Uma das reações ao terror político precisa ser a valorização do Legislativo

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Marielle Franco, símbolo de resistência. (Foto: Mídia Ninja)

Ocupação de cargos parlamentares será uma resistência ao “cala a boca” embutido na ofensiva da direita; esquerda precisa parar de girar apenas em torno do Executivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Vereadora Marielle? Presente. Deputadas Marielles? Presentes. Senadoras Marielles? Presentes. Defendo esta versão utópica do cenário político sem exemplos do Executivo porque a sociedade brasileira precisa se dar conta da importância do Legislativo. Marielle Franco foi executada no Rio, ao que tudo indica, por falar. Por defender direitos de gente que vive em territórios ocupados por militares ou paramilitares, mas também – literalmente – por empunhar microfones.

E uma das melhores homenagens possíveis a ela, portanto, é a tomada das Câmaras e Assembleias por centenas de resistentes. Em nome de milhões de brasileiros que não aceitam essa desproporção nos cargos parlamentares, ocupados há séculos pelas elites econômicas, quando muito por elites partidárias. Em março de 2018 a sociedade ainda pode se mobilizar para que seja incluída – e mais gente levante bandeiras como a que a vereadora carioca levantou. Continuar lendo

Com a filha de Roberto Jefferson, “O Povo na TV” chega ao Ministério do Trabalho

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Cristiane Brasil e Roberto Jefferson. (Foto: Antonio Augusto/Agência Câmara)

Presidente do PTB era um dos protagonistas de programa de baixarias na TVS; ao bancar Cristiane, governo Temer referenda esse Brasil dos latifúndios midiáticos

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Engana-se quem pensa que Roberto Jefferson surgiu com a denúncia do mensalão. Ele já era deputado e dono (usurpador) do PTB. E por que era deputado? Porque se projetou como advogado barraqueiro de um programa chamado “O Povo na TV”, na TVS – depois SBT. Vejam só o nome: “O Povo na TV”.

O povo estava na TV, naquele início dos anos 80, para ser humilhado. E gerar audiência para um empresário sem escrúpulos: Sílvio Santos.

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Esquerda sem mea culpa ignora julgamento simbólico do Congresso, em SP

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IV Tribunal Tiradentes julga parlamentares nesta segunda, às 19 h, no Tucarena, mas falta apoio: forças de resistência fazem de conta que problema está apenas na direita

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

É impressionante a falta de entusiasmo diante da realização do IV Tribunal Tiradentes, nesta segunda-feira (25/09), às 19 horas, em São Paulo. O evento que, em 1983, julgou a Lei de Segurança Nacional, no ano seguinte o Colégio Eleitoral e, em 2014, a Lei de Anistia, julgará agora o Congresso.

Mas não vejo os setores de resistência abraçados à causa.

Como se todas essas trevas que vivemos não fossem diretamente obra direta de deputados e senadores. (O escroque MIchel Temer, por exemplo, presidiu a Câmara.) Continuar lendo

Bolsonaro com 20% dos votos e os crentes em intervenção militar “temporária”

Bolsonaro com o pós-golpista General Mourão.

Bolsonaro com o pós-golpista General Mourão.

Distraídos de todo o Brasil imaginam umas “Forças Armadas do Bem”, capaz de entregar o país novamente limpo da corrupção; desconhecem profundamente a história

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Impressionante como começo a ver gente do campo supostamente progressista defender a intervenção das Forças Armadas contra essa corja golpista e corrupta que tomou o país de assalto. Imaginam (o que é curioso) umas Forças Armadas do Bem, que retirariam essa quadrilha sem maiores conflitos – e devolveriam uma eleição “limpinha” em 2018. Algo do tipo “lavôtánovo”.

Só que não é assim que funciona a política. Não é assim que funciona a história. Não é assim que funcionam as Forças Armadas. Não é assim que funciona o mundo.

