Pochmann: do colonialismo mental ao tecnológico

Leilão do 5G é retrato do nosso atraso: quarto país com maior tráfego de internet do mundo, Brasil não produzirá tecnologia e permanecerá refém das Big Techs. No rastro da desindustrialização, submissão digital aprofunda nossa dependência

Arqueiro Digital, 2017, Denilson Baniwa

“A pobreza intelectual e moral do Brasil é muito maior do que a pobreza material.”
João Manuel Cardoso de Mello

O governo brasileiro patrocinou, em novembro de 2021, o ato oficial de licitação da tecnologia de transmissão digital do 5G como se estivesse indo ao supermercado fazer uma compra qualquer: desprovido de planejamento governamental e muito menos de estratégia nacional que permitisse transitar da condição de mero consumidor para a de produtor. A dependência tecnológica se aprofunda aceleradamente.

Não bastasse isso, o silêncio midiático de parte da imprensa comercial e seus colunistas, porta-vozes do dinheiro, cada vez mais se converte em fonte geral da alienação nacional. Salvo exceções, o isolacionismo universitário esquadrinha o neocolonialismo mental, sem democráticos debates públicos na sociedade e parlamento. La nave va, já se sabendo para onde.

Sem noção e reflexão sobre a Nação, avança a incultura das elites que faz proliferar a perspectiva da modernização na Era Digital limitada ao mero consumismo econômico, social, cultural e politicamente degradante. Para um país crescentemente assentado no modelo primário-exportador, o consumo possível tende a atender a tão somente uma crosta enriquecida da sociedade, deixando de fora a maior parte da população.

Até a década de 1930, o Brasil seguia a antiga Era Industrial como mero consumidor, o que permitia fundamentalmente à oligarquia rural alimentar o consumo privado pela importação, enquanto a majoritária população vivia na longeva e primitiva Era Agrária herdada do escravismo colonial. Desde o início do século XIX, quando a chegada da família real em 1808 liberou o consumo de bens industriais através da dependente importação inglesa, o Brasil ingressou na Era Industrial de forma muito seletiva e, por consequência, excludente.

Em 1815, por exemplo, registrou o primeiro moinho de açúcar na Bahia movido por motor a vapor. Em 1852 chegava a primeira linha telegráfica na capital do Império (Rio de Janeiro), ligando os 4,3 mil metros que separavam o Palácio da Quinta da Boa Vista do Quartel General do Exército no Campo de Sant’Anna. No ano de 1877, dois anos apenas após ter sido inventado nos Estados Unidos, o primeiro telefone foi instalado no Brasil no Palácio de São Cristóvão, conectando tão somente as casas ministeriais do Império.

A prática do consumo conspícuo, consagrado pelo elitismo dos ricos do agrarismo, terminou sendo reforçado ainda mais na República Velha (1889-1930). Em 1891, um ano após a produção da Peugeot ter sido iniciada na França, Santos Dumont se tornou o primeiro motorista a rodar com um automóvel (Peugeot Type 3) no estado de São Paulo, enquanto em 1903, o conde Francisco Matarazzo foi o pioneiro a emplacar um veículo na cidade de São Paulo.

A trajetória da Nação meramente consumidora de bens da Era Industrial mudou radicalmente a partir da Revolução de 1930, diante da constituição do necessário Estado Industrial voltado para a industrialização. Inicialmente, a montagem da indústria de base (química, siderúrgica, elétrica, da mineração) apoiou o avanço da produção interna de bens não duráveis de consumo, intermediários e, posteriormente, produtora de bens de capital e de consumo durável.

Em apenas meio século, o Brasil transitou de uma nação meramente consumidora para produtora na Era Industrial, reconfigurando profundamente o sistema produtivo e sua participação na Divisão Internacional do Trabalho como exportador de manufatura. O velho agrarismo parecia ficar para trás, enquanto a modernização industrial alcançava – ainda que diferenciadamente – o conjunto de uma nova sociedade urbana de massa.

Quatro décadas após ter montado uma estrutura produtiva complexa e diversificada, o país declinou, deixando no rastro da desindustrialização a frágil inserção na Era Digital, novamente como um consumidor de grande porte. Para financiar o acesso aos produtos e serviços digitais garantidos pelos oligopólios das big techs estadunidenses ao Brasil, que ocupa a quarta maior posição no ranking mundial do tráfego de internet enquanto usuário de aplicativos estrangeiros (2020 State of Digital Report), o país voltou a depender da exportação de bens primários.

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4 comentários para "Pochmann: do colonialismo mental ao tecnológico"

  1. Julio Marinho Ferreira disse:

    Muito desse “lavar de mãos” por parte da mídia brasileira tem a ver com uma submissão às grandes empresas de telefonia e comunicação, no caso, Oi, Vivo, Claro e Tim, as maiores interessadas no consumo digital e toda uma infraestrutura predatória que rapina os dados dos usuários.

  2. pedro disse:

    sinceramente o cara se perdeu no texto. Nao tempos polo tecnologico para produzir alta tecnologia.

    A FRANÇA usa tecnologia 5G chinesa

  3. Jorge de Souza Santos disse:

    O autor não se perdeu no texto. O que ele ressalta é o fato do Brasil entrar na era 5G sem qualquer tipo de projeto estratégico para o que aponta ser um dos principais marcos do estado da arte das tecnologias de Informações e Telecom. O mundo provavelmente utilizará a tecnologia 5G chinesa, mas como usará? A mediocridade se caracteriza exatamente por imaginar que a única alternativa à competição na produção seja o papel de mero consumidor.

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