Objetos feitos humanidade e o equívoco de Lenin

No capitalismo, as tecnologias não foram usadas apenas como extensão do corpo humano, mas também para conquistar o outro. Daí a impossível transposição das máquinas em um mundo socialista, como queria líder soviético

Às quartas-feiras, Outras Palavra publica uma série de artigos de Ricardo Neder, intitulada A Gambiarra e o Panóptico (fruto de livro homônimo, publicado pelo Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina, da UnB, e editora Lutas Anticapital) que, por meio dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, visa compreender a sociedade de controle e vigilância – e se é possível superá-la e reconstruir o Socialismo e as Democracias. Leia a apresentação da série. Aqui, todos os textos já publicados. O título original do texto abaixo é: Objetos feitos humanidade

Se o mundo como imagem desvanece, uma nova realidade cobre toda a terra. A técnica é uma realidade tão poderosamente real – visível, palpável, audível, ubíqua –, que a verdadeira realidade deixou de ser natural ou sobrenatural: a indústria é a nossa paisagem, nosso céu e nosso inferno.
(Octavio Paz)

Faz-se necessário outro percurso, de tal forma que nos deixemos tocar por fragmentos do ensaio que capte o objeto tecnocientífico no cotidiano. Os objetos tornaram-se extensão e materialidade dos corpos humanos, contudo só aprendemos a identificar como também nosso o encontro de corpos próprio da intersubjetividade humana. E esta, cada vez mais mediada por objetos, não se dá conta de que necessita de outra individuação presente no objeto técnico. Essa é outra classe de objeto (Simondon) pensado e construído pelo homem; ela não se limita apenas a criar uma mediação entre o homem e a natureza é um misto regular do humano e do natural, contém o humano e o natural. A atividade técnica vincula o homem à natureza. As imagens da física contemporânea aprofundam o réquiem para a máquina do mundo. A vivência de transformações irreversíveis acarretadas pelo encontro com o outro passou a ser sentida como oposição à antiga ordem identitária, negação da ameaça de auto-desintegração, conforme notado pelos psicanalistas diante da teoria social.

Passamos a ter de aceitar que a representação da coexistência dos corpos não é neutra, está carregada de perturbações para a ordem dos próprios corpos, o que gera transformações irreversíveis para a coexistência, podendo nos levar à destruição. Aceitar (caso de fato se aceite em situações concretas) que as transformações não são portadoras de destruição, pode significar que já assumimos uma personalidade coletiva psicopatológica (Bateson) que se apropriou da vontade de poder controlar essa destruição. E levar o sujeito contemporâneo a essa condição é justamente ser capaz de assumir as consequências do reconhecimento do titanismo, isto é, a tentativa de controle sobre o controle da natureza.

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O titanismo é a relação do sujeito do conhecimento com a potenciação de toda tecnologia, a qual se distingue da técnica. Esta é marcada pela relação entre meio-fim inserida numa base social, cultural, ecológica. A tecnologia, ao contrário, embora também seja uma relação meio-fim, se aplica de modo universal independente de contextos concretos. Há, pelo menos, três grandes estéticas do titanismo hoje. Uma delas reside no fato de que todo domínio de conhecimento científico se define pelo seu horizonte tecnocientífico dividido entre uma expressão substantiva (uma teoria sobre o vôo, por exemplo) ou operativa (uma teoria sobre as decisões ótimas sobre o trânsito aéreo numa região). A outra se expressa como um desejo e/ou necessidade, e, enquanto tal, pode ser convertida em fim em si mesma (meu desejo de locomoção, por exemplo, está sempre associado ao automóvel).

A terceira estética do titanismo, enfim, é o poder tecnocientífico transformado na principal (e última) forma de dominação (em contraste com a de origem de classe, religião ou tradição e poder).

As consequências são múltiplas e polimórficas. Nesse campo, as representações de resistência que fazemos das relações do sujeito contemporâneo com o outro (moderno), adquirem a figuração da trama, do enredamento, da tessitura. Essa relação se abre como desconfiança, pois nem imaginamos como isso irá ajudar o sujeito contemporâneo em suas/nossas relações, quer com a família, o amor, a vida erótica, quer com os vizinhos, quer, ainda, com a produção, a cidade, a escala microssocial. Como se pudéssemos dizer que o dilema socialismo versus barbárie não mais seja apropriado. Trata-se de tensionar as formas do controle democrático sobre o controle técnico da tecnologia, em direção a um fundamento libertário latino-americano (o que se aproxima concretamente de plataforma já em curso histórico desde os anos 1970, como a Filosofia da Liberação, cuja similitude com a teologia da liberação não parece ser descabida).