Não à toa, ontem, no programa do Pedro Bial, o comandante do Exército negou a hipótese de que general golpista Antonio Hamilton Mourão seja punido: “Comandante do Exército descarta punir general que sugeriu intervenção“.

Isso acontece no mesmo momento em que outro grupo político, o dos apoiadores perenes de militares no poder, empresta 20% das intenções de voto à Presidência da República a um desqualificado limítrofe, um capitão machista, truculento e hipócrita chamado Jair Bolsonaro.

Somando os dois grupos, quanto teremos? Entre militaristas assumidos e aqueles temporários e (já não tão) envergonhados? 25% do eleitorado? 30%? Ora, onde foi que enterramos nossa memória?

É por isso que falo em um Pato de Troia. Introduzido junto com o Golpe do Pato. Em captura. E por isso falo em sequestro do bom senso. E da necessidade de ler o país sem as referências – imediatistas e repletas de puxadinhos – dos próprios golpistas.

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Paulo Skaf e o Congresso: o Golpe do Pato como Ensaio Sobre a Cegueira.

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Difícil, em um momento como esse, não lembrar da Velhinha de Taubaté. O personagem de Luis Fernando Verissimo – sintomaticamente demitido há alguns dias da RBS, após 45 anos – consistia numa idosa panglossiana que era a última a acreditar nos militares e no presidente João Baptista Figueiredo.

Em pleno ano de 2017, uns querem uma variação abobada do general Figueiredo no poder: o capitão Bolsonaro. E nem são tão velhinhos assim. Outros já imaginam as tais Forças Armadas do bem. (É uma memória amarelada das forças verde-oliva. Uma Memória do Pato.)

Ora, quanto excesso de ingenuidade. E quanta overdose de falta de memória. Militares no poder são corruptos. Extremamente corruptos. Com o agravante de que não há liberdade de imprensa (sem falar no controle do Judiciário) e essa corrupção não pode – durante a intervenção – ser devidamente evadida.

Militares no poder são genocidas. Destruíram populações indígenas (em ritmo mais acelerado do que os arremedos de democratas, anteriores e posteriores), mataram camponeses mais do que mataram a classe media revolucionária ou resistente.

Expulsaram artistas. Expulsaram políticos, intelectuais. Expulsaram (em 1964, quando alguns argumentos eram parecidos com os atuais, não em 1967) até o Josué de Castro, um herói nacional que lutava contra a fome, que morreu de desgosto no exílio.

Censuraram. E torturaram. Torturaram muito. (E torturaram a história e a educação, por isso ainda nos torturam.)

Ainda estamos com os ouvidos despedaçados por causa da técnica do “telefone”, aquela técnica de tortura que consistia em espalmar violentamente os ouvidos das vítimas. Ainda estamos assim, meio surdos, traumatizados. Mesmo os que nasceram depois. Ou os que éramos crianças nessa fase animalesca.

***
É isso que acontece. Estamos atordoados. Eu que ouvia o sargento Castro descrever carismaticamente torturas no Tiro de Guerra de São Carlos (e estapear o atirador Éden, por onde andará o Éden?), no fim dos anos 80, vejo agora uma fileira de atordoados relativizar tudo isso, neste ensaio oliva sobre a cegueira.

É um massacre. Cuidadosamente alimentado por farsantes, do MBL (que de liberal tem muito pouco, claro) aos apresentadores de programas de jornalismo cão, das PMs aos governadores que toleram milícias e grupos de extermínio, todos a serviço de pessoas (entre eles os donos dos meios de comunicação) comprometidas com o livre exercício do capital – e não com as liberdades democráticas.

Bolsonaristas bancarem essa sintonia sórdida com o passado – e, paradoxalmente, com os crimes que eles dizem combater – já é difícil de aceitar. Pois é preciso ter algum orgulho da própria ignorância histórica (e do ódio decorrente dessa falta de formação) para apoiar esse canalha e esse tipo de discurso falso e violento.

