feito não deve perpassar boa parte do discurso que se apresenta como solução, isso também é bastante claro. Mas e então, como tratar o problema?

    abraço,

    • Oi Catatau! obrigada por seu comentário. Penso ser preciso refletir sobre esse discurso de haver uma “epidemia” – sobre o qual há divergências como a da própria Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) ou do psiquiatra e professor Dartiu Xavier, coordenador do PROAD – Programa de Orientação e atendimento a dependentes da UNIFESP. O alcool, cujos efeitos sobre a sociedade tem enorme repercussão – talvez maior que o crack, não é visto como epidemia. Esta visão pode justificar soluções irrefletidas. Sobre as alternativas, não sei se vc chegou a ler a segunda e terceira partes do texto, onde apresentei algumas diretrizes e práticas já em andamento no campo da saúde mental e redução de danos: http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/10/13/internacao-de-usuarios-ultimo-recurso-ou-medida-banal/ . Abraços

  2. tenho um amigo que há 20 anos foi viciado em rivotril e daí pulou pro crack, pro “assombramento” do crack foi um pulinho de nada. ninguém quer saber dele, nem família e nem amigos históricos. nunca vi uma pedra de crack ao vivo, mas me sinto tomada pelo crack, dado que não é contagioso, é contagiante.

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