Como se constrói uma circunstância cultural que possa ser um campo de amortecimento, apropriação e deslocamento da máquina? (E, portanto de despojamento, desconstrução e ao mesmo tempo, conquista das novas ciências frente as tecnociências corporativas militares e de controle econômico no cotidiano?). Um simples clipe de fato, é um objeto que não paramos para observar, é-nos insignificante à primeira vista. Por sua capacidade de manter coisas unidas, evitando que se dispersem, é umobjeto que realiza seu trabalho de forma fiel, idêntica e eficaz. O clipe, portanto, seria algo como uma qualidade próxima a de uma figura da ética. Já a máquina de lavar roupa… Nesta colocamos nossos panos usados e sujos e, ao final de um ciclo, nós os recuperamos limpos e sem memória do estado anterior.

De forma similar, muitas religiões inventaram mitologias com ciclos depois da morte, vencidos os quais, as almas são lavadas, desprovidas de toda memória, limpas de sujeiras, e refeitas como novas. E o fósforo?Já foi dito que acendemos o fósforo como Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses, o trabalho do homem. O fósforo, furioso e delicado, recolhido no seu casulo marrom, mas, quando chamado e provocado, estoura, polêmico, esclarecendo tudo.

O que dizer do dinheiro!? Os psicanalistas dizem que os tabus terapêuticos são poderosos. Analistas foram interrogados sobre aquilo que sentem nunca poderem fazer com um paciente. Descobriu-se que tocar e segurar, gritar e bater, beijar, ficar nu e fazer sexo, beber com o paciente, tudo, enfim, era menos proibido que emprestar dinheiro a um paciente. O dinheiro nos leva para dentro de mares incertos, constela o tabu máximo que se consubstancia em brigas de herança, fantasias sobre um carro novo, casas antigas, em batalhas matrimoniais sobre gastos, assaltos, sonegação de impostos, especulações do mercado, medo da bancarrota, pobreza, preconceitos (Hillman). Talvez a imagética (aura perdida) da técnica resida no fetiche que lançamos para conquista do outro, fetiche que se volta contra a mentalidade ocidental. Tal poder da imagem iconográfica de nos afetar, próprio de objetos naturais ou artificiais, tem múltiplos significados. É resultado do entrelaçamento ancestral entre a cognição de imagens e das palavras, equivale à mimésis (a que se refere um Aristóteles). Mas modernamente tornou-se uma mímese que se afirma como emulação no sentido de dispositivo construtivo da rivalidade que induz alguém a imitar o outro (seja para igualar-se ou para superá-lo). Assim, a técnica não está simplesmente imitando a realidade, mas possibilitando que alguém crie uma realidade própria, mesmo que a partir do erro da cópia. Esta criação tem os mesmos elementos da realidade a qual se imita, porém com um novo olhar, uma experiência única, diferenciada. A imitação sempre leva ao erro-e-acerto. Todo fenômeno é recebido pelo agente humano conforme um conjunto de expectativas apreendido a partir da cultura a qual o agente pertence (Luiz Costa Lima). A técnica opera sob essa lógica: a passagem veloz da palavra para a imagem faz uso da mímese (o que levou Lenin ao equívoco quando afirmou que não haveria socialismo sem conversão da tecnologia capitalista aos objetivos da revolução). A imagética pode trair, pois é uma forma de atuar no campo de similitudes/mimetismos que pressupõe linguagens dotadas de impacto fundador na cultura comum. Todos os objetos técnicos geram campos linguísticos novos pelo compartilhamento. Os objetos e os sistemas de máquinas (dispositivos) por não serem exclusivamente mercadorias e, tampouco, “isso” psicanalítico, são parte da nossa intersubjetividade coletiva como multidão (Negri). Daí a inviabilidade de adotar tecnologia desenvolvida para relações tipicamente capitalistas (mais-valia, lucro, controle hierárquico, meritocracia), para ambientes, relações e contextos socialistas. Esta lição foi aprendida pela via chinesa que radicalizou as filosofia política das soluções tecnológicas capitalistas mediante a criação de outras relações de hierarquia, controle de coletivos, estilos de vida e trabalho que integram a vida publica e privada como familiarismo-corporativo-empresarial (os jovens vivem e trabalham nos seus locais de trabalho projetados para incluir habitações e equipamentos coletivos).

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