A Velhinha era a última a acreditar no regime militar.

A Velhinha era a última a acreditar no regime militar.

Agora, estar supostamente no campo democrático, abominar esse patife e assumir essa Síndrome de Estocolmo soa até ridículo. (Como se a Velhinha de Taubaté tivesse ido fazer um pós-doc em Estocolmo e voltado com técnicas avançadas de marketing.)

Embora também esse fenômeno possa ser explicado com as próprias luzes da história que essas pessoas começam a ler com olhos distorcidos

(como se daquela operação para colorir os olhos, ao se retirar a camada de olhos castanhos, emergisse não o azul, mas o verde-oliva)

e com olhos torturados.

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Os irmãos Vieira Lima são três: Geddel e Lúcio

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Afrísio Vieira Lima é personagem oculto na trama familiar, embora divida fazendas com irmãos, ocupe alto cargo na Câmara e tenha sido tesoureiro da fundação do PMDB

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Os irmãos Geddel são três: Geddel, Lúcio e Afrísio. Intriga-me o esquecimento de Afrísio nas notícias sobre a família. Fala-se até da mãe, do pai falecido, mas não do terceiro irmão. Pois bem: Afrísio Vieira Lima Filho é diretor legislativo da Câmara.

Geddel Vieira Lima virou um astro pop às avessas. Sintetiza como poucos essa geddelização da política brasileira. Com seu olhar meio assustado. É um corrupto que dá para imaginar no churrasco mais próximo, quebrando um copo, gargalhando. Continuar lendo

De Brasília a Curitiba, afirma-se ofensiva fundamentalista na educação

"Pele de Asno". (Jacques Demy, 1970)

“Pele de Asno”. (Jacques Demy, 1970)

Jornal Gazeta do Povo ataca teses de ciências humanas ligadas à sexualidade; MEC recolhe livro por considerar conto tradicional “apologia ao incesto”; teremos um índex?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Duas notícias aparentemente díspares, na semana passada, tomaram as redes sociais. E apontam para uma mesma tendência: fundamentalismo. Ambas tratam de educação. Uma delas foi uma peça publicitária contra as ciências humanas – disfarçada de jornalismo – no principal jornal paranaense, a Gazeta do Povo. A outra, a decisão do Ministério da Educação de recolher 98 mil exemplares de um livro por considerá-lo “impróprio”.

Essa aliança específica entre imprensa tradicional e o governo de Michel Temer não é casual. Está ligada à ideologia da Escola Sem Partido, por um lado, ao esvaziamento da diversidade e da perspectiva crítica no ensino. Por outro, aponta para uma migração de determinada posição moralista, não somente religiosa, refratária a temas que os jornalistas paranaenses e a equipe do ministro da Educação, Mendonça Filho, julgam incômodos.

É como se as políticas públicas tivessem, neste momento sombrio que atravessa o Brasil, de se submeter ao pudor desses senhores. Continuar lendo

Massacre de Pau D’Arco e Massacre de Brasília: duas faces de um país que regride

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

Brasília, 2017. (Foto: Walter Serra/Mídia Ninja)

O assassinato de dez camponeses no Pará remete o Brasil aos anos 90; o Exércico reprimindo manifestações na capital, aos anos de chumbo; tudo no mesmo dia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em Pau D’Arco, no Pará, dez camponeses foram mortos pela polícia, nesta quarta-feira. O mesmo número do Massacre de Corumbiara, em Rondônia, em 1995. No ano seguinte foram mortos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, também no Pará. As duas matanças marcaram o governo de Fernando Henrique Cardoso. Por isso é preciso que se dê o nome de massacre, com todas as letras: o Massacre de Pau D’Arco já passa a ser uma das marcas do governo de Michel Temer.

