A chantagem política naturalizou-se; é hora de combater a chantagem política

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A disputa por um país melhor não pode passar pela demonização de apenas uma figura política mais nefasta; e sim pela construção de outros métodos possíveis

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

O Brasil se move há décadas sob o signo da chantagem. Para um sistema político mais sadio não adianta apenas combater este ou aquele parlamentar mais obsessivo-compulsivo, como se ele fosse a única encarnação desse método. Mas combater sua consolidação, sua aceitação e banalização, por governos de diferentes siglas, estrelas e plumas. O pragmatismo político naturalizou a chantagem, tornou todo o país sua refém. E se engana quem imagina uma política mais saudável enquanto essa for a lógica, essa for a linguagem política dominante, enquanto houver esse milagre da perpetuação de uma minoria voraz.

A chantagem tem uma etimologia controversa. Uma delas mais rústica. Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, viria de chantar; plantar o chantão, aquela estaca em torno da qual surge nova árvore. Mas há outra versão mais poética – e que vai além da língua portuguesa. A palavra viria do francês “chanter” = cantar. Seria usada no sentido de obrigar alguém a cantar. A chantagem seria uma prima mercantil da cantada. De qualquer forma, o termo ganhou o sentido de se obter algo por meio de ameaça, extorsão, pressão ilícita. Na política, cargos, dinheiro – mas também, na prática, controle de políticas públicas. Os chantagistas não possuem a beleza de sermos eternos aprendizes; são exímios profissionais da estocada.

A chantagem é, portanto, o canto diário de uma sereia – poluída. Uma sereia cuja parte de baixo tenha sido contaminada por resíduos abjetos (sabe-se lá em que rios terá nadado), mas se expressa de modo melífluo por figuras de cabelo acaju, fios implantados e voz serena, muitas vezes com imensa eloquência e capacidade de sedução. A chantagem dá tapinhas nos ombros, conversa no pé do ouvido e usa colunas de jornais como campo fértil para sua perpetuação. Políticos e jornalistas muito bem intencionados (outros, nem tanto) caem todos os dias nesse conto do vigário, de vigários engravatados e calculistas. Por vezes, como se vê, mais agressivos e explícitos.

A CHANTAGEM É UMA KRIPTONITA

A chantagem suga, engole, exaure. Tem engolido neste país isso que chamamos de democracia, essa ilha cercada de imposições por todos lados. Este país que dá o nome de “democratas” a representantes de um de nossos períodos mais tristes, este país contraditório, que celebra nas ruas o nome de seus piores canalhas, este país com essa dialética às avessas, com esse alastramento de kriptonitas políticas, essa demolição calculada de qualquer ímpeto de mudanças, essa máquina de moer utopias. A chantagem é serva da perpetuação de um determinado modelo econômico. A chantagem é plutocrata. Concentradora de renda.

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A chantagem tem várias expressões. As manifestações de movimentos sociais – manifestações vitais para uma democracia de verdade – são coibidas sob o signo de uma chantagem implícita: não ocupem seus espaços (públicos), não saiam da linha, não sejam tão utópicos; porque senão soltaremos os cachorros e o Choque, as balas de borracha e aqueles gases amortecedores de cidadania. As chantagens são ameaças, que cauterizam outros métodos possíveis. Não ocorrem apenas a partir dos sussurros dos presidentes de plantão do Senado e da Câmara. Mais chantagens, mais controle, menos renovação, menos direitos.

A chantagem política não é filha ou sobrinha da corrupção, mas sua controladora. Em casamento de comunhão de bens com os financiamentos de campanha, lícitos ou ilícitos. Cínica, a chantagem brincará com a palavra “corrupção” como quem brinca de gato e rato, um gato brincando com sua presa, utilizando a palavra como arma, argumento, gatilho – pois ganhará com isso, mesmo que sejam os chantagistas os principais beneficiários dessa corrupção. A chantagem se perpetua também no sistema eleitoral e (populista que é, ótima atriz que é) chantageia também eleitores. Estes passam a se mover por medo – medo de perder direitos, perder segurança, medo do pior. A chantagem gera uma gigantesca Síndrome de Estocolmo.

A CHANTAGEM É UM VÍRUS

A chantagem tem um partido favorito. Tão senhor de seus métodos que nem postula os cargos principais – os cargos dos chantageados. Prefere se multiplicar em dezenas de parlamentares, ministros, diretores, superintendentes. A chantagem é um vírus. Ingênuos foram os que identificaram 300 picaretas. Ela tem 300 x 300 chefetes e um punhado de chefões, acostumados a colocar a faca em pescoços incautos ou calejados. O sistema político chantagista sucedeu a truculência explícita da ditadura militar. A chantagem não necessariamente está no Executivo; a não ser quando ele se torne uma coalizão de chantagistas. (Sob risco de morrerem por autofagia e overdose.)

