Marcuse e as traições da tecnologia

Para filósofo alemão, tecnociência prometeu fim do trabalho degradante, mas gerou novas servidões — e alimentou guerras e fascismos. Décadas depois, uma estética multimídia tenta reduzir imaginação ao corpóreo e ao consumo

Às quartas-feiras, Outras Palavra publica uma série de artigos de Ricardo Neder, intitulada A Gambiarra e o Panóptico (fruto de livro homônimo, publicado pelo Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina, da UnB, e editora Lutas Anticapital) que, por meio dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, visa compreender a sociedade de controle e vigilância – e se é possível superá-la e reconstruir o Socialismo e as Democracias. Leia a apresentação da série. Aqui, todos os textos já publicados. O título original do texto abaixo é: Meio século de Eros e Civilização

Por Ricardo Neder | Imagem: Pawel Kuczynski

Todo deslocamento (ou Verschiebung, em Freud) assume uma correspondência linguística na metonímia que consiste em designar uma coisa A pelo nome de outra B, em virtude de uma relação não de semelhança ou similaridade, mas de contiguidade, de interdependência real entre ambas: o deslocamento metonímico é extensamente trabalhado pelos autores da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Está presente em Theodor Adorno, quando nomeia por exemplo, nostalgia (Sehnssucht) simultaneamente, nostalgia (passado) e ânsia (futuro). Aqui tomado como vivência decomo algo que orienta o imaginário criado pela tecnologia em direção a uma certa (in)capacidade estética de condensar a experiência humana da memória e do fluxo do tempo dos nossos sentidos; seria, também, o que – depois da experiência do aqui-e-agora (presente realizado) – sentimos como uma irremediável perda de substância e aura.

É precisamente essa ambivalência que nos assola como sujeitos nem modernos nem contemporâneos, projetando-nos ora no campo das práticas de sujeitos heterônomos, ora no campo da fluidez e da garantia da autonomia. Estamos diante de uma inevitável estrutura ambivalente que marca com tinta forte a matéria-prima entre o artificial e o gerado por processos espontâneos, como se, finalmente, aí residisse toda a unidade da narrativa na pesquisa e no invento científicos, nas correntes do romance, no cinema e no vídeo, enfim, o que unifica a narrativa é a similitude, a verossimilhança com o natural, a imitação (mimesis) do real.

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Marcuse anteviu há meio século (em Eros e Civilização) que a relação entre fascismo, capitalismo e tecnologia não sairia do horizonte histórico da modernidade. Sob esta tríade, a tecnologia comporta uma traição da estética e da liberdade. A primeira é ter se convertido em uma forma quase própria de dominação pelo auto-engano, dissimulação ou engodo (mímesis). Com a falsa promessa de alforriar a humanidade do trabalho degradante. A segunda traição foi o capitalismo gerar uma tecnologia que tem por base a sublimação repressiva mediante novas formas de servidão mediadas pelos dispositivos (celulares, computadores, comunicações de satélite, alimentos industrializados, armas etc). Promessas da vida moderna. Aspiramos a uma vida autêntica mas temos que apoiar a esfera das instituições que nos garantem a vida em comum, subjetividade da nossa consciência, emoções, sentimentos afetos associados ao consumo como regra e estilo de vida. Elas nos permitem a intersubjetividade nos espaços públicos. Mas as instituições ameaçam esta intersubjetividade devido aos dispositivos que nos invadem pela maré neoliberal, ideologia de uma sociedade cataláctica (das trocas); neste caso devemos reformá-las e sua legitimidade ser refundada. Na impossibilidade, devemos derrubá-las. Se isso for inviável, temos que achar os meios de destruí-las, contrapondo força-contra-força se necessário, pois neste caso elas já se converteram em domínio da tirania (Hannah Arendt).

Na sua origem, a civilização ocidental avançou contra a barbárie na luta tenaz da emancipação contra a servidão. As formas de servidão, contudo, sucedem-se historicamente. Hoje deparamos com a potenciação do corpo exomático (tecnológico) do trabalho humano na sua relação com a natureza, o que é fruto de criação, transformação cultural e expansão tecnológica desde o século XVIII. O sujeito das tecnociências (ordem e desordem, controle e vigilância, real e virtual, metonímia e deslocamento, abolição do natural, naturalização do tecnológico) pratica hoje – por comutação digital da vida – algo próximo a uma solução artificial. Estamos longe de uma comprovação de que se converterá em solução cultural na dimensão da inteira humana condição (Montaigne). Embora seja um tema clássico no Ocidente, a mundi machina ou máquina do mundo é um signo polissêmico, cujo desvelamento nos nossos dias tem afinidades com a teoria crítica em sua análise das novas formas de repressão da cultura de massa.

Esse signo (máquina do mundo) revelou-se promessa de fidelidade do pensamento ao ser e à verdade no Renascimento. Como resgatar a máquina do mundo enquanto imagética da grande recusa, rebeldia, transgressão? Diante de uma desvairada cultura tecnocientífica instaurada na era napoleônica e humboltiana, a ciência foi no berço prometida como virgem ao senhores da guerra e da acumulação industrial. Elaborar esta recusa tem sido um empreendimento de múltiplas vertentes e potenciais no último século.

