⏯️ O que a pandemia diz sobre dinheiro, Estado e esquerda

Trilhões são impressos agora, para salvar o cassino financeiro, bancos e corporações. Uma ínfima parcela socorre as maiorias. Tudo poderia ser diferente. Mas, presas ao que Marx enxergou em seu tempo, esquerdas relutam a entrar na disputa

Por Antonio Martins

Há um problema grave em Nova York, neste exato momento. Em contraste bizarro com a economia real, que despenca em queda livre, o índica da bolsa de valores não para de subir. Houve uma queda abrupta (de quase 40%) a partir de fevereiro, quando ficou claro o desarranjo global dos mercados financeiros. Mas a partir de 23 de março – exatamente quando a pandemia mostrou seus dentes nos EUA – a curva começou a se inverter. Nas sete semanas entre aquela data e a última segunda-feira, 11/5, a alta foi de 30,3%. A própria revista Economist, que crê num mundo governado por mercados, considera os números aberrantes.

Na edição de 7/5, Economist tenta explicar o que ocorreu. Na véspera de começar a corrida para o alto, os governantes e presidentes dos Bancos Centrais dos EUA, União Europeia, Inglaterra e Japão fizeram promessas inéditas. Anunciaram que não haverá limites para a criação de dinheiro novo, no esforço para salvar os mercados financeiros. E cumpriram a promessa, de diferentes maneiras. O Federal Reserve (ou Fed, BC norte-americano) passou a comprar ações “numa escala inimaginada”, segundo a revista. Mas não só. Assumiu, também, volumes cada vez maiores da dívida das corporações, “inclusive papéis altamente podres [junk]”. Os grandes investidores – bilionários ou fundos gigantescos – seguem o caminho e investem na bolsa também. Sabem que as rios de dinheiro lá despejados pelo Fed elevarão as cotações. Querem participar da folia. Ela é tão extravagante que até empresas de cruzeiros marítimos, cujos navios permanecerão ancorados talvez por anos, estão sendo capazes de captar dinheiro, lançando ações. Após a crise anterior, de 2008, foram emitidos cerca de 40 trilhões de dólares, em todo o mundo, para irrigar os mercados. Agora, é provável que sejam muito mais.

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Economist apoia a emissão de montanhas de dinheiro pelos Estados ricos. Enxerga que esta era a única maneira de salvar o sistema econômico que defende, interrompendo “uma cascata de falências de grandes empresas”. Mas está preocupada com três consequências, três impasses do capitalismo em crise, que não sabe bem como enfrentar. Primeiro: o delírio é insustentável. Nada assegura que estas intervenções nos mercados sejam capazes de reanimar a economia real. Enquanto Wall Street festeja, o índice de desemprego saltou de 3,5% para 14,7% entre fevereiro e abril; e mais de 1,5 mil norte-americanos morrem de covid-19 por dia, boa parte por falta de assistência médica. Segunda: haverá uma onda de fraudes. O mar de dinheiro permitirá a executivos afogar a evidência de falcatruas contábeis e fiscais. Quando elas aparecerem, no futuro, poderão surgir escândalos que abalarão a os mercados – como os da Enron em 2001 e o do banco Lehman Brothers, em 2008. Terceira, e mais importante: o risco político e o possível rugido das ruas. A desigualdade, que já cresceu abruptamente depois da última crise, se tornará mais aguda. Em particular, dezenas de milhares de pequenas empresas, sem acesso aos grandes mercados de crédito, quebrarão. Haverá enorme concentração empresarial e desaparição da classe média. Como as sociedades reagirão?

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Há um problema grave em Bangu, na Zona Oeste do Rio, neste exato momento. Mesmo sob risco de se contaminarem com o vírus da covid-19, centenas de pessoas empobrecidas aglomeram-se diante da agência da Caixa Econômica Federal, na esperança de receber o auxílio emergencial de míseros R$ 600, aprovado pelo Congresso Nacional ainda no final de março. Dos 96,9 milhões que o solicitaram, pouco mais da metade (50,5 milhões) foram considerados “elegíveis” a obtê-lo. Mas, apesar de estarem nesta condição, muitos, em todo o país, ainda não tiveram o depósito em suas contas. Por isso, passam a noite em filas na calçada, esgueirados em cadeiras ou deitados sobre pedaços de papelão. Após as 10, quando a agência abre, a maioria entra apenas para voltar de mãos abanando.