A chantagem tem suas conjunturas. Joga suas luzes sobre determinada presidente, determinado dono do cofre ou da caneta. Como não tem nada a perder, está sempre apta a destruir reputações. (Pode ser um senador ou deputado. A chantagem é um escorpião. Para se reproduzir, precisa ciclicamente sacrificar alguns bois de piranha.) A chantagem é psicopata. Sem pudores e escrúpulos. Imputará aos outros sua falta de pudor ou sua falta de escrúpulos, para que passe impune. Troca seus hospedeiros (principalmente aqueles que se revelem menos simpáticos a suas pressões) para passar despercebida.

E a chantagem é genocida. É por causa dessa minoria de chantagistas (minoria na sociedade, entenda-se, não no poder) que vemos o genocídio dos povos indígenas e o genocídio dos jovens negros, a destruição dos biomas e a ausência de reformas urgentes: agrária, urbana. Porque a chantagem é conservadora. Não apenas perpetua o horror, ela se move a partir do horror. Claro que a chantageada (ou o chantageado da vez) pode ser uma inepta insensível a esse massacre; mas os chantagistas são incorrigíveis, na origem, não possuem qualquer histórico de defesa remota dos direitos fundamentais. Os chantagistas promovem o terror com mão leve e voz doce – ao menos com quem convenha.

A CHANTAGEM É RETICENTE

O Brasil precisa acabar com essa avalanche de chantagens para ser mais Brasil. Um todo, um conjunto, e não uma polpa tóxica movida a interesses individuais, imediatistas e ávidos. A chantagem é a parte de nossa extrema direita que se disfarça de centro. Que engole partidos que já foram de esquerda ou de centro-esquerda. A chantagem promove a cizânia. Inventa FlaxFlus onde não existem, para parasitar tanto os Flas como os Flus, os Bavis e os Grenais. A chantagem é manipuladora. Para combatê-la é preciso assentar a poeira (cada vez mais poluída) e multiplicar o discernimento. Com menos exclamações e mais sabedoria. Pois a chantagem é reticente.

O Brasil não nasceu sob o signo da chantagem. Acostumou-se a ela, está sendo devorado por ela. Para combatê-la é preciso que cada cidadão seja menos ingênuo e mais capaz de identificar os predadores estruturais, que aprenda a separar o joio do trigo. Que não ceda aos chantagistas. Mesmo que os chantageados sejam ineptos ou antipáticos. Ou que deles discordemos. Pois são eles e elas – e não os chantagistas de plantão – que conseguirão, eventualmente, reverter o processo. Não por serem os melhores (procuram-se os melhores), mas por não compactuarem com essa implosão. Para combater a chantagem é preciso que cada cidadão seja potencialmente um estadista.

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12 comentários para "A chantagem política naturalizou-se; é hora de combater a chantagem política"

  1. Denise Assis Fleury Curado disse:

    Sempre gosto dos textos de Alceu Castilho. Parabéns! Excelente reflexão

  2. Denise Assis Fleury Curado disse:

    Sempre gosto dos textos de Alceu Castilho. Parabéns! Excelente reflexão

  3. Lucia Dias disse:

    Muito bom, adoro seus textos.

  4. Lucia Dias disse:

    Muito bom, adoro seus textos.

  5. Elizabeth Artmann disse:

    A chantagem é um vírus. Sábia reflexão. Clara, bem escrita e chama a atenção para a necessidade de discernimento nesta hora de crise em que o comum é jogar fora a criança com a água do banho; juntar o trigo e o joio e não conseguir olhar a partir de vários ângulos.
    Difícil se livrar de um vírus (gostei da comparação), mas não impossível!

  6. Elizabeth Artmann disse:

    A chantagem é um vírus. Sábia reflexão. Clara, bem escrita e chama a atenção para a necessidade de discernimento nesta hora de crise em que o comum é jogar fora a criança com a água do banho; juntar o trigo e o joio e não conseguir olhar a partir de vários ângulos.
    Difícil se livrar de um vírus (gostei da comparação), mas não impossível!

  7. José Roberto Guasti disse:

    Um texto de pura verdade. Uma pena que poucos se prestam a pelo menos ler. Raciocinar então…

  8. José Roberto Guasti disse:

    Um texto de pura verdade. Uma pena que poucos se prestam a pelo menos ler. Raciocinar então…

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