Outra marca desse presidente transitório ficará gravada para sempre na história brasileira da infâmia. A indefensável e intempestiva decisão – curiosamente corroborada por um ministro que já foi de um partido comunista, Raul Jungmann – de autorizar o uso do Exército para reprimir uma manifestação. Isto em um país supostamente democrático. Ocorreu ontem, em Brasília. Mas demorará a ser esquecido. Continuar lendo

“Eles não sabem o valor de uma nota de cem”

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Preso no trânsito, taxista de Belo Horizonte faz uma reflexão sobre dinheiro e poder, a partir do caso JBS e do valor concreto ou desconhecido de uma nota de R$ 100

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A jornalista Constança Guimarães contou esta história nas redes sociais. Ela pegou um táxi em Belo Horizonte. Era o começo da noite de sexta-feira, 19 de maio. Um dia após estourarem as notícias sobre a JBS. O trânsito estava lento. “Mas melhor que ontem”, disse o taxista. “Porque em dia de manifestação fica muito parado mesmo”.

Constança disse a ele que manifestações precisam provocar desconforto, interferir no cotidiano para motivar reflexão. Em muitas outras vezes já havia se posicionado dessa maneira e sua colocação fora recebida com arroubos “a esmo”, como ela disse, ou dirigidos a ela “com muita, muita ênfase”. Algumas dessas ênfases, violentas.

Foi quando o taxista disse: “Mas é claro. Senão vira piquenique.” Continuar lendo

“Carne Fraca”: por que a imprensa blinda Blairo Maggi?

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(Foto: EBC)

PF fez busca a apreensão no gabinete do ministro, em sala que abriga responsáveis por contato com o Congresso; em agosto ele reduziu fiscalização sanitária

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

De Olho nos Ruralistas informa: ““Carne Fraca”: PF fez busca e apreensão no gabinete de Blairo Maggi“. Não na sala específica do ministro da Agricutura, mas no gabinete, no mesmo andar – na sala onde ficam os responsáveis pela articulação política e pela relação com o Congresso. A grande imprensa não deu, embora a informação (com endereço e tudo) esteja escancarada na lista de busca e apreensões divulgada pela Polícia Federal.

Não deu porque é distraída ou porque há interesse de patrões e editores em blindar o ministro?

Em agosto, Maggi anunciou que reduziria a fiscalização sanitária. Foi uma das medidas anunciadas no plano Agro+. A imprensa também ignorou. É novamente o De Olho nos Ruralistas – um observatório sobre agronegócio no Brasil – que informa, em notícia na semana de inauguração do site, em setembro: “Maggi reduz fiscalização sanitária: ‘É o mercado que vai punir quem faz coisas erradas'”. Continuar lendo

Brasil merece conhecer relações entre “senador da chalana” e Carlinhos Cachoeira

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Wilder de Morais, dono do barco-boate onde esteve Alexandre de Moraes, foi investigado na CPI do bicheiro; seu sócio no Hotel Nacional foi sócio de Cachoeira

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A imprensa vai blindar Wilder de Morais (PP-GO) e os demais senadores que estavam na chalana de sua propriedade, o barco-boate onde ele recebeu, para uma sabatina muito peculiar, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes? Ou serão expostas as conexões entre Morais e o bicheiro Carlinhos Cachoeira? E entre ele e o senador cassado Demóstenes Torres, de quem foi suplente por ser um empresário milionário? E entre Sandro Mabel, assessor especial de Temer, e Cachoeira?

Que o engenheiro Wilder Pedro de Morais esteve na CPMI do Cachoeira, em 2012, na época como suplente de Demóstenes Torres (DEM-GO), há algumas referências tímidas na mídia, aqui e ali – em 2017, poucas. Mas falta relembrar que ele mereceu um item inteiro no relatório da CPI. Os nobres parlamentares concluíram que não havia ligação dele com a organização criminosa, mas os diálogos que conectam os dois personagens talvez possam ser resgatados pela eventualmente curiosa imprensa brasileira. Continuar lendo