Esse empreendimento encarado por Herbert Marcuse, emEros e Civilização, buscava uma nova leitura do desafio posto por Freud ao realizar certa psicanálise da grande recusaà máquina do mundo, a fim de identificar o caráter reprimido desta insurgência contra o poder destrutivo da civilização, utilizando o ensaio para expressar o princípio de contradição.

Há razões para comemorarmos meio século de publicação da obra de Marcuse, a primeira da Teoria Crítica a aprofundar o diálogo filosófico de forma sistemática com as ideias da psicanálise. Marcuse afirma que as categorias psicológicas se converteram em categorias políticasuma visão que está na base das teses de Eros e Civilização. Neste sentido, afirma a moderna simbiose entre liberdade e servidão. Embora tal perspectiva não seja o foco central das teses de Marcuse em Eros e Civilização (foi melhor desenvolvida no livro posterior, O homem unidimensional), é clara a anterioridade de Eros e Civilização para essa conclusão, pois a simbiose passa pela compreensão do papel das formas de sublimação não-repressivas do prazer pelo sujeito moderno.

Marcuse interrogou filosófica e politicamente por que o sujeito moderno continua agrilhoado à simbiose entre liberdade e servidão quando a produtividade gerada pela base técnica poderia romper estes grilhões. Sua explicação (aqui resumida e empobrecida) pode ser descrita numa interessante passagem na qual comenta o fato de que as tentativas de revisão (e absorção das teses de Freud) apresentavam (até os anos 1960) uma correlação positiva e até entusiástica entre o papel do prazer no trabalho, e o prazer libidinal. Ora, contesta Marcuse, se eles usualmente coincidem, então o próprio conceito de princípio de realidade torna-se supérfluo, e vazio de significado se este não governar o trabalho, não terá coisa alguma a governar, na realidade. O que nos convida a uma re-vivênciade Eros e Civilização não é, contudo, esse ponto – fundamental para a questão se é possível uma sociedade não-repressiva nos marcos do capitalismo e do socialismo avançados. Trata-se de outra dimensão relacionada com sua tese sobre a emergência da estética na modernidade do século XVIII.

Em “A dimensão estética” (título de um dos capítulos de Eros e Civilização) seu objetivo é demonstrar que perante o tribunal da razão teórica e prática, a existência da estética está condenada a resultar em repressão cultural de conteúdos sob o princípio do desempenho (ou da produtividade e racionalidade instrumental). Tentaremos desfazer teoricamente a repressão recordando o significado e função originais da estética (que é sua) associação íntima entre prazer, sensualidade, beleza, verdade, arte e liberdade, uma associação revelada na história filosófica do termo estética.

Essa é precisamente uma das contribuições marcantes de Eros e Civilizaçãopara o momento. Pois ela assinala a contradição atualíssima em torno da profusão de uma estética multidimensional e avassaladora que engloba as multimídias e formas visuais (sua semiologia e semiótica) na transmissão de conhecimento e proliferação das informações na web, publicidade e artes na comunicação enquanto elo crucial da indústria de consumo com a indústria cultural. Claro, essa estética é parte do imaginário criado pela tecnociência. Porém, o que é essa estética, senão uma certa capacidade de nos seduzir (estesia) por condensar a experiência humana da memória e do fluxo do tempo dos sentidos, a qual depois da experiência do aqui-e-agora (presente realizado) – sentimos como uma irremediável perda de substância e aura?

Parecem nascer desse sentimento de perda, as tentativas da estética em lidar com os suportes tecnocientíficos. Elas fazem do passado e presente, extensão para o futuro; captam e recriam o olhar, o paladar, o tato, a audição, o deslocamento pela imaginação e o mentar como algo corporal.

Tem esse suporte na estética, como se a relação com a técnica, é simples e direta, e nos permitiria – apesar da condição assexuada e descontextualizada dos dispositivos e dos maquinismos – viver coletivamente a tecnociência como condensação daciência cognitiva dos sentidos. Tal ciência nos une, pois os objetos e processos tecnocientíficos são instâncias culturais mas diante dessa condição, vivemos um estranho afeto, porque inconsciente diante da máquina.

Este nos separa justamente pelo fato da perda de substância e da aura do presente se tornar um ciclo de repetições que vai do ato de consumo no mercado para a satisfação e esgotamento do prazer do objeto consumido, e daí retorna ao consumo que retroalimenta a produção mediada pela tecnologia. Por isso mesmo toda produção de tecnologia está embebida na estética. A disciplina estética instala a ordem da sensualidade contra a ordem da razão(repressiva), segundo Marcuse, que propõe nos apropriarmos dessa origem da grande recusa das humanidades e artes diante do inexorável avanço das ciências exatas, físicas e naturais desde o século XVIII.

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Um comentario para "Marcuse e as traições da tecnologia"

  1. josé mário ferraz disse:

    Toda esta intelectualidade pode ser resumida no seguinte: PARASITA NÃO DEIXA EXPONTANEAMENTE O HOSPEDEIRO.

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