Mais incerta ainda é a situação da segunda parcela do auxílio, que deveria ter sido paga entre 27 e 30 de abril. Quase duas semanas depois, a Caixa ainda afirma que “está escalonando” os pagamentos, mas não há cronograma algum. Ontem, O Estado de S.Paulo indagou o secretário do Política Econômica do ministério da Economia, Adolfo Sachsida, sobre a possibilidade de estender o minúsculo benefício – inclusive porque não há nenhum sinal de que a pandemia possa arrefecer até o início de junho. Suas respostas: o auxílio “foi desenhado para durar três meses e acabou”. O congelamento, por vinte anos, do gasto social “veio para ficar”. Assim que passar a crise, o governo retomará a pressão pelas ”reformas” que apertam ainda mais o torniquete. Entre outros pontos, elas obrigam os Estados a privatizar o abastecimento de água e permitem reduzir os salários nominais dos servidores públicos e encurtar as jornadas de trabalho – inclusive de médicos, enfermeiros ou professores.

O Estado brasileiro, que conta os centavos transferidos às vítimas da pandemia, tem, porém, mostrado-se generoso com a oligarquia financeira nacional. Aprovada em 6 de maio, a chamada “emenda constitucional do Orçamento de Guerra” permite ao Banco Central, à semelhança do Fed, assumir as montanhas de títulos podres que estão sobrando nas mãos dos bancos, diante da quebradeira de grandes empresas. O valor a ser emitido para tanto ainda é incalculável, mas algumas estimativas falam em “trilhões de reais”. Um detalhe: para contentar os mais ricos, os deputados e senadores rejeitaram, inclusive, um destaque que obrigava as instituições beneficiadas por dinheiro público a manter empregos.

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Não haverá “volta ao normal”. O mundo após a pandemia poderá ser muito melhor – ou muito pior – comparado àquele que havia antes do entrarmos no túnel. Uma parte importante da equação que desenhará o novo futuro está sendo definida agora, nas decisões por meio das quais os Estados zombam das velhas noções sobre o dinheiro. Ao salvar setores que de outra forma estariam liquidados ou seriam forçados a encolher drasticamente, eles garantem a solidez de atividades essenciais ao sistema. Pense nas fábricas de automóveis, na extração de petróleo por fragmentação de rocha, nas usinas termelétricas – mas lembre-se, em especial, no imenso cassino financeiro que subjuga as economias e sociedades. Em contrapartida, ao negar recursos para que as maiorias tenham uma vida digna, independentemente de trabalho, estes mesmos Estados criam um ambiente em que os assalariados estarão, depois da crise, ainda mais submissos à ditadura do capital. Pense nas enormes hordas de desempregados, nas novas ondas de “ajuste fiscal” e, em especial, em como estarão envidadas as maiorias.

É gravíssimo – mas este tema ainda não é parte do debate público. Os neoliberais e a direita querem restringi-lo ao máximo, por razões óbvias. Mas mesmo a esquerda o evita – em especial em países, como o Brasil, em que ela parece cada vez mais presa aos séculos passados. Não há discussão quase algum sobre uma Renda Básica da Cidadania, que poderia libertar a sociedade da tirania do trabalho assalariado, ao assegurar a todos condições para uma vida material frugal, porém digna. Nenhum partido propõe, por exemplo, um vasto impulso de investimento no Comum – a Saúde e Educação de excelência, o apoio a uma revolução urbanística nas periferias, as redes de metrôs e ferrovias, a despoluição dos rios e o saneamento para todos. Não de discute a criação dos Bancos Públicos. Toda a formulação política sobre o dinheiro fica nas mãos dos neoliberais. A chamada Teoria Monetária Moderna (TMM), que pode dar elementos para superar o atraso e enfrentar o debate é menosprezada – porque foi não é parte da criação teórica do marxismo.

Marx pouco estudou a moeda, que não era uma variável importante em seu tempo: a emissão de dinheiro estava atrelada a um lastro em metais nobres. A mudança veio a partir da I Guerra, envolve grandes reviravoltas e precisa ser estudada em profundidade (aqui, algumas hipóteses provocadoras). Mas os fatos narrados acima demonstram como controlar a moeda tornou-se – e será cada vez mais – crucial não apenas para concentrar ou distribuir a riqueza mas igualmente para moldar as relações sociais.

Na encruzilhada em que estamos, o rugido das ruas, temido por Economist, é a grande esperança para construir um mundo mais democrático e justo – e novas relações com a natureza. Para despertar este rugido, é preciso formular políticas que manipulem o dinheiro em favor do Comum. Ainda é tempo de corrigir o atraso. E é provável que Marx, inquieto e irreverente, se dedicasse ao estudo deste tema central, ao invés de voltar-se a dogmas – se precisasse, como nós, enfrentar o capitalismo contemporâneo


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